sexta-feira, 24 de agosto de 2018

DA NECESSIDADE DE SERMOS FALSOS

Conviver em grupo sempre manifesta uma série de inquietudes além de dificuldades. A convivência humana, sem sombra de dúvida, traduz essas características de forma colossal. Mesmo que a literatura, sobretudo no âmbito das ciências sociais, inclusive a filosofia, sugira que conviver com outras pessoas seja algo necessário. Contudo, há algumas pessoas que discordam dessa declarada "necessidade". Mas essa atitude de discordância enfatizaria nas entrelinhas uma necessidade? Já que, para que se chegue a essa ideia de negação, é preciso construir um processo longo da intelectualidade, do conhecimento, para se chegar a tal conclusão?

Na filosofia temos a epistemologia, área voltada para a reflexão do conhecimento, que indica, na figura de John Locke, filósofo britânico, dentre outros pensadores, como nosso conhecimento evoluiu. Nossa inteligência, devido ao processo de acúmulo de experiências que vamos tendo ao longo de nossa vida, vai agregando, vai construindo ao longo do tempo as percepções acerca da realidade e consequentemente de si mesmo. Ou seja, a experiência sensível constrói nosso conhecimento, nossa percepção da realidade, oferece as condições pelas quais criamos a compreensão da realidade. Realizando um esforço filosofante, pode-se concluir que a convivência com outros indivíduos em sociedade também preenche um grau de aquisição de experiência ou de conhecimento social, permitindo assim que o indivíduo saiba conviver com seus pares, eis o ponto de partida dessa nossa pequena reflexão.

Exemplo disso são as normas que somos obrigados a aceitar e a internalizá-las para então aprender a conviver em sociedade: quando uma criança é tomada nas mãos pelos seus pais para atravessar uma rua e estes a ensina que ela deve sempre olhar os dois lados para observar a chegada de algum automóvel ou não indica essa necessidade de aquisição de experiências (sociais e sensoriais) juntamente com as normas. As experiências vêm juntamente com as normas. Esse processo de socialização vai acontecendo paulatinamente, ao longo da vida, e ainda por cima vão se agregando novas experiências sociais ou normas - morais ou não - que vão moldando o indivíduo à sociedade indicando-lhe a forma de ele viver com seus pares sem se sentir um estranho no ninho.

Temos essa necessidade internalizada, afinal, sentimo-nos mais seguros na convivência com os outros - ainda que não gostemos desses "outros". E, ainda mesmo que, porventura, num esforço imaginativo, ele, um indivíduo, não queira integrar-se à sociedade, de algum modo ele terá que inicialmente ter um contato com as normas (sociais) vigentes, experienciá-las, para só então discordar delas e/ou tentar buscar novas ou simplesmente viver como ermitão, isolado de tudo e de todos, mas, insisto, ainda lhe caberia a forçosidade de admitir certas regras inicialmente para só então, posteriormente, rejeitá-las.

Todavia, como fora sugerido inicialmente nesse post, sabemos todos que viver em grupo é uma das tarefas talvez mais hercúleas que somos obrigados a realizar para conviver em sociedade, para ser aceito no grupo social. Quantas e quantas vezes somos forçados a participar de uma reunião em família, por exemplo, na qual não nos sentimos muito à vontade para falarmos aquilo que efetivamente queremos sobre alguém do grupo consanguíneo e, por uma etiqueta talvez "inconsciente", achamos muito mais apropriado falar o que pensamos sobre alguém quando este alguém não está presente, ou seja, "falar pelas costas". Todos sabemos que esse tipo de comportamento no mínimo se manifesta como uma "falsidade", como sintetiza o senso comum, mas será que todos também estariam efetivamente preparados para ouvir/falar "verdades" sobre alguém na presença do ouvinte ou do falante?

Nesse caso fica evidente a eficácia de um processo de socialização no qual nos demonstra como devemos nos comportar com alguém quando não gostamos daquela pessoa - "falar pelas costas" - para que não soframos uma punição e o grupo da família não tenha uma má impressão de quem falou umas "verdades" sobre fulano. Óbvio também que temos o oposto sobre essa mesma situação quando algumas pessoas, talvez por um temperamento diferenciado ou ainda por um traço de personalidade distinto da maioria do grupo, simplesmente ache ser muito mais saudável para este mesmo grupo falar essas ditas verdades que devem ser expressas sem pesar o impacto, as consequências de suas declarações que podem e irão certamente levá-lo a algum tipo de punição, como denominá-lo de "porra-louca", no mínimo, dentre outras denominações negativas.

É provável ainda que, mesmo que ele não se arrependa de suas revelações desagradáveis, o grupo social crie uma espécie de redoma por sobre ele ou simplesmente isole-o da participação ou do reconhecimento do grupo, deixando-o sem uma "recompensa social" pelo seu "mau comportamento", e assim, aquele que todos sabem falar "verdades", ser extremamente sincero, fique subjugado ou condenado a um tipo de ostracismo.

Uma reunião em família, ainda seguindo o exemplo acima, tem o poder de reunir muitas diferenças ideológicas ou de pensamento - imagine em uma sociedade! Qualquer indivíduo que queira integrar-se ao grupo, sobretudo se for consanguíneo, deverá valer-se de certas condutas, aceitar certas normas ou padrões. Mas ainda existe aquele indivíduo que não quer demonstrar a menor intenção em integrar-se. Um indivíduo que se vê excluído, por opção, por não ver ou não aceitar as regras e condutas que subsistem nesse grupo consanguíneo. E agora? O que fazer? É certo que o conflito se tornará, nessa condição, visível. Não obstante, esse conflito é parte significativa da vida em sociedade. Arriscaria ainda em afirmar, conforme uma leitura sociológica, que esse conflito é algo natural, inerente da condição humana, da vida em grupo, seja na família, na religião, na escola, enfim, em qualquer lugar de convivência humana em que haja a menor interação. Viver em grupo pressupõe abrir mão de certos comportamentos, atitudes, até de pensamentos, dentre outras coisas mais. Mas o grande segredo dessa vida social, é saber utilizar-se de um reconhecimento do seu papel social - e de suas consequências - assim como reforçar sua individualidade. Parece de fato um contrassenso, mas a condição humana é recheada disso. E não nos iludamos em acreditar que essa condição seja algo tão simples como uma ciência exata, por mais que tentemos realizar tal façanha. 

quinta-feira, 22 de março de 2018

O PROFESSOR E O CARRO QUEBRADO

Um jovem professor, recém formado, empolga-se ao levar seu currículo para as escolas particulares na ânsia de que alguém ligado à administração da escola, pelo menos, lerá suas suadas páginas do parco currículo feito com muito esmero. Sua consciência é tomada por diversas ideias de como trabalhará em sala de aula. Ideias e mais ideias transbordam sua mente. "Farei de tudo para que meu aluno se empolgue com minhas aulas!"; "utilizarei sempre ferramentas que tornem as aulas mais dinâmicas!". Ele consegue o primeiro emprego. Mas não porque alguém leu seus dados nos papéis deixados à sorte nos colégios. Tudo por conta de uma amiga de um amigo que ouviu a coordenadora comentar da necessidade de um professor na escola. O pobre diabo vai às pressas com todos os seus documentos à escola quase enlouquecido de ansiedade e vontade de trabalhar. Explicações dadas pela coordenadora, o coração está a mil assim que avista a primeira sala de aula que ele efetivamente adentrará na condição de professor. Mal consegue esconder a euforia na tremedeira que é visível em suas mãos. Mas ele consegue. Passado a fase dos dias iniciais, e algumas pequenas frustrações - como o controle exacerbado sobre as ditas "ferramentas pedagógicas" que ele pretendia utilizar, vem a tão aguardada compensação, o salário no final do mês. Agora os planos são outros. As ideias de criar aulas dinâmicas e divertidas bateu de frente com a "tradição da escola", isto é, o velho quadro e pincel. Comprar isso, aquilo, ajudar a mãe, ou o pai, ou o irmão, ou aquela parente que passa por necessidade arrebatam agora sua mente. Quando recebe seus dividendos referentes ao primeiro mês de trabalho, o susto: "Só isso!?" Acanhado por ainda ser novato nessa área, o mancebo professor sente na pele o que é ganhar menos que o salário mínimo já que goza de um "privilégio" que os cursos de licenciatura oferecem às pessoas nessas terras tupiniquins e que ainda por cima necessitam - frise-se bem: necessitam! - trabalhar na condição de professor: reconhecimento financeiro no mínimo limitado. Daí pensa numa também necessária solução: procurar outra escola particular para complementar a renda. E de novo o pobre professor refaz um caminho pela segunda vez no qual mal acabara de sair. E assim o consegue mais uma vez, afinal, agora dispõe de experiência, já trabalha em uma escola e esta possui certo respaldo na comunidade. Passado algum tempo, ao conciliar os horários das duas escolas, ele sente ainda a necessidade de estar em uma terceira. "Tenho tempo disponível, por que não uma terceira escola?". E assim o faz e consegue. Seus dias estão todos tomados em exatas dez horas diárias que ele consegue fazer num frenesi inconteste. Consegue pensar: "preciso de um veículo que me transporte", de fato, pois assim ganhará um pouco de tempo, principalmente no horário do almoço. E assim o faz. Compra o carro popular com um financiamento a perder de vista e que, principalmente, caiba no seu pequeno orçamento. Seus finais de semana, em períodos de avaliação, estão perdidos para o trabalho. Sua vida transforma-se em um ano num corre-corre com uma única finalidade: ter dinheiro para pagar as contas e tentar ajudar alguém de sua família. Um imprevisto: por ter comprado um carro popular usado, eis que este o deixa na mão. Quebra justamente num horário crucial em que ele dispõe de apenas alguns poucos minutos para almoçar e assim dar tempo de chegar na terceira escola no dia de quarta-feira. Desesperado liga para sua coordenadora pedagógica que o alerta: "infelizmente, será descontado de seu salário essa sua falta, meu caro. Não posso fazer nada por você". Mas ele não se desespera. Diz que vai pegar um ônibus e que chegará, ao menos, no segundo horário da tarde. E assim o faz. Ninguém, nem menos algum aluno sequer, questiona o porquê de seu atraso, de seu rosto suado, de sua camisa um pouco suja de graxa, de seu corpo clamando pela alimentação que ele não fez no horário apropriado. Ele simplesmente dá sua aula com seu pincel e apagador para, ao final do mês, conseguir pagar suas contas, transformando sua vida profissional em algo que ele jamais imaginara ficando então com um lampejo de esperança de que algum dia seus patrões reconheçam seu sacrifício e o gratifiquem...

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O VELHO HOMEM E A MORTE


Um velho homem acamado em um hospital tem seu silêncio interrompido pela mulher ao seu lado que reza incessantemente preces às vezes inaudíveis para ele. Ela é sua esposa que, com os olhos cheios de lágrimas, palavras trêmulas que saem de seus sofridos lábios, fazem acreditar no fundo de si que tais preces terão algum valor, ou melhor, que essas preces têm algum valor diante de um Ser único que teria criado tudo o mais. O rosto do velho homem está esquálido, inexpressivo, mas, em seu âmago, ele não para de contar os segundos que faltam para a morte, essa sua grande companheira da vida, "que venha e leve-me em seus braços..." A lacrimosa mulher relembra amargurada das vezes que o alertara a tomar o remédio nos horários prescritos pelos médicos; das vezes em que ele se vira privado por ela de tomar aquela cervejinha bem gelada no final da tarde ou a cachacinha antes do almoço; das vezes em que passara algum programa na tevê que destacava a importância dos exercícios físicos, da alimentação balanceada, das práticas de vida saudáveis... "A vida é um inferno!", pensara, pois tudo teria que estar sob o controle dos médicos, dos remédios, das receitas. Tudo que lhe dava vontade era malvisto, era proibido. Seu eu fora sumariamente ignorado. Desmontado ao longo dos anos pelas ditas instituições que se alimentam de sua combalida individualidade. Até que veio o dia fatídico do corpo dizer basta não suportando mais a ausência de si... Mas seu espírito ainda teima em resistir. No fundo, o velho homem sabia que a morte não é algo tão ruim como as pessoas o diziam, como todos da sociedade o diziam. A morte é libertação, fuga de uma vida asfixiante fruto de escolhas que ele pensara serem sensatas em algum dia remoto. O seu corpo fenece. Aliás, desde que nascera ele já notara isso. Iludem-se aqueles que acreditam piamente que “uma vida saudável” lhes garantirá que não irão morrer, ou que, pelo menos, a distanciarão da morte. Ela chegará, mais cedo ou mais tarde. O sofrer humano reside justamente em não aceitar essa única verdade sólida e inabalável: a morte virá dar o seu abraço. Seja rico, pobre, baixo, alto, gordo, magro, saudável ou cancerígeno... Não adianta fugir. Sábios e, portanto, efetivamente felizes são aqueles que reconhecem esse carinho natural que ela vem nos dar ao final de qualquer vida. A mulher chora porque ainda não reconheceu essa verdade, aliás, a única verdade que vale a pena ser difundida. Em seu âmago o velho homem sorri porque finalmente a morte se aproxima e ele pode agradecer com suas últimas energias movimentando seus lábios moribundos um pálido “obrigado”...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

DO FANATISMO


Cioran já nos alertara a respeito da mazela que as ideologias podem trazer ao ser humano. Louvemos Pirro! A busca pela verdade, essa herança reforçada pela modernidade, ainda manifesta tal força nos dias atuais que a humanidade acredita ser absolutamente natural estar enquadrado em alguma corrente, em algum conjunto ou corolário de ideias que de algum modo serve para que os seres humanos possam enxergar o mundo ou até mesmo sua própria vida. Propalam aos quatro ventos que sem um conjunto de ideias salvadoras, nós não seríamos nada. E essa ideia de salvação não está presente apenas nas igrejas ou nas religiões. Foi-se esse tempo! O fanatismo conseguiu ganhar mais espaço. Pulou os muros religiosos. Transbordou os pátios ditos sagrados chegando a vários lugares, como na política - e principalmente a política! Cuidado com aqueles que bradam suas verdades inquestionáveis! Esses são os mais perigosos! São capazes de qualquer coisa para reforçar sua necessidade ou sua vontade de poder. Sim. Eles almejam o controle através de suas ideias que funcionam mais como amarras, como grilhões que a todo instante impõem aos seres humanos uma condição da qual, quando estiverem convencidos, dão a garantia de que alcançarão a felicidade. O fanático está plenamente convencido disso. Ele se mata ou pode até matar. Ele é violento, ávido por brigar, por entrar em conflito, por tentar convencer de que ele está com a verdade e os outros não – atente que tal característica transbordou da religião para outras esferas. Ele, o fanático, não aceita o discurso contrário. Ele quer porque quer que o outro o aceite, que o entenda, que se convença de sua ideia absoluta, infalível e inquestionável. É um dogmático com todas as letras! “Saia daqui você que não ouve! Você está no caminho errado. Que erre sozinho, isolado, porque parece um pobre miserável; quando isolado, não passa de uma sombra borrada de alguém. Isolado você não é nada nem ninguém! Nós somos porque acreditamos em uma ideia, defendemos essa ideia. Vocês, os fracos, os que optaram por fugir da verdade, estão todos fadados ao recanto mais obscuro do inferno – da sociedade!”. O convencimento transformou-se em moeda de troca. O ser humano de sucesso é aquele que consegue convencer e manter um sem número de séquitos. A mídia em geral transformou-se em uma ferramenta poderosíssima que fortalece e propaga-se de um modo jamais visto, inimaginável em outras épocas. É muito mais fácil convencer um fanático, diga-se também, um fã, um seguidor... através dela, da mídia. Discursos e mais discursos de que a mídia contemporânea tem como foco a democratização do conhecimento ou da informação soam aos ouvidos. E tal ideia não está de todo errada. Contudo, o que está subentendido nessa “democratização”, em verdade são as ideias que a mídia quer que se acredite, que se propague, que se fortaleça, que encontre morada. Ideias que convençam o pobre espectador, ou ouvinte a continuar o consumo daquela ideia – e que, diga-se de passagem, se transformou em um produto lucrativo nos dias em que a dita razão venceu. O fanático, e aqueles correlatos que tentam se aproximar a tal condição, seduzidos pelas armas contemporâneas de convencimento, se acotovelam para comprar e assim consumir ao máximo a ideia da moda! Mas essa ideia da moda não vive solitariamente. Não é um único produto. A variedade delas são incontáveis, ad infinitum! Vários são seus rótulos. Têm as ideias antiquadas, modernas, cult, filosóficas, religiosas... a vitrine não consegue comportá-las por completo. Cuidemo-nos para que nenhuma delas convença-nos a fazer algo, seja errado ou não...

O MUNDO É DOS MAIS ESPERTOS

Uma garotinha dança ao som de uma música popular do momento aos olhos emocionados, quase lacrimejantes e orgulhosos da mãe que segura ávida seu celular pago com 12 prestações - mesmo atrasadas - sintetiza uma imagem bizarra da dita era do conhecimento. A música que é ouvida induz e reduz o corpo a um mero objeto a fim de demonstrar o controle de sedução ou ainda, na melhor das hipóteses, um controle corporal até então jamais visto para uma criancinha de 7 anos. A mãe filma ansiosa por colocar o vídeo na internet, nas redes sociais, e mostrar o quão é "engraçadinho" vê-la "rebolar até o chão" em um movimento de sensualidade incomparável para as meninas da mesma  idade. Ela, a mãe, não está preocupada se a filhinha vai bem na escola. Está preocupada se sua filhinha aprendeu os passos corretamente para que ela possa desfilar mostrando ao público sua destreza corporal. O grande sucesso do carnaval que é a música que apela diretamente aos movimentos corporais - e que o compositor se deu ao farto trabalho de colocar algumas cinco ou seis palavras que façam sentido e que não sinalizem, em hipótese alguma, à inteligência ou ao menos à formação intelectual daquele que irá ouvi-la - é tocada de tal forma que até mesmo aquele que não suporta o ruído é obrigado a decorá-la. É quase como um estupro aos ouvidos do infeliz que não quer e nem almeja fazer parte dessa destoante e no mínimo constrangedora cena.
Os donos da mídia, os homens que controlam o Estado, as grandes corporações industriais, enfim, aqueles que detêm o controle das sociedades regozijam-se em seus iates e flats pouco se importando com a emoção da mãe que filmou sua filhinha com um celular parcelado para 12 prestações - atrasadas - tomando seus whiskies envelhecidos em que um simples gole já pagaria, pelo menos, 10 aparelhos celulares do mesmo da endividada mãe. Mas eles têm um interesse objetivo: o controle. Isso é fato. É muito mais cômodo, mais fácil inclusive, controlar aqueles que aceitam de bom grado esse cerceamento, essa limitação ou ainda  essa despreocupação com a exposição no mínimo desnecessária de uma criança qualquer. Mas isso evidencia um controle? Talvez alguém que sofresse um processo de formação efetiva em uma escola não tivesse desenvolvido uma ideia dessas. Talvez ela se conscientizasse de que não ganharia efetivamente nada ao expor sua filhinha numa rede social de vídeos - ainda que, em função das muitas visualizações, ganhasse seus trocados, mas o certo é que os donos da mídia, sem sombra de dúvida, estariam ganhando muito mais. Talvez ela nem fosse tão descuidada ao colocar seu aparelho celular parcelado para 12 prestações e decidisse pagar o valor mínimo no cartão de crédito pagando juros escorchantes de quase 400% ao mês para manter o padrão de vida esnobe e ostentoso dos homens que controlam as grandes corporações bancárias. Por isso que nos dias de hoje é extremamente rentável manter as massas estultificadas. A burrice dá lucros e faz valer aquele velho ditado: "o mundo é dos mais espertos!".

domingo, 19 de novembro de 2017

UM COMENTÁRIO SOBRE A INFLUÊNCIA DO MITO GREGO À CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Breve Apanhado Histórico

É notório o legado grego sobre a civilização ocidental. Estudos e mais estudos sobre o referido assunto somente tem fortalecido a concepção de que devemos muito à cultura grega a começar pela arte, pela filosofia, pela dramaturgia e pela literatura. A literatura mostra-se como uma área onde se nota de maneira mais evidente a marca do legado grego, a começar pela forma de escrever da esquerda para direita e de cima para baixo. No entanto, talvez a maior contribuição de fato marcante tenha sido a forma como nós, ocidentais, refletimos ou pensamos. Por incrível que pareça, a maneira como pensamos, o modo sistemático de organização das idéias é fruto também da influência do povo de Homero, e daí talvez todas as outras coisas referentes àquela cultura – e à nossa – decorreram de um elemento intrínseco denominado de “razão”, material primordial para o surgimento da filosofia, das artes e das ciências que até hoje sentimos algum tipo de efeito.

Não obstante, uma questão permanece ainda hoje sem resposta: teria o povo grego demonstrado essa aptidão à razão ou às artes em geral de uma maneira única e exclusiva na história da humanidade – a teoria do “Milagre Grego” – ou teria ele sentido as influências de outros povos e, portanto, de outras culturas e que paulatinamente foi se enquadrando à realidade grega – a teoria dos Orientalistas –, desse modo, adaptando-se? Os Ocidentalistas são os teóricos que acreditam na ideia de que aquilo que houve na Grécia e que marcou profundamente a nossa cultura foi fruto exclusivamente dos gregos, eles e somente eles teriam sido os únicos responsáveis pela criação de uma forma de pensar até então inédita. Em contrapartida os Orientalistas acreditam que houve sim uma interferência ou influência de outros povos sobre a cultura grega, influências essas oriundas principalmente do Oriente e que os gregos somente teriam adaptado à sua maneira, à sua realidade. No entanto, tanto os Ocidentalistas quanto os Orientalistas crêem em algo comum: os gregos de fato foram o povo onde as principais características do ocidente se desenvolveram e que marcaram e ainda marcam toda uma população de um lado do hemisfério.


Podemos começar a perceber o início de tal influência através da mitologia grega. Note-se que os gregos foram o primeiro povo a adorar ou a divinizar a imagem puramente humana, sem a mistura entre animais fantásticos ou seres grotescos. O grego inova ao conceber a forma humana como algo relacionado à beleza, à perfeição, enfim à luz (razão), enfim, os gregos inauguram assim o antropomorfismo, deuses geralmente dotados de forças da natureza, mas que apresentam uma aparência puramente humana.

Os deuses agora são vistos como “super-humanos”, possuem uma relação profunda com a luz, o dia ou simplesmente com a clareza, sempre demonstrando alguma razão, algum motivo quando realizam algum ato que interfira na vida dos mortais. Tal predisposição notadamente remonta à necessidade que os gregos possuíam em racionalizar as coisas que aconteciam ao seu redor, a começar pela sua mitologia. Os gregos, nesse sentido, buscavam uma unidade de compreensão lógica ou racional que passasse a integrar, a organizar ou a dinamizar os conhecimentos, e tal unidade não passa de resultado de um longo processo de racionalização da própria cultura grega que teve em Homero e Hesíodo a sua origem. Obviamente que essa racionalização não estaria completamente despida como aconteceria posteriormente, mas, de modo quase que imperceptível, subliminar ou ainda inconscientemente, o princípio, a semente da razão já estava ali sendo aos poucos germinada.

Quando os gregos passaram a entremear as lendas com as ocorrências históricas, isso por volta do século XII a.C. quando os povos que vão criar a tradição grega começam a chegar às circunvizinhanças do mar Egeu, percebemos então o surgimento dos cantos e sagas que os aedos – um tipo de poeta ou declamador ambulante no qual teríamos uma aproximação com os cordelistas e repentistas nordestinos – continuamente foram enriquecendo. Geralmente constituídas por uma seqüência de episódios, as epopéias gregas possuíam um fundo histórico comum e alternavam-se apenas através do que os estudiosos chamam de “ciclos”. Esse fundo histórico normalmente era alguma guerra, no caso, as duas guerras de Tebas e a famosa Guerra de Troia. E desses numerosos relatos ou poemas desse período apenas dois se conservaram: a Ilíada e a Odisseia ambos atribuídos ao poeta Homero.

Sobre a vida de Homero muito pouco se sabe, apenas especulações que aqui não há a necessidade de citar, até porque há uma dúvida quanto à sua própria existência. O que se sabe, não com muita certeza, é que muitos aedos teriam posto como uma espécie de pseudônimo o nome de Homero já que eles, naquele período, ainda não teriam um individualismo literário como conhecemos hoje, e assim teriam congregado, em algum momento da pré-história grega, o chamado período dos deuses e heróis, todos os cantos que tratavam sobre as lendas daquele povo.


Compreensão da Influência Grega no Ocidente

Agora trataremos de analisar superficialmente um trecho da Odisseia de Homero a fim de tentar identificar algum elemento que de alguma maneira caracteriza o Ocidente de uma forma distinta do Oriente, nesse sentido, seria então a razão ou a forma como nós, ocidentais, pensamos sobre as coisas que nos dá um caráter diferenciado.

O trecho da obra de Homero escolhido é referente à passagem em que Ulisses ou Odisseu terá que enfrentar pela ilha das sereias, seres místicos capazes de encantar qualquer marinheiro e amaldiçoá-lo com o naufrágio e assim à morte ao obrigá-lo a ouvir seus cânticos sedutores. Ulisses, portador da astúcia , de acordo com os filósofos frankfurtianos Adorno e Horkheimer, acataria a sugestão de prender-se ao mastro da nau enquanto que seus companheiros tapariam os ouvidos com cera a fim de não escutar o canto maldito, embora belíssimo. Odisseu, então, seria o único que guardaria na lembrança o som dos belos cânticos das sereias. O trecho a seguir é contado de forma textual, uma maneira bem didática que o tradutor da obra encontrou para tornar facilitada a compreensão aos leitores um tanto inexperientes, lembrando que a versão original é narrada em versos tal qual um poema épico.

“[...] Com o coração angustiado, disse então a meus companheiros: ‘Amigos, os oráculos, que me foram revelados por Circe, ilustre entre as deusas, não devem ser conhecidos apenas por um ou dois de nós; vou, pois, comunicá-los a todos para que saibais o que nos pode perder, e o que nos pode preservar da Quere fatal. Ordena-nos ela que, antes de mais nada, evitemos as enfeitiçadoras Sereias, sua voz divinal e seu prado florido; aconselha que só eu as ouça. Mas atai-me com laços bem apertados, de sorte que permaneça imóvel, de pé, junto ao mastro, ao qual deverei estar preso por cordas. Se vos pedir e ordenar que me desligueis, apertai-me com maior número de laços.’ [...]” 


O que está presente de maneira objetiva nesta passagem, de acordo com a compreensão dos filósofos frankfurtianos, é que a razão, representada pela astúcia de Ulisses, já estava de algum modo presente na mitologia grega, algo que não se observa na mitologia Oriental. Assim sendo, a razão conseguiu encontrar todos os seus elementos fundadores no mito grego e que com o passar das épocas vem se desenvolvendo de um modo ímpar se comparado ao Oriente. Há nesta passagem uma presença marcante de algo que vai pôr alguma influência sobre a nossa forma de pensar representada nas artes, na filosofia e principalmente na ciência.

Observemos esta afirmação dos citados filósofos alemães da Escola de Frankfurt a respeito do envolvimento da astúcia com a razão a fim de potencializar a característica marcante do Ocidente:

“[...] A astúcia, porém, é o desafio que se tornou racional. Ulisses não tenta tomar um caminho diverso do que passa pela ilha das Sereias. Tampouco tenta, por exemplo, alardear a superioridade de seu saber e escutar livremente as sedutoras, na presunção de que sua liberdade constitua proteção suficiente. Ele se apequena, o navio toma sua rota predeterminada e fatal, e ele se dá conta de que continua como ouvinte entregue à natureza, por mais que se distancie conscientemente dela. Ele cumpre o contrato de sua servidão e se debate amarrado ao mastro para se precipitar nos braços das corruptoras. [...] ”

A razão, nesse sentido, desmistifica, organiza ou, ainda, racionaliza. Foi isto que Ulisses realizou quando premeditou um plano bastante meticuloso para seguir seu caminho: ele fugiu do mito e utilizou um pensamento, uma astúcia para livrar-se ou até usufruir algo no qual muitos, em nome de um conhecimento, de uma “curiosidade” – outro princípio racional também oriundo entre os gregos –, perderam a própria vida.

Esses filósofos dão uma conotação um tanto negativa a respeito da razão no Ocidente tendo em vista sua vertente um tanto “romântica” de retorno à natureza e concebendo a razão como algo não-natural. Todavia, e eles assumem tal postura, até porque reconhecem a contribuição da teoria da racionalização do mundo ocidental apresentada anteriormente pelo sociólogo também alemão Max Weber, a razão, com os gregos, passa a ser o principal estigma de uma civilização. O processo de racionalização ou de desmistificação ainda constante no mundo Ocidental teve seu início com Ulisses quando viu na utilidade da sua astúcia – entenda-se, quando ele fez uso de sua razão, de sua capacidade de refletir ou de ordenar – algo de fundamental para dominar o mundo da vida como a própria natureza.

Em uma era remota, o mito satisfazia muito bem as inquietações manifestadas entre os seres humanos, apesar disso, bastou um entre todos se sentir insatisfeito e criar outra maneira de explicar a realidade e as coisas. Essa outra maneira era a tentativa de ordenação do universo, do mundo ou da realidade através da organização legada a nós por Homero e Hesíodo, principais fontes gregas nas quais encontramos um forte auxílio para a compreensão do homem ocidental.

Obviamente que a “descoberta” da razão e a sua utilização espraiada a tudo aquilo que o ser humano concebesse trouxe repercussões inquestionáveis à sua própria vida, tais como as vemos, por exemplo, presentes na arte, na tentativa de encontrar o belo, sendo o belo nada mais do que um exame de racionalizar ou ordenar ou ainda equilibrar as formas aproximando-as o máximo possível da ideia de perfeição – claro que atualmente a pós-modernidade questiona e cria uma ruptura radical com esse conceito “obsoleto” sobre a arte e a sua busca pela perfeição das formas. Vemos ou sentimos ainda a presença de algum traço, por menor que seja, da presença grega da razão na literatura – naturalmente referindo-se aqui aos autores pós-modernos, mas que sempre, de algum modo, têm na escrita grega um resquício em suas criações ou ainda alguma referência. Vemos mais do que nunca a presença dessa razão grega na filosofia, na qual, aliás, a vemos de um modo mais evidente tal presença rondando com suas questões centrais no pensamento da contemporaneidade. E, claro, na ciência, que se fez portadora e defensora oficial da razão ocidental.


Referência bibliográfica:
PEIXOTO, Paulo M. “Mitologia Grega”. Editora Germape, São Paulo – 2003.

ADORNO, Theodor W. / HORKHEIMER, Max. “Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos”. Trad.: Guido A. de Almeida. Jorge Zahar Ed. – Rio de Janeiro, 1985, (p. 53, Excurso I: Ulisses ou Mito e Esclarecimento).

HOMERO. “Odisseia”. Trad.: Antonio P. de Carvalho. Ed. Nova Cultural – São Paulo, 2003.

OLIVEIRA, Clenir B. “Ilíada e Odisseia: Além do Tempo e do Espaço”. Discutindo Literatura, Ano I, nº 3, São Paulo. Editora Escala Educativa.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

COMO NÃO FALARMOS DE POLÍTICA?

Será que o Brasil está caminhando para uma insurreição civil? Será que o país, dos últimos anos para cá, vem mostrando claros sinais de que algo muito maior e transformador está por vir? Finalmente, será que estamos preparados para entrarmos no "país do futuro", pelo menos quando mostramos a corrupção nua e crua acontecendo nos lugares antes escondidos nos porões da nossa política? É fato: nos encontramos em uma situação, no mínimo, conflituosa. Imagino que o nosso país jamais houvera vivenciado uma situação de tantos corruptores sendo denunciados e mostrados na imprensa como que nesse momento. Mas a crise política faz parte da nossa realidade. Ousaria até afirmar que essa crise faz parte da condição humana. Aliás, me engano, Maquiavel já nos alertara que esse conflito é parte elementar de qualquer relação política. É sobre isso, então, que este post pretende comentar, como de costume, despretensiosamente.

Nicolau Maquiavel, filósofo italiano que vivera entre os anos de 1469 e 1527, desenvolveu suas análises sobre o tema da política em uma Europa em transformação, especialmente na Itália. Enquanto os maiores países europeus buscavam fortalecer sua nação com a formação dos chamados Estados nacionais, a Alemanha e a Itália passavam por conflitos que dificultavam o fortalecimento dessa ideia de país moderno. A Idade Média já estava demonstrando nítidos sinais de cansaço e a modernidade se destacava impondo seu corolário de concepções. Dentre eles, a ruptura dos valores cristãos aos valores científicos, filosóficos e por que não políticos. Maquiavel será, então, o responsável pelo golpe fundamental que enfim irá separar o hibridismo que existia entre política e religião muito comum no contexto anterior.

Naturalmente que a obra maquiaveliana causou impacto aos poucos indivíduos letrados que puderam acessá-la. Esse impacto, inclusive, fez surgir distorções de seu pensamento legando-o ao chamado "mito do maquiavelismo", condenando-o a um imoralismo político. Não que Maquiavel fosse um "santo", mas, imagino, sua principal pretensão ao analisar a realidade política em obras como O Príncipe fora justamente de mostrar uma face que a grande maioria das pessoas não sabia que existia ou que não queria enxergar. Numa palavra, uma face humana, desvinculada das normas gregas ou ainda dos ditames judaico-cristãos. Maquiavel percebera, então, que há uma distinção profunda entre as práticas cotidianas do ser humano com as práticas políticas também humanas, ainda que estas últimas estivessem entrelaçadas a valores dito religiosos.

Maquiavel não será entendido, inclusive, como um pensador qualquer alienado ao seu tempo. Pelo contrário. Ele irá refletir sobre uma perspectiva que até então nenhum outro havia ousado realizar, que é de dissociar a realidade política de normas morais ou moralizantes trazendo à tona esse rosto humano outrora escondido. Cabe ao político, ao governante, ter certas características exclusivas se ele pretender manter-se no poder e, nesse sentido, dependendo da situação, utilizar algum recurso ao mal quando necessário.

A famosa frase "os fins justificam os meios" supostamente atribuída ao autor em questão, denota uma concepção filosófico-política aparentemente assustadora. Contudo, tal concepção não é de todo equivocada. Na realidade da política, onde as relações de poder são muito mais massacrantes e evidentes, não há ninguém de "boas intenções". Ninguém está ali por acaso ou para ser "bonzinho" com todos. Caso isso ocorra, não irá permanecer por muito tempo. É como se colocasse uma ovelha no meio de lobos e, talvez o que é pior, tentar fazer dessa ovelha um lobo. No jogo de poder da política vence aquele que for mais perspicaz, mais sagaz, mais forte no momento oportuno.

Voltando ao nosso contexto, basta que mudemos os personagens históricos envolvidos e aplicarmos a reflexão maquiaveliana à realidade política brasileira - por isso Maquiavel ser um clássico! Nosso atual presidente não assumiu um cargo que lhe caiu nas mãos por acidente; ele não é uma "ovelha". Para que ele consiga se manter fará das tripas coração e se valerá de recursos que todo "bom" político, se quer manter-se no poder, terá que inevitavelmente fazer. Óbvio que nosso contexto é distinto, em partes, do contexto de Maquiavel, por exemplo, em sua época não havia a imprensa, que, apesar dos pesares, possui um papel crucial nos jogos políticos de hoje. Mas existe uma certa estrutura dessa realidade política que se repete, que se mantém. É dessa realidade que Maquiavel e este pretenso filosofante se refere. Maquiavel, para quem pretende conhecer essa estrutura escondida da realidade política, é mais que uma leitura obrigatória. É mais que uma necessidade.

DA NECESSIDADE DE SERMOS FALSOS

Conviver em grupo sempre manifesta uma série de inquietudes além de dificuldades. A convivência humana, sem sombra de dúvida, traduz essas ...