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Que é isso que chamamos "razão"?

http://pit935.blogspot.com.br/2011/04/o-pensador-de-rodin-podera-alcancar.html


Aprendemos que o ser humano é um ser "superior" se comparado aos animais, e essa "superioridade" estaria relacionada a uma característica única, exclusivamente nossa, que nos faz ser o que somos: a nossa razão, grosso modo, a nossa inteligência. É ela, essa coisa chamada razão, que pulula em nossa cabeça tentando nos dar um norte para as coisas que pensamos e fazemos. É essa coisa que nos obriga a articular sons, letras, palavras, frases e assim buscar ou dar algum sentido àquilo que vemos, que tocamos, que cheiramos... É essa coisa chamada razão que tenta explicar as coisas mais inimagináveis possíveis, que dá sentido a algo que não possui, que nos faz criar monstros...

Mas, finalmente, que é isso que chamamos "razão"?

Caminhando de volta para casa, furtivamente me vejo ouvindo as conversas das pessoas que cruzam pelo meu caminho. Ouço a conversa dos jovens, adolescentes, agrupados na praça com seus skates, uns sentados e outros realizando suas exibições, talvez na tentativa desesperada de chamar a atenção de alguma garota ou de alguém que o elogie pela manobra complicada que acabara de realizar. Suas conversas me chamam a atenção: "... Aquele jogo é massa, cara!", "... Vocês viram a cara dela quando Paulinho tava lá?". Passo por eles com certo ar de superioridade por estar prestando atenção à conversa, mas tentando encontrar um sentido que me esclareça sobre essa coisa chamada razão que faz pequenos seres em desenvolvimento comentar sobre suas vidas convencidos de que aquilo que conversam é extremamente mais importante que um atentado terrorista no Iraque.

Em seguida ouço rapazes, em frente a uma sorveteria, caçoando de um amigo sobre o comportamento dele com uma mulher: "Bicho doido, da peste!", "Ó a cara de pau dele!". E de novo sou arrebatado a questionar: que é essa coisa que faz esses seres julgarem a atitude de alguém? O caminho é longo e as pessoas com quem vou cruzando conversam sobre temas variados: religião, futebol, fofocas... Penso que animal nenhum na face da Terra possui essa característica única do ser humano de poder julgar alguém no seu comportamento. Nenhum outro animal terrestre possui essa capacidade de discorrer sobre temas dos mais variados simplesmente trocando sons, letras ou palavras e dando um sentido a eles. Somente nós possuímos esse poder, às vezes mal, às vezes bem, mas é fato que possuímos e adoramos julgar os outros. E esse julgamento só é possível graças a essa coisa que chamamos de razão.

Tal qual um flâneur, em uma clara alusão à compreensão dada por Walter Benjamim, vou empreendendo e exercitando minha capacidade racional buscando dar um sentido a esses diálogos ouvidos aleatoriamente. Reconheço que não posso dar sentido a todos ouvindo apenas trechos, pedaços de conversas, mas sou levado a reafirmar e reforçar minha pergunta inicial: que é isso que me faz buscar um sentido em algo que para mim não possui a menor significância?

Por que o ser humano é alimentado por essa coisa chamada razão que o faz procurar por sentido nas coisas? Será que é de fato essa coisa que nos torna mais importantes? As conversas das pessoas, pelo menos as que eu ouvi, podem ser consideradas importantes? O que é importante efetivamente? Estudar e encontrar a cura de alguma doença? Analisar os fenômenos naturais e dar sentido a eles? Ir a escola para buscar conhecimento? Ir a igrejas, supermercados, festas, visitas, velórios, casamentos? Será que tudo isso e muito mais me torna de fato "racional" e consequentemente "superior" em relação aos outros animais que não possuem essa capacidade cognitiva chamada aqui singelamente de "inteligência"? Qual o sentido de nós estarmos pensando constantemente? Será que Freud estava correto ao apontar que nossa razão não passa de um mecanismo cultural de controle da nossa "i-razão", do nosso inconsciente e que por sinal é muito mais poderoso que a consciência, que a razão?

Afinal, por que pensamos?

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