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Os moleques baderneiros dorenses

Como todos sabemos, o nosso país, um pouco antes, durante e depois da Copa das Confederações, pipocou de manifestações populares. Um clima de insatisfação e de indignação enfim tomou forças e influenciou a população brasileira a ir para as ruas "reivindicar pelos seus direitos", essa influência ganhou força em especial na população jovem, mas muitos das demais idades também foram vistos manifestando suas indignações, fossem elas violentas ou não.

Frases ficaram famosas como "o gigante acordou" ou "vem pra rua" foram entoadas aos quatro cantos do país e elas, as frases, que inicialmente tinham um sentido propagandístico, respectivamente, para o Whisky Johnny Walker e a montadora de carros Fiat, passaram a ser os mantras dos manifestantes. Mas prefiro não me deter nas manifestações fora do meu município, quero apenas registrar o momento histórico que serviu de estopim  para a tentativa de manifestação que aconteceu por aqui. E também porque já existem muitos comentadores - bons ou maus - que trataram sobre o referido assunto. Prefiro me reportar à minha pequena e provincial realidade.

Alguns jovens daqui do município de Nossa Senhora das Dores se sentiram também influenciados pela onda de manifestações que tomou o país, em especial jovens estudantes das escolas públicas, que aproveitaram esse clima de insatisfação e começaram a organizar uma mobilização com o objetivo de mostrar os problemas presentes e mais marcantes aqui em nosso município. Até aí tudo corria bem. Os alunos que estavam organizando o dito movimento se sentiram na obrigação de tentar "sacudir" a pequena população desta pacata cidade e tentar mostrar os pontos fracos desta sociedade e assim, de algum modo, cumprir com seus papéis de cidadãos conscientes. Carros de som foram contratados para divulgar o referido manifesto; integrantes dos grêmios estudantis preparando seus cartazes; bem como pessoas de fora das escolas também; mas, como todo evento premeditado, começaram a surgir os boatos...

Inicialmente surgiu o boato de que a oposição ao governante municipal do momento iria se valer da manifestação para trazer a público as mazelas do nosso município; em seguida o sindicato dos professores municipais iria também se aproveitar do movimento para mostrar à população dorense o desrespeito do governo público municipal com o piso dos professores; e o boato mais assustador, pelo menos para os comerciantes, foi o de que iriam invadir a prefeitura e depredar casas comerciais que ficassem abertas...

De repente a cidade foi tomada por um clima assustador...

As beatas não poderiam ir à igreja debulhar seus terços ("ai meu Deus! É Satanás que está tomando conta do mundo! Valei-me minha Nossa Senhora!"). Todo agrupamento de jovem fora dos muros da escola era mal-visto pelos mais velhos receosos de que a cidade iria ser "destruída" por esses "moleques baderneiros". Os velhos homens, os que se sentam nos bancos das praças, na "pedra fria", começaram então a conjecturar sobre as muitas conspirações políticas que estariam por trás do manifesto dos "moleques baderneiros". "Aposto que é o povo do outro lado! Os que perderam a eleição"; "Pegaram esses meninos bestas e botaram eles como laranja pra organizar essa baderna!"...

Boatos, boatos e mais boatos ganhavam força e aumentavam ainda mais o medo daqueles que preferem acompanhar o mundo pela caixinha mágica conhecida como tevê ou ouvir o que um padre ou um pastor falam. O comércio, preocupado obviamente com seu patrimônio, com seu capital, solta logo uma nota oficiosa de boca em boca que fechará as portas durante a manifestação. A prefeitura também, não-oficialmente, reproduz o discurso das autoridades políticas do momento afirmando que "nós não somos contra as manifestações, somos contra as depredações ao patrimônio público e a violência".

É bom lembrar que o objetivo dos jovens manifestantes que estavam à frente foi bem claro - pelo menos no que estava impresso no panfleto afixado nos muros internos da escola clamando aos alunos: uma manifestação pacífica com o intuito de chamar a atenção da população e das demais autoridades para os problemas no trânsito do município - muitos acidentes de moto vêm acontecendo por essas paragens; problemas de violência - muitos furtos e assaltos a mão armada; e problema na educação, em especial, segundo obtive informações com um dos organizadores do manifesto, a falta de professores na rede estadual e a precariedade dos serviços do transporte dos alunos dentro do município.

Momentos antes da manifestação acontecer, especificamente na noite que antecedia as manifestações, eis que um dos organizadores do evento recebe uma visita não-oficial de uma autoridade pública local lhe informando das responsabilidades que recairiam sobre ele se a dita manifestação acontecesse. A mãe desta pessoa se sente ameaçada e ambas "se convencem" a desistir do evento. Imediatamente esta pessoa liga para os demais organizadores colocando a par do ocorrido e eles também "se sentem convencidos" a desistir da manifestação outrora pacífica.

Uma manifestação que estava linda na ideia, mas, no momento de se consagrar, digo, de se concretizar, não alcançou a efetividade necessária e não passou de uma boa e esquisita lembrança nas cabeças dos organizadores. É fato que muitas pessoas que iriam participar não estavam bem cônscias do que de fato eram os objetivos da manifestação. É fato que muitos estavam mais envolvidos pelo clima nacional de protestos que assolam o país, mas que no fundo mesmo de seus espíritos queriam era mostrar a roupa da moda, passear pelas ruas da cidade, se encontrar com alguns amigos fora das redes sociais sem precisar de uma banda de forró ou de axé, finalmente, muitas pessoas estavam mesmo preocupadas em mostrar para as pessoas de Dores que eram conscientes do seu papel de cidadão. Assim como é fato também que muitos iriam se aproveitar politicamente - o que, diga-se de passagem, é absolutamente normal.

O problema maior que me chamou a atenção foi justamente o poder exercido pelos "grandes" desta pacata e provincial cidade! Ficaram tão atordoados com o que poderia - frise-se bem "poderia" - acontecer, ficaram tão assustados com o abalo que essa manifestação poderia causar ao status quo dorense, que decidiram por "caçar" os cabeças dos organizadores do evento com o objetivo de evitar problemas maiores a esses organizadores. Pior que isso, nos dias que se sucederam ao fracasso do manifesto, os comentários ouvidos eram uníssonos. Todos sabiam quem havia mandado "calar a boca" da quase finda liberdade política real dorense, mas ninguém, absolutamente ninguém, sentiu mais a necessidade de botar a boca no mundo e reclamar... A luta, então, se deu apenas no campo das ideias e, assim, saíram vitoriosos os personagens de sempre: os mais ricos.

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