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Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

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