Pular para o conteúdo principal

É o carnaval uma festa popular?


É fato que no Brasil impera o que se chama de pluralidade cultural. Desde a origem do nosso país, segundo grandes teóricos da área, como Gilberto Freire em Casa Grande & Senzala, nota-se a pluralidade cultural originada de uma miscigenação entre brancos, negros e índios. Isso sem comentar a miscigenação entre nações estrangeiras e a nossa que durante a contemporaneidade formam o nosso ethos, a nossa essência cultural, a nossa identidade, como foi o caso de japoneses, italianos, alemães, portugueses que migraram para o nosso país e deram sua parcela de contribuição à formação da nossa cultura. O Brasil, de dimensões continentais, possui uma pluralidade, uma variação de cultura tão rica, mas tão rica, que algum desavisado pode confundir-se ao viajar do norte ao sul do país acreditando estar em outro país.

Muitos desses povos trazidos ou vindos para cá lutaram – e ainda lutam – para ter sua parcela de reconhecimento na construção cultural do nosso país. Os negros africanos que o digam, talvez os mais prejudicados por essa empreitada de trazer e difundir sua cultura entre nós brasileiros e ainda assim sofrerem uma perseguição desumana senão estúpida.

No período que se inicia religiosamente no mês de fevereiro, o carnaval, nota-se a influência marcante da contribuição negra para a formação da nossa identidade cultural talvez mais evidente – embora eu prefira acreditar que os festejos juninos sejam mais nutridos de influência brasileira que o carnaval, ambos vindos da Europa e adaptados à nossa realidade, mas isso é assunto para outro post.

É no carnaval que vemos, mais uma vez, dentro da nossa cultura, a presença dos caracteres da cultura negra como o samba, o ritmo e a dança, o vigor com que se dedicam, numa palavra, a alegria de fato espontânea com que festejam o que não existia muito evidente na festa trazida originalmente para as terras tupiniquins.

Talvez em lugar algum no resto do mundo se encontre uma festa tão esperada e tão bem identificada com o povo brasileiro quanto esta, o carnaval. Mas, diante das grandes transformações e interferências inculcadas pelo capitalismo tardio, essa festa tão marcante da nossa cultura não pôde fugir de seus tentáculos poderosos e sedutores. Foi-se o tempo em que o carnaval era de fato uma festa mera e exclusivamente inventada pelo e para o povo. Admito que meu discurso possa até parecer meio saudosista, mas é inegável o poder que o dinheiro exerce sobre essa festa. 

Grandes corporações se apossam de seu controle, instituem regras, campeonatos, modismos, economia, tudo a fim de tirar o brilho intenso dessa festa tão marcante para o brasileiro que é o carnaval. Muitos até imaginam que o carnaval é apenas aquele transmitido pela Globo no Rio de Janeiro! Esquecem, essas pessoas, que o carnaval possui inúmeras facetas, inúmeras formas de se apresentar a depender da região onde ele seja manifestado. Em cada região do país o carnaval possui uma característica própria. O problema é que uma emissora sediada em um estado transmite o carnaval de seu estado fazendo com que as pessoas acreditem que aquele carnaval é o melhor, o mais bonito ou o mais organizado, quando na realidade carnaval não tem nada a ver com isso! Não existe um carnaval melhor do que o outro! É tudo manifestação cultural, quer dizer, até certo ponto...

Criou-se a moda de comprar um “abadá” se quiser sair no bloco, de comprar uma fantasia se quiser sair na escola de samba, de comprar um camarote, uma arquibancada... E dizem que a festa é do povo! “Ah!”, bradarão alguns, “mas quem não tem dinheiro pode se divertir na pipoca!”, por exemplo, se for o carnaval na Bahia. “Pipoca”, nesse sentido, é um lugar onde não se paga e que fica fora dos cordões de isolamento que protegem os foliões que pagaram pelo “abadá” e que, sabe-se bem, não existe o mesmo tratamento dado aos foliões não-pagantes. Cito outro exemplo, o Pré-caju, que acontece também religiosamente aqui no meu estado durante o período das férias escolares, no qual existe um acordo entre os donos dos blocos – os organizadores da festa – em que a polícia não pode entrar no bloco dos “abadás” comprados, salvo em casos muito específicos. 

Isso acontece em todas as festas carnavalescas do país: uma diferenciação entre ricos e pobres, entre os mais favorecidos e os menos favorecidos. Lugares onde os ricos podem frequentar e os pobres não; comidas e festas exclusivas onde os ricos podem usufruir e os pobres, os que adaptaram o carnaval ao nosso país, têm que ficar de fora. Salvo, contudo, em alguns casos onde o carnaval de rua, aberto ao público, é mantido milagrosamente pelo povo e resiste à empresa capitalista, como em Olinda, Pernambuco, onde realmente, a festa é para todos e não se dividem ricos e pobres, todos  fantasiados ou não saem à rua com a roupa e o dinheiro que tiverem numa clara alusão ao princípio do carnaval quando a festa estava voltada apenas para extravasar as frustrações, as tristezas e as pressões daqueles que trabalhavam durante todo ano numa alegria só.

Hoje os nossos momentos de alegria estão visados e influenciados fortemente pela regra capitalista. Tudo que deve ser considerado bom tem que necessariamente passar pela regra do mercado, da economia e obviamente ser mais caro, exigir um preço. Se você quiser ser feliz, basta que pague, e bem, para adquirir os melhores lugares e gozar sua festa com tranqüilidade e segurança – os “camarotes”, o inverso da “pipoca”. Aos pobres, cabe a resignação de poder assistir em sua casa, na tevê, ou participar de uma “pipoca” no qual o policial, muito bem orientado pelos seus superiores, sejam da corporação ou não, aproxime-se para separar uma briga simplesmente batendo primeiro e perguntando depois. 

O carnaval já foi uma festa do povo, agora não passa de uma festa daqueles que organizam e que ficam assistindo de longe, de preferência em seus camarotes com convidados especiais, assistindo apenas o bloco passar e engordando suas contas com aquilo que é também caro ao ser humano: a diversão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um professor pode usar um jaleco branco?

Essa semana fui acometido por uma imagem no mínimo intrigante: um professor vestido num jaleco branco. Devo admitir que há muito vira uma imagem desse tipo, mas a associava sempre a algo antigo, ultrapassado, que professor ou escola alguma jamais utilizasse mais tal indumentária.

Conversei com alguns colegas de trabalho sobre o acontecido e fui surpreendido por um comentário que me fez questionar meu "pré-conceito". O comentário versava sobre o fato de que, segundo esse colega, todo professor deveria usar essa roupa pois ela impõe respeito diante dos alunos. Achei esse comentário estranho, pois jamais passou pela minha cabeça que um professor dependesse de uma roupa para conseguir respeito entre seus alunos.

Ao refletir sobre o assunto em questão, recordei-me de minhas aulas de sociologia na universidade onde meu estimado professor falava sobre o papel que a indumentária pode exercer sobre as pessoas numa dada sociedade. Citou o exemplo do médico e em seguida do advogado em qu…

O problema da democracia

A democracia, é notório para muitos de seus defensores, é uma das melhores formas de governo que o ser humano pode gozar em sua história. Repleta de vantagens, de benesses, é de fato uma das formas de governo mais aprimorada para lidar com o ser humano em sociedade e seus anseios de liberdade. Mas hoje em dia mais se assemelha a um discurso envelhecido manejado pela velha burguesia que tenta impor mais uma vez goela abaixo suas sutis formas de dominação, alienação e controle - aliás, e quando de fato ela deixou de sê-lo? Apesar de ela ser a melhor forma de governo para lidar com o próprio ser humano em coletividade, ainda assim traz consigo algumas mazelas cancerígenas e que muito provavelmente irão demorar para extinguir-se, pelo menos por aqui, nas paragens tupiniquins.


A democracia manifesta como uma de suas mazelas cancerígenas, o que parece até um paradoxo, a diversidade de opiniões. Calma, não estou aqui afirmando que sou contra a diversidade de opiniões, mas por permitir uma d…

O MUNDO DA APARÊNCIA OU DA TITULAÇÃO

Ao preparar uma aula sobre Platão para os alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) aqui no município onde trabalho, deparei-me novamente com os conceitos e aspectos que identificam a filosofia platônica e pude então refazer minha perspectiva a respeito de sua filosofia e o impacto dela nos dias de hoje. Ao realizar isso, pude perceber, mais uma vez, o porquê de este filósofo grego ser tratado como referência, como base, como clássico de fato na tradição filosófica ocidental.

Obviamente que não farei aqui uma interpretação aprofundada, rebuscada, acadêmica sobre este fantástico filósofo. No muito, inclusive como é próprio da proposta deste blogue, farei minhas inserções de cunho meramente "filosofante" neste post para que o leigo possa compreender o papel que a filosofia, em especial a filosofia platônica, pode auxiliar o ser humano na busca de sentido da nossa realidade tão mascarada, tão escondida e tão enviesada de ideologias dominantes. Obviamente também que a propos…