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Ciência versus Religião: um infinito conflito

Dentre os muitos temas polêmicos tratados pela filosofia, existe um que me deixa bastante apreensivo quando vou tratá-lo em sala de aula. O tema é a religião e sua relação com o mito, sobretudo quando da existência da mitologia cristã. Nos manuais de filosofia, pelo menos os que trabalhei e trabalho, parecem notar a mesma apreensão que sinto. Não comentam detidamente ou detalhadamente o tema em questão ou sequer fazem alguma referência à mitologia cristã. Não sei se por um receio inocente ou por puro medo de seu título não ser aceito pelas escolas. Comentam sobre mitologias indígenas daqui ou de regiões distantes e, claro, a grega, mas sem criar qualquer referência à mitologia cristã.

Tomei consciência desse "lapso inocente" ao citar justamente o que os manuais omitiram e, para minha parcial surpresa, alguns alunos questionaram. Primeiro: não conseguiam compreender que a explicação mitológica não é algo meramente fantasioso, mas sim uma tentativa de explicação da realidade relacionada à afetividade humana. Segundo: a dificuldade em distinguir a explicação científica da explicação religiosa-mítica, por exemplo, a respeito da origem do mundo. Por fim: não conseguiam entender também a necessidade do embasamento bibliográfico quando se comenta a respeito de alguma ideia, sobretudo filosófica, em detrimento das suas apresentadas porque o "pastor assim o disse" ou "está na Bíblia"; aliás, falar "está na Bíblia" é quase como que se Deus baixasse e dissesse diretamente a eles, não compreendendo, portanto, que existem tradutores e intérpretes para as várias passagens bíblicas.



O curioso desses "alunos-questionadores" é que todos eles, sem excessão, são de igrejas protestantes e parecem não aceitar outra interpretação ou ideia ainda que alicerçada em documentos ou concepções de teóricos que tentam explicar algo que para eles já está sacramentado porque o "pastor assim o disse"! Dogmáticos radicais, parecem sentir um medo quando alguém aponta uma outra perspectiva distinta daquela da sua igreja ou então crêem ser um discurso disfarçado da religião católica.

Óbvio que inicialmente achei essa atitude deles bastante salutar, afinal sou um professor de filosofia e meu principal objetivo é tornar o aluno capaz de questionar as coisas, porém, notei algum tempo depois que na realidade não passa de uma ilusão de minha parte, porque eles não querem questionar no sentido de problematizar filosoficamente uma ideia ou um conceito; o que eles pretendem realmente é mostrar que estão convictos de suas escolhas religiosas e que, infelizmente, seguem à risca aquilo que o pastor falou.

Um desses alunos supostamente questionadores chegou até a dizer durante uma aula que a teoria do Big Bang era uma "invenção mentirosa para enganar a humanidade" apesar de minhas incansáveis explicações para ele tentando mostrar que tal teoria não é uma "verdade absoluta", mas que, pelo fato de ser científica, possui comprovações além de seguir um discurso lógico; no dia seguinte me trouxe o "livro da verdade", um folheto da sua igreja contendo a "verdadeira explicação" sobre a origem da humanidade e do universo - mitologia cristã.

Uma outra, após algum comentário que fiz a respeito de santo Agostinho sobre sua explicação do conceito da Santíssima Trindade, que teria sido ele o precursor dessa compreensão, que na Bíblia não existia essa explicação de modo claro e objetivo além de filosófico, na semana seguinte alegou que eu estaria faltando com a verdade - pra não me chamar de mentiroso - quando afirmei ser Agostinho o inaugurador dessa explicação, pois o pastor dela lhe disse que "o professor não leu a Bíblia e não entende que ela é fruto da inspiração divina"! Mais uma vez tentei explicá-la das distinções, mas minhas palavras foram em vão, pois sua postura era de total indiferença ao que explicava enquanto ela distraía-se com uma colega e quando se voltava para mim estava com "pedras nas mãos", questionando em voz alta minha explicação e impondo a sua.

Não pretendo com isso perseguir os alunos ou até culpá-los exclusivamente pela postura dogmática e até intransigente de lidar com perspectivas diferentes das deles. Com certeza eles, adolescentes ou crianças ainda em desenvolvimento, são visível e fortemente influenciados pela família rigorosamente religiosa e por mestres religiosos radicalmente dogmáticos que conseguem exercer uma influência tamanha sobre seus espíritos ainda em construção. Não custa nada lembrar que tais posturas muitas vezes levam ao preconceito, ao desrespeito com o outro ou, ainda pior, à intolerância religiosa. Reconheço minha missão enquanto professor de combater esse tipo de comportamento, mas reconheço e admito também minha incapacidade de combater esse mesmo tipo de comportamento quando ele é fecundo na família e na religião. Acredito que por mais que a escola traga consigo essa honrosa missão da educação, ela não é uma exclusividade sua, mas sobretudo da família e por que não da religião também? Afinal, Deus legou seus ensinamentos de amor e harmonia com o próximo apesar de em muitas vezes não percebermos.

Depois dessas experiências entendi a omissão dos manuais e mais uma vez cheguei à mesma conclusão: ainda vivemos - pelo menos aqui nesta cidade - sobre a influência dominadora da religião apesar do avanço da ciência. Meu consolo é que, pelo menos, não tenho o mesmo destino de Giordano Bruno quando questiono e manifesto minha insatisfação com essa presença ainda tão marcante na sociedade onde vivo.

Comentários

  1. Kkkkkkk, bem vindo... A técnica que uso é explicar a importancia da fé, o que é e como surge. Ai eles ficam mais abertos a discussão.

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    1. Bem pensado, meu caro Alex!!! Vou me lembrar disso nas próximas intervenções sobre o tema!

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  2. Ola Vicente.
    Tema difícil. Eu ainda acho que religião, filosofia e ciência são expressões de uma mesma coisa. eu bebo das trés fontes, como todo mundo na realidade. só que tem gente que teima em dizer que só mata a sede em uma unica fonte.
    Eu ando por ai buscando blogs interessantes e divulgando o meu
    http://culturadanaocovardia.blogspot.com.br/
    dá uma conferida. A proposta é nobre.

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    1. É verdade, caro Gabriel, muitas pessoas acreditam que a verdade só pode estar em uma única "fonte", como vc bem disse. É minha prerrogativa tb tentar ser o menos dogmático possível principalmente quando trato de temas tão delicados quanto este do post. Quanto ao seu blog, de fato, bastante interessante além de informativo. Gostei dele. Abraços e obrigado pelas suas palavras.

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    2. E isso ai Vicente.
      Agradeço a visita estarei passando por aqui e conto com sua visita. Um comentário de vez em quando é bom, senão a blogosfera fica muito solitária.
      Um abraço.

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  3. OLÁ
    EU GOSTO MUITO DE LEVANTAR ESTE TEMA. TRABALHO COM CRIANÇAS DE 11 A 15 ANOS E ELES SÃO BEM CRÍTICOS EM RELAÇÃO AOS ASSUNTOS QUE CONFRONTAM CIÊNCIA E RELIGIÃO. MAS QUERO DIZER QUE JESUS NÃO É RELIGIÃO E CADA VEZ MAIS A CIÊNCIA COMPROVA AS VERDADES BÍBLICAS E LEMBRE-SE QUE EXISTEM COISAS QUE JAMAIS SERÃO REVELADAS E QUE JESUS É O CAMINHO A VERDADE E A VIDA. ELE É ÚNICO E SUFICIENTE E NOS ENSINA A RESPEITAR AS PESSOAS. FICO TRISTE QUANDO ISSO FOGE AO CARÁTER DO CRISTÃO E ELE SE TORNA INTOLERANTE. AFINAL UMA DAS QUALIDADES DE DEUS É A TOLERÂNCIA.
    FIQUE COM DEUS E QUE ELE LHE DÊ INSPIRAÇÃO NAS SUAS AULAS.
    UM ABRAÇO.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Ola professora a cima, fico aqui pensando no que você disse. Como indivíduo eu tenho obrigação de respeitar sua crença religiosa, mas digamos que um filho meu fosse seu aluno eu poderia questioná-la caso você abordasse desta forma que colocou acima estes assuntos. Como professora você não pode disseminar suas crenças pessoais para sua sala de aula. Jesus, é religião sim, pois se trata da base do cristianismo e ainda mais colocando estes valores de verdade e de vida, estes são extremamente pessoais e mesmo que nossa sociedade seja de maioria cristã, um filho meu, potencialmente sendo um ateu deveria ser respeitado, bem como outras crianças, ou judeus, ou do candomblé, entre outras. É triste os professores, bem como outros servidores não terem clareza da necessidade de sua imparcialidade nestes assuntos.

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  4. Agradeço pelas suas palavras, colega blogueira, e concordo com elas até certo ponto. Contudo prefiro destacar o ponto que concordo com vc que diz respeito aos ensinamentos verdadeiramente cristãos que muitas pessoas que se dizem religiosas seguem, o que não acontece na prática. Se todas as pessoas que se dizem religiosas ou que acreditam em Jesus Cristo seguissem os mandamentos efetivamente cristãos, creio que o nosso mundo não estaria do jeito que está. Jesus Cristo, como vc bem o disse, pregava a tolerância sob qualquer aspecto, mas não é o que costumeiramente vemos com aqueles que possuem uma "fé convicta"...

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  5. Primeiro parabéns pelo seu blog, estive esta noite lendo vários de seus textos e gostei.
    Já seria muito bom se você conseguisse incutir nesses jovens a simples capacidade de discutir temas diversos a suas crenças, despertar a curiosidade do porque outras pessoas pensam diferente, não para mudar a forma de pensar, isto é lógico, mas para que estes indivíduos pudessem ter a chance de se tornar seres tolerantes e abertos a questionamentos, até de si mesmos e porque não de suas crenças.
    Porém sei que infelizmente, como você disse, a educação e a formação de uma pessoa não acontece milagrosamente numa sala de aula, ela vem de um complexo da vida que elas levam. Deve ser frustrante lidar com alguns assuntos nesta sociedade tendo ainda que ajudar a formar a esses jovens. Fico pensando na dificuldade de se abordar temas que a própria instituição escola não sabe lidar ou não tem clareza.

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    1. Inicialmente gostaria de pedir desculpas pela demora em responder seu comentário, Danilo, contudo, acredito que você foi perfeito em suas colocações, temos um hábito, no mínimo equivocado, de acreditar que a escola poderá ou pode ser a única responsável pelas transformações profundas e positivas de uma sociedade, só que nos esquecemos que ela é apenas uma gota no grande oceano das sociedades e suas variadas instituições sociais também partícipes dessa transformação.

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