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Da difícil arte de ser professor

Por mais que tente ficar à margem das misérias que envolvem o mundo dos nossos políticos, não posso deixar de me furtar de alguns acontecimentos que, na minha expectativa de filosofante, são inevitáveis para um comentário sintético.

Recentemente meu estado sofreu uma greve de professores que durou pouco mais de vinte dias. O objetivo maior da greve dizia respeito à implantação do piso nacional que sofreu um aumento desde o início deste ano e que o nosso governador foi postergando sorrateiramente durante alguns meses crente de que os professores deveriam entender a situação delicada financeiramente que, de acordo com ele, o estado está passando.

Não pude comparecer efetivamente às ações e discussões pertinentes ao sindicato em função de minha atual condição na escola onde trabalho, mas fazia questão de, pelo menos, ficar a par do que estava acontecendo, seja através da mídia ou através de colegas que lá estiveram e presenciaram os muitos acontecimentos que se sucederam nesses poucos mais de vinte dias de greve. Dentre os muitos fatos, ocorreu um que me chamou atenção: o discurso ou a justificativa do nosso então governador diante das impossibilidades da aplicação do piso nacional aos professores da rede estadual. Embora o estado tenha cumprido o acordo do piso no ano passado de forma exemplar, este ano fora deveras distinto em função da desaceleração da nossa economia, segundo ele. Em contrapartida, em vários momentos seus colegas e aliados de seu próprio partido comentavam que o estado poderia ativar um mecanismo legal de auxílio à aplicação do piso aos professores, sem comentar o discurso da oposição que sempre afirmava que o estado dispunha sim de recursos necessários para a aplicação do piso aos professores. Todavia, indiferente a isso, nosso então governador decide impor sua proposta e impossibilita o que ele dizia primar tanto, o diálogo.

Passados esses dias de greve, enquanto estive na escola cumprindo com minhas obrigações, pude refletir a respeito da condição da educação que estamos vivendo neste estado. Falo da educação em seu nível institucional, de uma educação que carece dos professores, dos funcionários da escola e, obviamente, dos alunos. Se os professores públicos são forçados constantemente a lutar para adquirir seus direitos, sua “valorização”, o que acontece aos da rede privada? Se o professor da rede pública possui o “luxo” de poder lutar para adquirir seus direitos ou, na palavra da categoria, sua “valorização” – que é uma luta mais do que justa –, o que acontece então com os demais professores que são literalmente obrigados a trabalhar nas piores condições psicológicas ou não de trabalho, diga-se de passagem, por exemplo, com o fantasma de ser demitido porque deu nota vermelha na classe se sujeitando a ganhar um salário mínimo – ou até menos – e a dar aulas em outras escolas para conseguir completar sua renda para sobreviver?

Claro que não estou desmerecendo a luta dos professores da rede estadual, mas o que chamo a atenção é para, mais uma vez, notarmos o descaso que os nossos governantes possuem em relação a algo que o tempo todo eles afirmam ser tão importante que é a educação. As greves que ocorrem e que muito provavelmente vão continuar acontecendo diante desse quadro atual são reflexos de problemas estruturais muito maiores. Quando falamos em qualidade de trabalho, por exemplo, falamos em trabalhadores satisfeitos com a sua condição e, para estarem satisfeitos, o essencial envolve sobretudo sua remuneração já que vivemos numa sociedade que prima tanto por isso – e isto sem comentar a valorização do profissional que reflete também no seu status, no seu reconhecimento diante dos outros e de si mesmo. As greves, no meu entender de filosofante, independente das razões, é um sintoma de que algo de ruim está acontecendo àqueles trabalhadores. Algo que estaria abalando seu reconhecimento social – ou pessoal – e assim o torna infeliz e o faz buscar esse algo que lhe falta. Se formos observar as muitas condições que muitos professores são obrigados a trabalhar, acredito que entenderíamos quaisquer de suas razões quando decidem por uma paralisação ou uma greve. E isso não é uma exclusividade dos professores, mas sim de qualquer trabalhador de uma sociedade no capitalismo tardio. Será que algum dia veremos, por exemplo, greve dos nossos parlamentares? Acho muito difícil! Por quê? Porque eles gozam de regalias e de direitos que, apesar de contestarmos, eles acham completamente legítimo visto que “um país democrático não vive sem os representantes do povo”, ora, e de professores? De policiais? De faxineiros? De comerciários?... E não estou sequer entrando no mérito dos volumosos salários e gratificações que um parlamentar recebe quando diz estar trabalhando em benefício daqueles que o elegeram!

Como vemos, por mais que surjam campanhas e mais campanhas que reforcem a ideia da importância do professor para a formação de uma sociedade mais igualitária e etc., a realidade se mostra bem diferente. Não é à-toa os índices estatísticos alertarem para um fenômeno peculiar da nossa época: cada vez mais estão se formando menos professores. E mesmo aqueles que tentam de forma romântica ingressar ou permanecer na carreira do magistério, a todo instante são bombardeados com obstáculos que os levam a se questionar da escolha que fizeram: “Será que hoje em dia vale a pena de fato tornar-se um professor”?

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