Quem é esse filosofante?

Como o próprio título do blog indica, estas palavras não são fruto de uma vontade que segue os moldes convencionais da escrita filosófica acadêmica eivada de rigor dito científico ou metodológico, pelo contrário, são palavras de um espírito espontâneo acompanhado de uma sutil percepção filosófica. Por isso a negação da nomenclatura "filósofo", mas sim, "filosofante". Contudo, este mesmo espírito traz em seu âmago a essência de toda boa filosofia: a crítica. Aqui estão palavras sinceras, às vezes ríspidas, às vezes acalentadoras, mas que jamais se distanciarão do objetivo maior deste blog que é o de servir como desabafo, como "válvula de escape", para um espírito irrequieto e sobretudo infinito buscante da verdade...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A felicidade de rebanho

Falar da felicidade não é tão fácil. Sobretudo nos dias de hoje em que as pessoas acreditam estar mais perto dela. É fato que o ser humano contemporâneo dispõe de um leque de possibilidades de satisfação dificilmente antes imaginado por seres humanos de outras épocas. Contudo, esses mesmos seres humanos mais propensos a alcançar a felicidade no mundo hodierno, são também angustiados, insatisfeitos, para encontrá-la efetivamente, justamente por terem acesso a um leque incomensurável de "felicidades". E lembremos ainda que felicidade aqui não é a mesma coisa que satisfação.

Inicialmente, seria interessante partirmos de uma concepção - frise-se bem: uma concepção! - de felicidade ou pelo menos alguns caracteres que possam nos auxiliar a identificar uma ou as várias felicidades falseadas que nos deparamos comumente. Entendo por felicidade como algo que o ser humano faz de si próprio e não naquilo que ele busca fora de si, seja através de bens materiais ou sucesso pessoal. A felicidade, por essa ótica, seria algo muito mais associado ao que o próprio ser humano faz de si mesmo; algo que está dentro de si, e não fora. Reconheço que essa ideia não é de todo inédita. Talvez remonte à dita sabedoria oriental que a muito tempo já se voltara para tais questões - inclusive antes mesmo da civilização grega!

Partindo, então, dessa concepção de felicidade, podemos, ao menos, começar a identificar a preocupação atual em oferecer uma felicidade pronta, empacotada, ou ainda industrializada. Não há como deixar de citar o velho e bom Nietzsche quando mostrava para nós sua ideia de felicidade existente no mundo moderno, a "felicidade de rebanho". Uma felicidade padronizada que se encaixa perfeitamente à nossa concepção de felicidade proposta aqui.

Que "felicidade padronizada" seria essa?

Uma felicidade em que a grande maioria da população imagina, tal como ganhar na loteria, por exemplo, ou simplesmente possuir um carro da moda ou uma casa própria. São ideias comumente difundidas entre as pessoas e que elas acreditam ser felicidades verdadeiras quando na realidade oferecem satisfação de um desejo que pode, inevitavelmente, levá-las a outros desejos de maneira interminável. Na visão nietzschiana, felicidades padronizadas ou industrializadas ou empacotadas ou simplesmente prontas não são felicidades efetivas porque vem de fora, é algo que a sociedade, de alguma forma, obrigou o indivíduo a aceitar.

Como já havia escrito em outro post, vivemos em uma sociedade que está constantemente nos dizendo ou nos obrigando a sermos felizes, de preferência o tempo todo. É a ditadura da felicidade! Na televisão encontramos o espaço perfeito para identificar essa concepção. Programas e mais programas voltados para nos deixar "felizes", "alegres", "divertidos", afinal, essa é a principal preocupação da tevê, o entretenimento, mesmo sem se preocupar com algum tipo de qualidade dessa produção, o objetivo maior é o entretenimento puro e simples. Até nos telejornais encontramos a fórmula: 1) notícias "ruins"; 2) esportes; 3) notícias "boas", fechando o periódico televisivo e nos deixando "alegres" com as notícias finais. Vemos até propaganda de funerária com imagens associadas à felicidade?! Imagine?!


Diante disso, e já concluindo este breve pensamento, não podemos deixar de lançar uma pergunta no mínimo provocativa: o que significa, então, ser feliz? Realizar aquilo que a sabedoria oriental ou o velho Sócrates já nos preconizara: "conhecer-se a si mesmo", e não nos perdermos em buscas cegas que a sociedade a todo instante quer que acreditemos. A fórmula parece bastante simplória, mas não nos iludamos, é eficaz. Basta que tenhamos o hábito de refletir antes de tomar uma decisão e procurar identificar se aquela escolha realmente tem a ver com nossa essência, nosso eu, nossa alma...

domingo, 17 de abril de 2016

A VERDADE, A POLÍTICA E AS IDEIAS PARA CONSUMO

Talvez soe como escapismo ou pura alienação, mas estou cansado de ler, ver e ouvir os "comentários políticos" que de algum modo afetam minha consciência e os meus sentidos no momento. É só isso que vemos, ouvimos e discutimos agora. Alguns sabem lidar com o respeito da diversidade, já outros, chamados também de haters, essas palavras da moda criadas pela internet, mas que traduzem muito bem essa nova qualidade de pessoas, só sabem esbravejar suas verdades e preconceitos como donas absolutas dessas supostas verdades...

Diante disso, dessa realidade em que ninguém parece estar com a verdade ou o seu oposto, prefiro acatar a sugestão de um amigo e colega de profissão em "suspender o juízo" e me acalentar nas asas da ave de Minerva buscando distanciar-me o mais possível para tentar enxergar com a clareza que nos falta em dias assim. Os sofistas que nos digam, em especial Protágoras de Abdera, vivido no século IV a.C., quando nos falara que "o homem é a medida de todas as coisas", e que nos auxiliará nesse post.

Obviamente que não vamos aqui destrinchar detalhada ou ainda filosoficamente as reflexões específicas a que este filósofo propõe. Vamos sim tentar partir uma reflexão a partir dessa sua frase icônica e tentar compreender o quão de "verdade" ela se evidencia na realidade humana, em especial a nossa atual aqui no Brasil.

Lembremos o papel elementar da filosofia, o de refletir, de "olhar diferente" para nossa realidade, de não aceitar as verdades ditas como tal e tentar mostrar a diversidade de perspectivas, diga-se de passagem, o modus operandi do filósofo. Digo isso posto que ainda encontramos alguns indivíduos que insistem em reforçar a ideia - no mínimo preconceituosa, se bem que sou suspeito para afirmar isso - de que a filosofia é um saber inútil ou que não contribui para absolutamente nada em nossas vidas práticas. Prefiro assumir que ela continue assim!

Tais indivíduos que denomino possuir uma "visão de cabresto" - influência de minha cultura nordestina, assumo - acreditam piamente em suas verdades e não conseguem compreender que essas suas verdades são construções, são invenções ideológicas ou discursivas que lhes auxiliam na compreensão de suas realidades. Sendo assim, suas realidades também não passariam de construções humanas o que, em muitos casos, são postas por um grupo dominante.

Immanuel Kant. Fonte: filosofiamevideo.com.br
A autonomia da razão tão apregoada pelo consagrado Kant, filósofo alemão vivido no final do século XVIII e início do século seguinte, pressupõe que o indivíduo pense por conta própria - o sapere aude! - e de algum modo consiga desvencilhar-se dessas amarras ideológicas ou discursivas impostas por outros. O indivíduo deve correr o risco de pensar por conta própria, apreender a realidade e assim criar uma consciência do mundo e de si sem se valer de conjunto de ideias de outrem. Alguém que busca outra dimensão da realidade além das necessidades imediatas. Contudo, não é o que vislumbramos ainda nessa dita sociedade moderna ou contemporânea. Parece-nos que cada vez mais as pessoas estão de algum modo se vendo obrigadas a "pensar por atacado" acreditando que basta se valer de um pensamento-produto em alguma prateleira acreditando estar realizando o melhor "negócio" de suas vidas. Pior ainda: ao comprarem e consumirem esses pensamentos-produtos, defendem-nos com unhas e dentes não aceitando um pensamento-produto distinto do seu, com aquela arrogância pequeno-burguesa em assumir que "o que eu tenho é melhor que o seu" não se questionando da autenticidade ou qualidade de quem os fabricou e o objetivo fundamental deste pensamento-produto revolucionário, e tal peculiaridade é ainda mais evidente e violenta nos haters quando atuam sobretudo no mundo virtual.

Protágoras de Abdera. fonte: www.tautonomia.com.br
Perguntaria Protágoras: "quem está com a verdade?" E ele próprio responderia: "Ninguém, posto que ela não existe". A realidade de cada um diz respeito a cada um, e cada realidade foi criada a partir das concepções, das disposições, dos modos de ser e de viver de cada pessoa. Sendo assim, nobres leitores, como afirmar se Dilma ou Cunha ou Temer estão certos - ou errados - em alguma coisa que eles façam ou deixem de fazer? Como afirmar e convencer os seus respectivos defensores e críticos também de que na realidade estão todos sendo ludibriados por essa aparência de verdade que eles insistem em propagar e assim defender? Esquecem-se todos de exercitar a reflexão, de perguntar, de duvidar, essa arte tão prazerosa difundida pela escola cética e que, de algum modo, faz parte do cerne do fazer filosófico, da experiência filosófica. Aliás, como realizar tal façanha, como valorizar a dúvida, se vivemos em um mundo que busca a todo instante valorizar as aplicações imediatas do conhecimento? Como privilegiar a dúvida se as concepções dos que são contra ou a favor do impeachment da presidente Dilma estão já postas, determinadas, resolvidas, ou ainda, já se efetivaram enquanto verdades absolutas? É um dos desafios mais inglórios e mal-entendidos de que temos conhecimento.

Presidente Dilma Roussef e o presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha. Fonte: veja.abril.com.br
Lembremos ainda que, nessa perspectiva sofística, a política nada mais seria do que um lugar para persuasão e que ninguém ali, quando entra neste meio, estaria efetivamente preocupado em assumir que a verdade não existe e que ela não passaria de pura convenção. O circo iria acabar e os artistas - longe de mim dizer que um artista circense é idêntico a um político! - não fariam mais seu show, não ficariam mais no centro do picadeiro chamando a atenção com seus números e encenações, e fatalmente o público os abandonaria. Aliás, quem é a atração principal nesse grande picadeiro que é a realidade humana?