Pular para o conteúdo principal

Pensar é um crime!?


Hoje ao comprar o pão, como faço rotireinamente à tarde, pude presenciar um comentário que ao mesmo tempo em que me deixou preocupado, demonstrou ser uma realidade inquestionável. Duas atendentes que trabalhavam no caixa do supermercado conversavam sobre os filmes que mais gostavam. Até aí achei algo extremamente tranqüilo senão raro por essas paragens "enforcadenses". Depois de debaterem a respeito de um filme nacional do momento estar alcançando um questionável sucesso graças a um apelo um tanto religioso, eis que uma delas lança e me fere tal qual uma flecha a seguinte afirmação: "o filme é ruim quando chega no final e a gente é que tem que ser criativo e entender". E a outra, concordando, emendou: "Eu também não gosto desses filmes que fazem a gente pensar...". Respirei fundo... Olhei para os lados segurando para não soltar um palavrão e tentar mostrá-las justamente o contrário. Contive minha índole de filosofante. Saí da loja com um leve mal-estar depois do que ouvira e comecei a refletir – essa estranha mania que me toma desde minha saudosa época de estudante profissional. Confesso que a vontade que me deu foi, além de xingar, pular no pescoço das duas tentando esganá-las dizendo que elas não mereciam estar vivas, aliás, não mereciam nem serem denominadas de humanas por afirmarem tal coisa. Mas, graças à fortuna, contive-me. Depois que passei a exercitar essa coisa que me faz escrever pude desenvolver dentro de mim um espírito verdadeiramente cristão – ainda que momentaneamente – e perdoá-las. Pois é. Depois de toda aquela minha insatisfação, para não dizer raiva, cheguei à conclusão de que as pobres coitadas não tinham culpa de suas verdades tendo em vista que a cultura à qual respiramos impõe justamente esse tipo de pensamento, esse tipo de ideia, e o que é pior, transforma-a numa verdade absoluta. Talvez se eu interferisse na conversa delas poderia até sofrer algum tipo de agressão ou então ser taxado como estúpido. Pensar hoje em dia soa até como um palavrão, um crime horrendo que alguém praticou, e se eu me dispusesse a proteger o pensar, afirmando que o filme que faz a gente pensar, que permite ao simples assistente um exercício de reflexão, é muito positivo, no sentido de ofertar a nós um momento de engrandecimento espiritual, poderia ser taxado no mínimo como "olha o chato que vem comprar pão de novo". Agi bem (eu acho) ao ficar calado e agora expor um pouco minha indignação diante daquela situação. A ideia que me vem à cabeça é de desespero ao constatar que minha realidade está infestada de pessoas com esse mesmo pensamento. De pessoas que, talvez por força das circunstâncias, dão-se ao luxo de acomodarem-se e assumir abertamente que a inteligência ou a razão não as fará felizes. Quem sabe até o errado seja eu e não elas ao seguirem uma tendência tão lugar-comum nos dias de hoje. Eu é que estou errado ao tentar mostrar um caminho que creio ser mais feliz para as pessoas, pois a experiência desse caminho é exclusivamente minha, o que não me dá o direito de impô-lo a outras pessoas. Se elas estão felizes com as suas escolhas, que seja!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um professor pode usar um jaleco branco?

Essa semana fui acometido por uma imagem no mínimo intrigante: um professor vestido num jaleco branco. Devo admitir que há muito vira uma imagem desse tipo, mas a associava sempre a algo antigo, ultrapassado, que professor ou escola alguma jamais utilizasse mais tal indumentária.

Conversei com alguns colegas de trabalho sobre o acontecido e fui surpreendido por um comentário que me fez questionar meu "pré-conceito". O comentário versava sobre o fato de que, segundo esse colega, todo professor deveria usar essa roupa pois ela impõe respeito diante dos alunos. Achei esse comentário estranho, pois jamais passou pela minha cabeça que um professor dependesse de uma roupa para conseguir respeito entre seus alunos.

Ao refletir sobre o assunto em questão, recordei-me de minhas aulas de sociologia na universidade onde meu estimado professor falava sobre o papel que a indumentária pode exercer sobre as pessoas numa dada sociedade. Citou o exemplo do médico e em seguida do advogado em qu…

O problema da democracia

A democracia, é notório para muitos de seus defensores, é uma das melhores formas de governo que o ser humano pode gozar em sua história. Repleta de vantagens, de benesses, é de fato uma das formas de governo mais aprimorada para lidar com o ser humano em sociedade e seus anseios de liberdade. Mas hoje em dia mais se assemelha a um discurso envelhecido manejado pela velha burguesia que tenta impor mais uma vez goela abaixo suas sutis formas de dominação, alienação e controle - aliás, e quando de fato ela deixou de sê-lo? Apesar de ela ser a melhor forma de governo para lidar com o próprio ser humano em coletividade, ainda assim traz consigo algumas mazelas cancerígenas e que muito provavelmente irão demorar para extinguir-se, pelo menos por aqui, nas paragens tupiniquins.


A democracia manifesta como uma de suas mazelas cancerígenas, o que parece até um paradoxo, a diversidade de opiniões. Calma, não estou aqui afirmando que sou contra a diversidade de opiniões, mas por permitir uma d…

O MUNDO DA APARÊNCIA OU DA TITULAÇÃO

Ao preparar uma aula sobre Platão para os alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) aqui no município onde trabalho, deparei-me novamente com os conceitos e aspectos que identificam a filosofia platônica e pude então refazer minha perspectiva a respeito de sua filosofia e o impacto dela nos dias de hoje. Ao realizar isso, pude perceber, mais uma vez, o porquê de este filósofo grego ser tratado como referência, como base, como clássico de fato na tradição filosófica ocidental.

Obviamente que não farei aqui uma interpretação aprofundada, rebuscada, acadêmica sobre este fantástico filósofo. No muito, inclusive como é próprio da proposta deste blogue, farei minhas inserções de cunho meramente "filosofante" neste post para que o leigo possa compreender o papel que a filosofia, em especial a filosofia platônica, pode auxiliar o ser humano na busca de sentido da nossa realidade tão mascarada, tão escondida e tão enviesada de ideologias dominantes. Obviamente também que a propos…