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Pré-Caju: festa sergipana?

Recentemente aqui no meu estado, mais precisamente na capital Aracaju, aconteceu uma festa que os organizadores intitulam como "a maior prévia carnavalesca do Brasil", o Pré-Caju. Devo admitir que essa festa traz ao nosso diminuto estado uma projeção nacional - ou internacional - e que por sua vez ajuda a propagar nossas belezas, nosso encanto, nossa identidade, nossa sergipanidade ao turista... Espere?! Eu disse "nossa sergipanidade"? Bom, acho que o que de fato tem de sergipano nessa festa é só o nome, "Pré-Caju", porque o resto é de outro estado, de outra cultura. Isto mesmo, a maioria absoluta dos artistas que cantam e tocam seus intrumentos em cima de caminhões de ensurdecimento massivo são baianos! As músicas aqui cantadas são de autoria dos baianos! O sotaque da festa é baiana! E boa parte dos turistas que veem prestigiar esta "grande prévia carnavalesca" também vem da Bahia!

É bom que fique bem claro: não tenho nada contra a Bahia, pelo contrário, até os admiro pela beleza de sua cultura, de sua arte, de sua história, de seu lugar e, sobretudo, pela sua identidade inquestionável e marcante. O que estou criticando são esses mesmos organizadores que creem veementemente que estão divulgando o nosso estado, o estado de Sergipe, com os artistas da Bahia. Ora, imaginem um turista que diz: "fui a Aracaju e vi Ivete Sangalo, vi Chiclete com Banana e etc." "Mas, e de Sergipe? O que você viu nesse Pré-Caju?", perguntaria alguém ao nosso desavisado turista, " O shopping Riomar!?" responderia ele.

Não pretendo aqui levantar uma bandeira em defesa de uma festa do Pré-Caju toda feita por "artistas da terra". Reconheço que não daria o mesmo ibope que as outras atrações, até porque também o ritmo ou o estilo musical, penso, não seria adequado aos nossos artistas que tanto lutam para realmente ter uma autonomia ou uma identidade enquanto artistas sergipanos, mas que isso também não deixaria de ser um desafio para eles. O que questiono é que: como uma festa meramente comercial pode se arvorar a afirmar que faz parte da cultura sergipana?! Difusora da nossa cultura sergipana se ela acontece com a maioria absoluta com artistas de outros estados? Sobretudo da Bahia?

Durante esse período da prévia, artistas baianos dão entrevistas, fazem aparições na mídia o tempo todo e convidam o aracajuano, o sergipano e os demais turistas das demais regiões do país para prestigiarem a festa. E, quando perguntados como se sentem fazendo essa festa aqui em Sergipe, eles respondem sem medo: "estamos em casa! Sergipe é o quintal da Bahia"! Os sergipanos cegos de paixão pelo seu estado esperneiam quando ouvem isso. Acham uma afronta aos nossos costumes, à nossa história, enfim, à nossa cultura. Mas eu pergunto: e esses artistas que afirmam isto estão errados? Ao meu ver, absolutamente que não, pois aqui eles treinam, ensaiam e realmente se sentem em casa, pois sempre são os principais convidados dessa "grande prévia carnavalesca sergipana" que nada tem de Sergipe! É uma festa meramente comercial, de interesses comerciais que não possui nenhuma pretensão de refletir nossa cultura!

Nos dias que antecederam essa "grande prévia carnavalesca" foi notícia aqui no nosso estado um blogueiro que reacendeu uma velha questão que sempre, de algum modo, passa por todo sergipano consciente: é muito dinheiro literalmente despejado nessa festa que enriquece poucos, principalmente os organizadores, que vem do nosso bolso. Pois é. Essa tal "grande prévia carnavalesca", assim correu na mídia, recebe ainda patrocínio e apoio dos governos federal, municipal e estadual, fora as empresas privadas; os organizadores ainda cobram os famosos abadás e seus respectivos blocos destinados para uma parte especial de foliões de boa origem gozando inclusive de segurança particular com os resistentes homens que seguram a corda chamados carinhosamente de "cordeiros"; e, obviamente, os camarotes vips destinados aos foliões que podem gastar pesadas quantias em um espaço restrito cheio de guloseimas e bebidas para simplesmente observar um caminhão de ensurdecimento massivo sendo seguido por uma multidão que acredita piamente que aquela música que está ouvindo é a melhor coisa que um ser humano poderia produzir em termos de canção, mas não pretendo me aprofundar mais nesses assuntos.

Comentários

  1. Observações realistas ilustríssimo,professor "Vicentus",principalmente sobre a "cegueira coletiva sergipana" que se manifesta em momentos festivos como esse.

    Afinal, odiamos quando intitulam sergipe de "quintal da Bahia",mas a hegemonia existente do pré-caju, ratifica e fortalece a hipocrisia de nossa indignação, um "Termo teórico" que não influencia na prática,a ação dos sergipanos.Mas como poderiam se ater a isso,se estão todos, sempre ocupados, "levantando a mãozinha,e dando um gritinho!"?.
    Melhor,como já disse sabiamente"Observando um caminhão de ensurdecimento massivo!"( A melhor definição de Trio-Elétrico que já li.)kkkkkkk!!

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