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E o tempo passou

Tenho que admitir algumas verdades que são tão evidentes quanto a morte que nos aguarda. Verdades estas que nos levam a concluir de forma tão peremptória algo que achávamos já superado: sou um indivíduo solitário. Sobretudo depois que acreditei ser melhor morar em outra cidade que, embora pequena e limitada se comparada à capital sergipense, é aconchegante. Claro que sempre suspeitei de minha tendência para a solidão, no entanto, a existência de pessoas que compartilhavam desse meu ponto de vista a respeito da solidão - meus amigos - ajudavam-me a compreender e a lidar com ela de um modo frutífero.

Sou forçado a admitir, por exemplo, que não sou mais aquele cara de vinte e poucos anos preocupado em ter um emprego “decente”, como dizia constantemente, ao lado de pessoas que sentia prazer ao estarem próximos de mim e compartilharem dos mesmos problemas. Tenho que admitir que os amigos de outrora não mais gozam dos mesmos desejos, dos mesmos sonhos, dos mesmos problemas...

Talvez a beleza da vida esteja nesse reconhecimento muitas vezes tardio de que a vida é esse eterno movimento, essa mudança constante. É essa a condição do ser humano na história. Ontem me via um jovem cheio de expectativas vendendo insegurança, hoje me sinto vazio de expectativas e possuo uma segurança que desconfio se ela me satisfaz de fato. Lembro-me que até os amores eram diferentes, puros, cegos... Hoje até me questiono se o amor existe mesmo ou se é um artifício da natureza para unir esse ser - o humano - que se acha superior aos animais no intuito de manter a espécie.

Estou apenas comparando os momentos com certo ar de amadurecimento ou distanciamento para enxergar melhor o que foi ou o que eles representaram na minha vida. Claro que cada momento possui sua especificidade, sua maneira única de ser, de mostrar-se... Mas que dá uma certa saudade isso sim eu não posso me dar ao luxo de negar.

Também me questiono se tal percepção é um mero reflexo de minha cultura ocidental que tendencia meus pensamentos, meus sentimentos, meu jeito de ser, minha personalidade, enfim, minha vida. Dizer que sou livre dessas interferências talvez seja uma pretensão vã, ilusória. Até que ponto poderia realmente afirmar com todas as letras que sou incólume às influências de uma moda, de uma tendência, de uma ideologia ou ainda de uma saudade?

Hoje meus companheiros são outros sim - se é que posso chamá-los de companheiros de verdade como os de outrora não possuo essa certeza -, mas algo reconheço e admito: esses ditos companheiros de hoje não são mais aqueles de toda hora, de todo momento, dos mesmos desejos, quereres e sonhos. Sentar à frente da casa de minha mãe e definir o que iríamos fazer era uma praxe sagrada. Às vezes faltava um ou outro, mas aí tratávamos de buscá-lo onde quer que estivesse para completar os aventureiros da noite ou a denominação que a gente achava até então adequada, “Os Kerouac’s”, numa óbvia alusão ao On The Road desse autor conhecido dos anos setenta. Detalhe: apenas um de nós de fato lera o tal romance e nos contara os momentos que achávamos ter tudo a ver com nossos espíritos, com nossos "princípios". Nosso objetivo era claro: diversão para o espírito. Conhecer nossa cidade através de duas rodas (bicicletas, não motos) era uma consequência dessa busca; conversar sobre tudo e todos também; viver era a regra geral.

Hoje nosso nome de grupo não soa com tanta força como antigamente, e chega a ser até meio engraçado tentar resgatar aqueles momentos que jamais se repetirão. Pergunto-me até se seria desespero de nossa parte ousar tal façanha, ou melhor, se teríamos realmente esse direito de fazê-lo.

Agora, queridos companheiros, é tentar enxergar à nossa frente – como fazíamos naquela época – e buscar novas “aventuras”, novos desejos, reconhecendo que nosso passado foi algo maravilhoso além de proveitoso e que nos serve como alicerce para aquilo que nos tornamos hoje..


Meu irmão Mário (cod-nome Pi, "membro honorário"), Jhonny (irmão de Tony e mascote) e eu, nos idos anos 90.
Tony, eu, Marcos Aurélio (popular Wacko) e Sidney (popular Magal), a formação original dos Kerouac's.
Tony, Marcos e André, outro "membro honorário".

Comentários

  1. Pô meu fio,confesso que fiquei emocionado e pensante,compreendo inteiramente o que relatou,e assim como vc,o "passado"continua a me relembrar de momentos aos quais não desfruto mais,aliás,não desfrutamos...acho que isso só prova que apesar do tempo nos "castigar",e nos preencher com seus conteúdos lógicos e programáticos, nunca perderemos nossa carga sentimentalmente humana.

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