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Suicídio: capacidade racional?

O que leva o ser humano ao suicídio? O que leva uma pessoa a tirar sua própria vida? Seria o suicídio algo de fato abominável como apregoa algumas religiões cristãs? Seria algo louvável, digno de méritos, como ocorre em determinadas culturas exóticas para nós? 

Pelo menos temos uma certeza – e que ainda pode ser contestada: o ser humano é o único animal da natureza que possui essa “capacidade” de tirar sua própria vida. 

Talvez por causa dessa capacidade racional que lhe permite discernir a realidade à sua volta, da sua vida, enfim, a consciência da sua existência diante da terra, do universo ou do mundo. 

Talvez pelo fato de que nós somos “especiais”, mais “importantes”, mais “complexos” que os animais e por isso podemos realizar algo que eles jamais realizariam: o suicídio. 

Talvez o suicídio seja uma evidência do medo, da angústia ou ainda da profunda infelicidade que nós carregamos dentro de nós mesmos e que fazemos de tudo para não nos depararmos com ela, mas quando isso acontece não possuímos a destreza de lidar com ela, com esse "lado negro", "obscuro", escondido nos recônditos da alma, sempre à espreita, à espera da melhor oportunidade para vir à tona e nos dominar por inteiro. 

Nossa alma é frágil, não dispõe de uma armadura completamente impenetrável. Para penetrá-la, não obstante, não é necessário muito esforço, “basta apenas” que se saiba compreender o ser humano em sua humanidade ou uma palavra bem dita ou “mal-dita”. Não adianta uma armadura bem resistente. A palavra certa penetra na carne, nos vasos sanguíneos, nos órgãos, no cérebro e atinge seu objetivo: a alma – tudo isso, mais uma vez, graças ao intermédio da nossa incrível “capacidade” que nos torna distinto dos animais, a nossa razão. 

O indivíduo põe em sua armadura uma aparência alegre, forte, triste, satisfeita, sorridente, enfim, põe uma aparência que muito dificilmente representará sua alma, sua essência, seu interior ou seu lado escondido. Por dentro um turbilhão de dúvidas, de medos, de angústias o toma, e esse mesmo turbilhão está afoito para tirar essa tampa da alma e saltar de forma desmesurada. Por isso o indivíduo ser obrigado a ser forte, resistente ou ainda astuto para controlar, dominar essa energia ávida por liberdade, porém extremamente destrutiva, sobretudo para ele mesmo. 

São raras as pessoas que dispõem das condições necessárias para controlar tal poder. E quando este mesmo poder emana, ai daquele que o reteve. Por isso nos assustamos ao vermos ou ouvirmos casos de pessoas que tiveram um “surto” e cometeram alguma atrocidade, alguma loucura com outras pessoas ou, talvez pior ainda, consigo mesmo, no caso do suicídio. 

O suicídio talvez seja o ápice do descontrole dessa energia destrutiva, poderosa, guardada a sete chaves no âmago d’alma. Seria preciso canalizá-la, direcioná-la aos poucos para algo que pudesse escoá-la e assim não deixá-la plena transformando-a em algo construtivo. O princípio é o mesmo que vemos nos vulcões, que, na qualidade de leigo, funcionam como válvulas de escape de uma energia extremamente poderosa que fica retida no âmago da terra. Sabiamente ou cautelosamente a terra a expele de vez em quando reconhecendo que se a desprezar poderá lhe ser fatal, podendo levá-la ao suicídio.

Por isso a necessidade do ser humano de saber encontrar um meio que faça escoar essa energia. Por isso a necessidade das artes, daquilo que lida com a alma. O ser humano não é só máquina, carne, corpo, trabalho, é também espírito, energia, lúdico. Uma alma atormentada é uma alma que não consegue canalizar essa energia e escoá-la a contento.

Comentários

  1. Nunca tinha lido uma descrição processual tão técnica acerca do suicidio,e de certa forma uma espécie de elogio disfarçado,(pelo menos não notei nenhum tom sarcástico.) a espécie humana,até nisso nós somos excepcionais,só não sei se fico feliz,ou triste.

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