quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O mito da modernidade ou uma reflexão decolonial a partir de Enrique Dussel

 

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Um professor de história, na educação básica, em uma de suas aulas sobre a história do Brasil, explica aos alunos sobre a chegada dos europeus em terras tupiniquins. Empolgado, o professor comenta que o Brasil de fato começara a surgir a partir da chegada desses nobres e corajosos desbravadores dos mares que enfrentaram agruras mil para mostrar aos seus pares seu poder, sua força para descobrir e impor-se sobre novos lugares. A cultura deste país colonizador da, pelo menos à época, grande monarquia portuguesa começara a impor-se também por aqui e assim evidenciar o grande desenvolvimento naval dos lusitanos que, graças às portentosas caravelas, conseguiram singrar os mares bravios levando sua “boa nova”, sua “salvação” aos gentios, demonstrando o quão civilizados eles efetivamente o eram e o quanto esses povos ditos selvagens careciam urgentemente de uma nova mensagem para serem resgatados do seu estado de incivilizados, atrasados, empobrecidos espiritualmente, ou seja, tudo aquilo que um bom europeu, um bom português, não era e nem deveria pretender ser.

Claro que essa sagração náutica dos nossos “irmãos” lusitanos somente acontecera por conta dos avanços que a modernidade europeia pôde proporcionar. Sobretudo os avanços tecnológicos – como a própria caravela, o astrolábio, dentre outros tantos instrumentos ou simples objetos. Descartes, Galileu, Bacon, Locke dentre outros grandes pensadores que, além de filósofos, eram também cientistas, puderam atestar como a Europa nesse contexto pós Idade Média houvera se desenvolvido e assim conseguido transformar drasticamente aquilo que no contexto anterior a religião cristã resistia em aceitar criando incontáveis obstáculos de ordem religiosa ou pela simples autoridade também religiosa. O desenvolvimento da ciência, a revolução copernicana, a necessidade de mudança do método científico eram a prova do avanço não somente tecnológico, mas também cultural ou filosófico pelo qual a Europa da modernidade fervilhava e há muito ansiava por realizar. Naturalmente que essa transformação não aconteceu do dia para noite. Foi um processo gestado já nos anos findos da Escolástica que culminaria com a filosofia cartesiana sobre o conhecimento ou o “autoconhecimento” – o pensamento puro –, inclusive proferido por toda Europa – e refratando-se em suas colônias, como as Américas, mesmo que tardiamente – pelo filósofo alemão Friedrich Hegel que fizera questão de enaltecer tal feito.

Hegel, nesse sentido, será um desses propagadores – talvez o mais relevante desse grupo – de que a filosofia europeia é sim o berço de uma forma de conhecimento completamente pleno, muito desenvolvido, se comparado a outras formas de pensamento daquele contexto e de contextos anteriores. Descartes teria conseguido a “proeza” de perceber o conhecimento, ou melhor, o pensamento tomado como autoconsciência de si, a expressão do “pensamento absoluto”, como enfatizou o pensador alemão Friedrich Hegel. E eis aqui o nó górdio pelo qual o filósofo Enrique Dussel se valerá para fundamentar sua reflexão e sua consequente contestação dessa ideia, no seu entender, “intra” europeia, eurocêntrica, autocentrada, ideológica e que admite uma origem única e exclusiva no norte europeu e que nos foi imposta desde o século XVIII até a atualidade. Isto é, Dussel procura desmistificar o conceito emancipador de Modernidade que Hegel impôs, sobretudo à filosofia compartilhada pelo resto do mundo.

Dussel, renomado crítico do pensamento eurocêntrico, nasce argentino, em 1934, mas, em razão da ditadura de seu país e de um atentado que sofrera em 1973, se viu obrigado a mudar-se para o México de onde pôde desenvolver uma vasta reflexão sobra a chamada “filosofia da libertação”, uma espécie de conscientização da América Latina e da sua condição de expropriada pelos europeus. Sua análise, nesse sentido, parte de uma compreensão de pluralidade ou de diversidade calcada no reconhecimento de que cada grupo social, de que cada sociedade possui uma identidade única que lhe é própria e, a partir disso, propõe uma completa renovação das ciências sociais que admitam a perspectiva daqueles que Hegel e boa parte da tradição europeia tratou como "inferior", "incivilizado", "menor" ou simplesmente merecedor de uma profunda transformação a partir de um pólo de referência que deve ser posto na Europa. Ou seja, Dussel sugere "simplesmente" que se observe o outro, o diferente, aquilo que o homem moderno europeu, principalmente, mostrou-se completamente incapaz de admitir e assim de reconhecer como um igual.

Por conta disso é que Dussel desenvolve sua sua crítica à concepção moderna de conhecimento, à eurocentrização do saber que foi propagada aos lugares fora da própria Europa, especialmente as Américas. O autor argentino sugere uma refutação ante a origem europeia da modernidade que se deveu a outras culturas que não eram tidas como expressivas e que, sob um certo aspecto, circundavam o espaço europeu, como o mundo muçulmano, que desde o século VII já mantinha os elementos cruciais para uma ideia desenvolvida de modernidade e que, principalmente, mantinha também fortes laços com as culturas ditas periféricas com a África e a Ásia, pelo menos até o ano de 1492, o ano do “encobrimento da América”, título de uma obra sua que retrata muito bem esse aspecto de marginalização dos povos indígenas dentre outras vítimas da colonização europeia.

Ao investigar as origens do eurocentrismo de forma detalhada, é na obra hegeliana que Dussel percebe especialmente uma caracterização bastante evidente além, naturalmente, de sintomática. Não que Hegel tenha sido o inventor do eurocentrismo, mas que talvez fosse uma grande referência para os pensadores que defendem esse tipo de pensamento e que demonstrou de uma forma tão emblemática que o próprio Dussel não consegue deixar de perceber os incontáveis e constantes equívocos históricos realizados pelo renomado pensador alemão quando, dentre esses e muitos outros equívocos, excluía-se as muitas culturas que não tiveram um mínimo de aproximação com a cultura europeia até culminar no “autêntico surgimento” da modernidade na figura do pensador francês Renè Descartes. Sobre isso, Dussel é categórico: Descartes não “inventou” a modernidade coisa alguma, dado ao fato de que seus “costumes metodológicos” – inteiramente subjetivos – impostos e ensinados desde muito cedo nas escolas de ordem religiosa católica, como a qual ele mesmo houvera estudado, em La Flèche. Descartes tão somente teve contato com o cogito graças a uma metodologia, uma prática de estudos tão fortemente ensinada que poderia se dizer que se antecipou ao método de aprendizagem similar ao método do calvinismo descrito em Max Weber para fomentar o “espírito do capitalismo”.

Há nos estudos cartesianos fortes indícios da presença filosófica dos jesuítas, tal qual o reconhecimento da matemática na construção de uma perspectiva de mundo que inclusive já havia sido tratada com Anselmo na Disputatio 28, dentre outros momentos, e que era extremamente comum naquele contexto discussões que envolvessem sobre esse tema nos colégios jesuítas. Com isso, Dussel chama a atenção ao fato de que, antes de Descartes e do “seu método”, já existiam essas discussões que posteriormente caracterizariam a Modernidade, e, o mais interessante, esses ensinamentos eram realizados por filósofos ibero-americanos, de uma geração anterior nos próprios colégios jesuítas.

O mito da origem da modernidade defendida com plenas forças pelo filósofo alemão na Europa, portanto, não se sustenta. Descartes, o tão propagado originador de uma forma completamente inédita de pensamento, em verdade não passou de um aluno que sofreu uma influência de professores em sua maioria não-europeus, de culturas vistas até então como “menores”, "desprovidas" de uma identidade. Argumentos esses típicos, diga-se de passagem, de uma construção mítica. Isso não quer dizer também que esses pensadores não-europeus tenham sido os responsáveis pela origem dessa ideia de Modernidade única e exclusivamente, mas sim de se perceber que essa ideia em verdade foi fruto de uma série de elementos culturais, filosóficos e até religiosos muitas vezes fragmentários que foram gestados e relacionados durante algum tempo. Mas o fato é: não se pode atribuir a um único lugar e/ou indivíduo essa autoria, sobretudo a uma ideia que busca autenticar uma “supremacia” ou um “pensamento puro”. Existe sim pensamentos muitos e diversos onde haja algum indivíduo humano.

O grande problema apontado por Dussel quanto a essa ideia que tenta justificar e consequentemente celebrar a eurocentrização é justamente a colonização epistêmica que esses defensores de um “pensamento puro europeu” intentam em propagar e assim incutir sobre a cultura de outros países que estão fora ou “à margem” dessa Europa tomada ideologicamente como “centro do mundo”. O que o pensador argentino radicado no México está sugerindo é que, pelo menos, se estabeleça um contato, um reconhecimento ou simplesmente um diálogo que escape ao universo europeu admitindo os muitos outros pontos de referência na construção de pensamento. Por isso sua defesa da filosofia da libertação. Uma filosofia que envolva outras esferas – como a teologia – e que parta da realidade latino-americana buscando esclarecer ou retirar as contaminações europeias ou “europeizantes” que se impõem à nossa história – e isto se configura um pensamento decolonial.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Os neo-pensadores whatsappianos

 Mas o que é essa coisa tão alardeada que as pessoas via mídias sociais - ou não! - insistem em defender para si chamada de "senso crítico"? Serão elas "críticas" efetivamente como afirmam? Será que ser "crítico" é simplesmente ser do contra? É sempre estar do lado oposto, negando, assumir um "negacionismo", essa palavra tão em voga hoje em dia? "Poxa, cara, você tem que ter um senso crítico pra entender as coisas!", diz algum sabedor contemporâneo pleno de suas supostas certezas e que assume com todas as forças ser de cunho filosóficas - pobre coitado!

Em primeiro lugar, "senso crítico", para a filosofia, não é simplesmente "ser do contra". Não é simplesmente ser aquele cara chato que nunca concorda com nada, sobretudo entre colegas ou amigos numa simples conversa de mesa de bar... Para a filosofia, "ser crítico" vai muito mais além que essa visão no mínimo simplória, para não dizer míope ou deturpada, daquilo que talvez seja mais caro à própria filosofia. É justamente esse "ser crítico" - essa "criticidade", fazendo um neologismo que todo bom filósofo adora fazer - é o que de fato movimenta a filosofia, é o seu modus operandi, seu motor fundamental, sua espinha dorsal. Mas, reitero, não tem muito a ver com esse sentido propagado aos quatro cantos pelos neo-pensadores de Whatsapp.

A crítica, para a filosofia e em segundo lugar, estaria de algum modo vinculada à uma observação mais acurada da realidade bem como do próprio ser humano. Diz respeito a uma qualidade genuinamente humana, fruto da razão, que permite aos seres humanos "desmontar", fragmentar, analisar por partes essa realidade tocada pelo ser humano ou a si mesmo numa tentativa de enxergar aquilo que a grande maioria das pessoas não consegue realizar - e atentem que esse exercício é deveras complexo, inglório e às vezes confunde mais do que ajuda! 

Essa capacidade de "desmonte", como foi dito, não é um trabalho fácil, ligeiro, feito tal qual uma regurgitada de palavras mal pensadas e muitas vezes distantes de um compromisso com aquilo que efetivamente condiz com uma construção argumentativa bem elaborada e que siga um mínimo de rigor. Essa qualidade crítica, enquanto presente no trato filosófico, exige muitos cuidados necessários para tornar sua veracidade válida - ou pelo menos coerente - e que tenha um poder persuasivo que alcance a razão, ou melhor, o lado racional. E aqui sugiro uma leitura ao comprometido leitor de um pensador alemão contemporâneo ainda vivo, Jurgen Habermas, quando trata seu conceito do - não se assustem! - "agir-racional-com-respeito-a-fins". 

Mas - e aí vem uma provocação -, como tentar argumentar dessa forma, com essa incursão racional, com alguém que não exercita justamente esse lado racional tão essencial para que um diálogo sensato aconteça e permita que seu lado sentimental - ou "não-racional" - o guie? Aí é melhor esquecer tudo isso que foi dito acima e não tentar conversar desse jeito com esse alguém, porque você, muito provavelmente, irá desperdiçar seu tempo. 

Essa "des-razão" ou essa "não-razão" entendo aqui neste post como pertencente ao grupo dos sentimentos, das paixões, dos desejos, isto é, tudo aquilo que a razão não consegue lidar, que não admite, pois ela reconhece suas limitações, ao contrário do seu lado antagônico. Saliento ainda que não entendo esse lado por uma perspectiva hierarquizada afirmando que um lado é superior ao outro. Que a "des-razão" é inferior ou superior à razão. O que afirmo é que, para que um diálogo aconteça sensatamente entre dois seres, é crucial o exercício de um elemento fundamental para que ambos entrem em um acordo: o lado racional de ambos. Até porque o objetivo da comunicação ou ainda da própria linguagem é simplesmente ser compreendida, entendida por aquele que emite tanto aquele que recebe.

Então, e já concluindo, "ser crítico", para a filosofia, não é simplesmente discordar de alguém por discordar. É preciso ter um certo rigor - quiçá metodológico; é preciso certa compreensão mais cautelosa, mais dedicada, conhecer melhor - por isso que ao analisar as partes, depois que se desmonta, fica mais fácil compreender todo o objeto observado e, consequentemente, agora sim, ter uma "visão crítica". É preciso conhecer bem o que se está criticando. E só se consegue realizar tal façanha se seguir esse caminho mínimo, se tiver esses cuidados elementares, caso contrário não passará de uma doxa (opinião), um discurso vazio, sem a devida profundidade, sem um conteúdo rigoroso, sem uma preocupação em ser válido, restrito por uma coerção dada pelo seu defensor, que pode ser por conta de seu status social ou pela sua entonação vigorosa pura e simplesmente, de modo violento, com arrogância e despudor além, consequentemente, de um desrespeito para com a sua própria coletividade.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Sobre a origem da infelicidade ou porque Heráclito estava certo


Por mais que se tente, que seja impositivo, coercitivamente pela cultura, talvez, a vida não é tão simples. A realidade não se mostra tão simples. Cabe às ideias tentar realizar tal façanha, tal faina hercúlea. Enxergar a realidade apenas com os olhos, com esse sentido que é justamente aquele que mais nos ilude, é um trabalho perdido, o trabalho de Sísifo. Como uma saúva que, solitariamente, tenta derrubar uma floresta de proporções absurdamente gigantesca. A realidade, a vida, são muito mais complexas do que almejamos. Uma ideia - ou um mero conjunto delas -, por mais que se tente, jamais conseguirá captar a completude daquilo que ela tenta transmitir, captar, entender... Até mesmo essas minhas limitadas palavras não conseguem e jamais conseguirão. Posso apenas apontar um caminho, indicar a ponta de um iceberg descomunalmente submerso. 

Mas não podemos deixar de esquecer que vivemos tentando realizar o irrealizável, compreender o incompreensível! A vida, como bem nos dissera Heráclito, é esse devir constante. Um devir que conseguimos captar apenas em um breve momento mas que, ainda assim, não nos dá o direito, a permissão de compreender o todo. A realidade é fluxo, é movimento, e esse movimento não se deixa mostrar, não se deixa ser entendido, ser tomado por inteiro. Conceitos, definições, identificações de elementos constituintes, não passam de uma tentativa bem aventurada ou bem intencionada - ou não - em um momento específico, mas que esse momento não se repetirá no seguinte, é, portanto, malfadado porque tenta compreender o todo, mas consegue compreender uma parte, e quando compreende uma parte, essa compreensão já está obsoleta. 

É o mistério que o ser humano tenta a todo custo descortiná-lo. Os crentes poderiam até afirmar se tratar de Deus, que, na sua incompreensibilidade inerente não permite ser conhecido por completo - eis o "mistério da fé". A realidade é pueril, é fugaz, fragmentada, que nem a vida humana. 

Ousadamente diria ainda que até a verdade estaria inserida nesse constante devir. Ela também se enquadraria nessa condição. Quantas e quantas verdades que aceitamos, que propagamos e depois as deixamos de lado por outras que porventura irão surgir. Talvez a infelicidade da vida humana esteja justamente em não aceitar essa condição absoluta da mutabilidade das coisas. Os conflitos entre pais e filhos, por exemplo, não passam de verdades defendidas por seres humanos mais velhos diante de seres humanos mais novos, até que esses seres humanos mais novos transformem-se nos seus opostos e mantenham o ciclo do conflito com a geração seguinte, seus filhos. 

O conflito, esse sim talvez se configure como a maior prova da mutabilidade das coisas no mundo. O conflito faz parte da condição humana. Seja de caráter interno ou externo. Seja dentro do indivíduo que esteja sofrendo por uma determinada situação - ou várias! - que reforce seu conflito interior, subjetivo, individual; seja fora do indivíduo, em termos de grupo, de classe, "ideológico-partidário". Conflito é sinônimo de mudança, de devir, de fluxo contínuo, de movimento. "Ninguém se banha no mesmo rio duas vezes"... Viver é estar em um rio de águas constantes e turvas. A realidade são essas águas. 

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...