A felicidade de rebanho

Falar da felicidade não é tão fácil. Sobretudo nos dias de hoje em que as pessoas acreditam estar mais perto dela. É fato que o ser humano contemporâneo dispõe de um leque de possibilidades de satisfação dificilmente antes imaginado por seres humanos de outras épocas. Contudo, esses mesmos seres humanos mais propensos a alcançar a felicidade no mundo hodierno, são também angustiados, insatisfeitos, para encontrá-la efetivamente, justamente por terem acesso a um leque incomensurável de "felicidades". E lembremos ainda que felicidade aqui não é a mesma coisa que satisfação.

Inicialmente, seria interessante partirmos de uma concepção - frise-se bem: uma concepção! - de felicidade ou pelo menos alguns caracteres que possam nos auxiliar a identificar uma ou as várias felicidades falseadas que nos deparamos comumente. Entendo por felicidade como algo que o ser humano faz de si próprio e não naquilo que ele busca fora de si, seja através de bens materiais ou sucesso pessoal. A felicidade, por essa ótica, seria algo muito mais associado ao que o próprio ser humano faz de si mesmo; algo que está dentro de si, e não fora. Reconheço que essa ideia não é de todo inédita. Talvez remonte à dita sabedoria oriental que a muito tempo já se voltara para tais questões - inclusive antes mesmo da civilização grega!

Partindo, então, dessa concepção de felicidade, podemos, ao menos, começar a identificar a preocupação atual em oferecer uma felicidade pronta, empacotada, ou ainda industrializada. Não há como deixar de citar o velho e bom Nietzsche quando mostrava para nós sua ideia de felicidade existente no mundo moderno, a "felicidade de rebanho". Uma felicidade padronizada que se encaixa perfeitamente à nossa concepção de felicidade proposta aqui.

Que "felicidade padronizada" seria essa?

Uma felicidade em que a grande maioria da população imagina, tal como ganhar na loteria, por exemplo, ou simplesmente possuir um carro da moda ou uma casa própria. São ideias comumente difundidas entre as pessoas e que elas acreditam ser felicidades verdadeiras quando na realidade oferecem satisfação de um desejo que pode, inevitavelmente, levá-las a outros desejos de maneira interminável. Na visão nietzschiana, felicidades padronizadas ou industrializadas ou empacotadas ou simplesmente prontas não são felicidades efetivas porque vem de fora, é algo que a sociedade, de alguma forma, obrigou o indivíduo a aceitar.

Como já havia escrito em outro post, vivemos em uma sociedade que está constantemente nos dizendo ou nos obrigando a sermos felizes, de preferência o tempo todo. É a ditadura da felicidade! Na televisão encontramos o espaço perfeito para identificar essa concepção. Programas e mais programas voltados para nos deixar "felizes", "alegres", "divertidos", afinal, essa é a principal preocupação da tevê, o entretenimento, mesmo sem se preocupar com algum tipo de qualidade dessa produção, o objetivo maior é o entretenimento puro e simples. Até nos telejornais encontramos a fórmula: 1) notícias "ruins"; 2) esportes; 3) notícias "boas", fechando o periódico televisivo e nos deixando "alegres" com as notícias finais. Vemos até propaganda de funerária com imagens associadas à felicidade?! Imagine?!


Diante disso, e já concluindo este breve pensamento, não podemos deixar de lançar uma pergunta no mínimo provocativa: o que significa, então, ser feliz? Realizar aquilo que a sabedoria oriental ou o velho Sócrates já nos preconizara: "conhecer-se a si mesmo", e não nos perdermos em buscas cegas que a sociedade a todo instante quer que acreditemos. A fórmula parece bastante simplória, mas não nos iludamos, é eficaz. Basta que tenhamos o hábito de refletir antes de tomar uma decisão e procurar identificar se aquela escolha realmente tem a ver com nossa essência, nosso eu, nossa alma...

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