sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Será que professores sabem o que quer dizer laicidade?

Todos que acompanham este blog sabem de minha dileção pela crítica religiosa sobretudo direcionada à religião cristã. Muitas vezes ouço ou recebo mensagens de pessoas que procuram me taxar como “ateu”, “herege” ou até “endemoninhado” graças às minhas palavras nada agradáveis quando comento sobre o cristianismo – e aqui, mais uma vez, refiro-me a todas às religiões que veem na figura de Jesus Cristo seu principal representante. Por isso, aqui na minha cidade, recuso-me a participar de todos os eventos que de uma maneira ou de outra percebo o envolvimento de alguma igreja, sobretudo a católica.

Minha desilusão religiosa, como não poderia deixar de ser, foi colossal, mas ela me incentivou de algum modo a buscar mais as argumentações a respeito dessa coisa chamada religião que eu acreditava cegamente entender. Talvez, na realidade, eu já carregava comigo de forma incipiente uma certa descrença, mas sempre procurava deixá-la de lado, escondê-la, ou por medo ou por precaução. Mais tarde, já na metade do curso de filosofia, é que procurei de fato mergulhar nesse tema da crítica religiosa através de dois filósofos emblemáticos na crítica à religião: Feuerbach e Nietzsche, em suas respectivas obras, fundamentais para mim, A Essência do Cristianismo e O Anticristo. Agora sim despertava de meu "sono dogmático"!
Ludwig Andreas Feuerbach.
 Quando crente e temente a Deus, buscava ler conteúdos de diversas perspectivas para acertar numa compreensão mais detalhada sobre aquilo que me angustiava. Nunca havia lido Darwin por medo de perder a pouca fé que me restava, mas sempre o respeitava, nunca o criticava ou o desmerecia, até porque não conhecia sua obra ou suas ideias por completo. Vez por outra me deparava com alguém que dizia que Darwin ou até Nietzsche eram "pessoas sem Deus no coração", mas não entendia muito bem o porquê desse tipo de afirmação. A religião também não ajudava muito a esclarecer, o que me forçou a trilhar um caminho solitário...

Essa trilha solitária a qual escolhi me levou a cursar filosofia e aí sim descobri o caminho que a religião jamais iria me mostrar. Formei-me professor e percebi o quanto de embebido e consequentemente cego pela religião estava. Os filósofos citados acima e mais alguns retiraram todo o véu que anteriormente encobria minha visão, e realmente, nesse momento, podia enxergar com bastante clareza a realidade da religião e a realidade que ela procurava esconder de mim. Sempre quando me lembro desse momento marcante, recordo-me em seguida da cena crucial do filme Matrix quando Neo desperta do casulo e enxerga a realidade que ele desconhecia.

Cena do filme Matrix.

Por isso me sinto angustiado além de revoltado quando me deparo com alguém, com pessoas ligadas ao meu círculo de convivência – não que eu tenha escolhido – que dizem “ser absurdo como alguém pode deixar de acreditar na evidência da criação do mundo por Deus”; ou ainda, “como alguém pode acreditar naquela teoria imbecil de que o homem deriva do macaco”. Isto sem comentar que essa mesma pessoa diz ter encontrado todas “as evidências” num livro obscuro, de, não duplo, mas vários sentidos para não dizer completamente contraditório chamado Bíblia. Será que Darwin estaria brincando só para sacanear com as pessoas?

A ciência recentemente levou a “crença darwiniana” à lugar de verdade científica quando, depois da descoberta da genética, afirmou ter agora sim evidências da semelhança entre um chimpanzé e um ser humano – pelo menos fisicamente. E esse tipo de pessoa acha que é um crime comparar alguém, um ser humano, esse “ser especial”, a um animal, esquecendo-se ela que nós só nos diferenciamos dos animais pela razão – se bem que nem essa argumentação de que a razão é inerente a todo ser humano eu esteja ainda de todo convencido.
Charles Darwin
Detalhe agora para o que mais me dá medo como também absurdo nesse tipo de pessoa: ela é uma educadora profissional! É alguém que cursou uma faculdade! Alguém que se diz professora graduada, que diz ter lido textos de cunho científico, mas que ainda assim acredita ser “mais fácil” entender a “certeza absoluta” da Bíblia do que A Origem das Espécies de Darwin. Pior ainda é saber que esta criatura dotada de razão é uma professora e que transmite aos seus pobres alunos que "Deus nos fez especiais", que "criou todos nós", e sequer cita alguma passagem ou algum comentário, pelo menos, sobre a teoria da evolução darwiniana e assim mostrar outra possibilidade de explicação da realidade aos seus pobres alunos! Bastava dizer: eu acredito na explicação dada pela Bíblia, o criacionismo, mas existe uma explicação científica, o evolucionismo, na qual afirma que possuímos um parentesco com os símios.

Esse tipo de profissional esquece que escola, em sua base conceitual, é o ambiente onde se proporciona instrução, experiência ou vivência, no caso brasileiro, de cunho científico, e que o doutrinamento - ou catecismo - que ela está sujeitando seus pobres alunos se faz em igrejas, não mais em escolas! Que mostrasse sua opção ideológica, mas mostrasse também o outro lado, aquilo que ela nega, aquilo que seus pobres alunos não sabem, mas que possuem o direito "divino" de também conhecer.

domingo, 4 de agosto de 2013

Os moleques baderneiros dorenses

Como todos sabemos, o nosso país, um pouco antes, durante e depois da Copa das Confederações, pipocou de manifestações populares. Um clima de insatisfação e de indignação enfim tomou forças e influenciou a população brasileira a ir para as ruas "reivindicar pelos seus direitos", essa influência ganhou força em especial na população jovem, mas muitos das demais idades também foram vistos manifestando suas indignações, fossem elas violentas ou não.

Frases ficaram famosas como "o gigante acordou" ou "vem pra rua" foram entoadas aos quatro cantos do país e elas, as frases, que inicialmente tinham um sentido propagandístico, respectivamente, para o Whisky Johnny Walker e a montadora de carros Fiat, passaram a ser os mantras dos manifestantes. Mas prefiro não me deter nas manifestações fora do meu município, quero apenas registrar o momento histórico que serviu de estopim  para a tentativa de manifestação que aconteceu por aqui. E também porque já existem muitos comentadores - bons ou maus - que trataram sobre o referido assunto. Prefiro me reportar à minha pequena e provincial realidade.

Alguns jovens daqui do município de Nossa Senhora das Dores se sentiram também influenciados pela onda de manifestações que tomou o país, em especial jovens estudantes das escolas públicas, que aproveitaram esse clima de insatisfação e começaram a organizar uma mobilização com o objetivo de mostrar os problemas presentes e mais marcantes aqui em nosso município. Até aí tudo corria bem. Os alunos que estavam organizando o dito movimento se sentiram na obrigação de tentar "sacudir" a pequena população desta pacata cidade e tentar mostrar os pontos fracos desta sociedade e assim, de algum modo, cumprir com seus papéis de cidadãos conscientes. Carros de som foram contratados para divulgar o referido manifesto; integrantes dos grêmios estudantis preparando seus cartazes; bem como pessoas de fora das escolas também; mas, como todo evento premeditado, começaram a surgir os boatos...

Inicialmente surgiu o boato de que a oposição ao governante municipal do momento iria se valer da manifestação para trazer a público as mazelas do nosso município; em seguida o sindicato dos professores municipais iria também se aproveitar do movimento para mostrar à população dorense o desrespeito do governo público municipal com o piso dos professores; e o boato mais assustador, pelo menos para os comerciantes, foi o de que iriam invadir a prefeitura e depredar casas comerciais que ficassem abertas...

De repente a cidade foi tomada por um clima assustador...

As beatas não poderiam ir à igreja debulhar seus terços ("ai meu Deus! É Satanás que está tomando conta do mundo! Valei-me minha Nossa Senhora!"). Todo agrupamento de jovem fora dos muros da escola era mal-visto pelos mais velhos receosos de que a cidade iria ser "destruída" por esses "moleques baderneiros". Os velhos homens, os que se sentam nos bancos das praças, na "pedra fria", começaram então a conjecturar sobre as muitas conspirações políticas que estariam por trás do manifesto dos "moleques baderneiros". "Aposto que é o povo do outro lado! Os que perderam a eleição"; "Pegaram esses meninos bestas e botaram eles como laranja pra organizar essa baderna!"...

Boatos, boatos e mais boatos ganhavam força e aumentavam ainda mais o medo daqueles que preferem acompanhar o mundo pela caixinha mágica conhecida como tevê ou ouvir o que um padre ou um pastor falam. O comércio, preocupado obviamente com seu patrimônio, com seu capital, solta logo uma nota oficiosa de boca em boca que fechará as portas durante a manifestação. A prefeitura também, não-oficialmente, reproduz o discurso das autoridades políticas do momento afirmando que "nós não somos contra as manifestações, somos contra as depredações ao patrimônio público e a violência".

É bom lembrar que o objetivo dos jovens manifestantes que estavam à frente foi bem claro - pelo menos no que estava impresso no panfleto afixado nos muros internos da escola clamando aos alunos: uma manifestação pacífica com o intuito de chamar a atenção da população e das demais autoridades para os problemas no trânsito do município - muitos acidentes de moto vêm acontecendo por essas paragens; problemas de violência - muitos furtos e assaltos a mão armada; e problema na educação, em especial, segundo obtive informações com um dos organizadores do manifesto, a falta de professores na rede estadual e a precariedade dos serviços do transporte dos alunos dentro do município.

Momentos antes da manifestação acontecer, especificamente na noite que antecedia as manifestações, eis que um dos organizadores do evento recebe uma visita não-oficial de uma autoridade pública local lhe informando das responsabilidades que recairiam sobre ele se a dita manifestação acontecesse. A mãe desta pessoa se sente ameaçada e ambas "se convencem" a desistir do evento. Imediatamente esta pessoa liga para os demais organizadores colocando a par do ocorrido e eles também "se sentem convencidos" a desistir da manifestação outrora pacífica.

Uma manifestação que estava linda na ideia, mas, no momento de se consagrar, digo, de se concretizar, não alcançou a efetividade necessária e não passou de uma boa e esquisita lembrança nas cabeças dos organizadores. É fato que muitas pessoas que iriam participar não estavam bem cônscias do que de fato eram os objetivos da manifestação. É fato que muitos estavam mais envolvidos pelo clima nacional de protestos que assolam o país, mas que no fundo mesmo de seus espíritos queriam era mostrar a roupa da moda, passear pelas ruas da cidade, se encontrar com alguns amigos fora das redes sociais sem precisar de uma banda de forró ou de axé, finalmente, muitas pessoas estavam mesmo preocupadas em mostrar para as pessoas de Dores que eram conscientes do seu papel de cidadão. Assim como é fato também que muitos iriam se aproveitar politicamente - o que, diga-se de passagem, é absolutamente normal.

O problema maior que me chamou a atenção foi justamente o poder exercido pelos "grandes" desta pacata e provincial cidade! Ficaram tão atordoados com o que poderia - frise-se bem "poderia" - acontecer, ficaram tão assustados com o abalo que essa manifestação poderia causar ao status quo dorense, que decidiram por "caçar" os cabeças dos organizadores do evento com o objetivo de evitar problemas maiores a esses organizadores. Pior que isso, nos dias que se sucederam ao fracasso do manifesto, os comentários ouvidos eram uníssonos. Todos sabiam quem havia mandado "calar a boca" da quase finda liberdade política real dorense, mas ninguém, absolutamente ninguém, sentiu mais a necessidade de botar a boca no mundo e reclamar... A luta, então, se deu apenas no campo das ideias e, assim, saíram vitoriosos os personagens de sempre: os mais ricos.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Que é isso que chamamos "razão"?

http://pit935.blogspot.com.br/2011/04/o-pensador-de-rodin-podera-alcancar.html


Aprendemos que o ser humano é um ser "superior" se comparado aos animais, e essa "superioridade" estaria relacionada a uma característica única, exclusivamente nossa, que nos faz ser o que somos: a nossa razão, grosso modo, a nossa inteligência. É ela, essa coisa chamada razão, que pulula em nossa cabeça tentando nos dar um norte para as coisas que pensamos e fazemos. É essa coisa que nos obriga a articular sons, letras, palavras, frases e assim buscar ou dar algum sentido àquilo que vemos, que tocamos, que cheiramos... É essa coisa chamada razão que tenta explicar as coisas mais inimagináveis possíveis, que dá sentido a algo que não possui, que nos faz criar monstros...

Mas, finalmente, que é isso que chamamos "razão"?

Caminhando de volta para casa, furtivamente me vejo ouvindo as conversas das pessoas que cruzam pelo meu caminho. Ouço a conversa dos jovens, adolescentes, agrupados na praça com seus skates, uns sentados e outros realizando suas exibições, talvez na tentativa desesperada de chamar a atenção de alguma garota ou de alguém que o elogie pela manobra complicada que acabara de realizar. Suas conversas me chamam a atenção: "... Aquele jogo é massa, cara!", "... Vocês viram a cara dela quando Paulinho tava lá?". Passo por eles com certo ar de superioridade por estar prestando atenção à conversa, mas tentando encontrar um sentido que me esclareça sobre essa coisa chamada razão que faz pequenos seres em desenvolvimento comentar sobre suas vidas convencidos de que aquilo que conversam é extremamente mais importante que um atentado terrorista no Iraque.

Em seguida ouço rapazes, em frente a uma sorveteria, caçoando de um amigo sobre o comportamento dele com uma mulher: "Bicho doido, da peste!", "Ó a cara de pau dele!". E de novo sou arrebatado a questionar: que é essa coisa que faz esses seres julgarem a atitude de alguém? O caminho é longo e as pessoas com quem vou cruzando conversam sobre temas variados: religião, futebol, fofocas... Penso que animal nenhum na face da Terra possui essa característica única do ser humano de poder julgar alguém no seu comportamento. Nenhum outro animal terrestre possui essa capacidade de discorrer sobre temas dos mais variados simplesmente trocando sons, letras ou palavras e dando um sentido a eles. Somente nós possuímos esse poder, às vezes mal, às vezes bem, mas é fato que possuímos e adoramos julgar os outros. E esse julgamento só é possível graças a essa coisa que chamamos de razão.

Tal qual um flâneur, em uma clara alusão à compreensão dada por Walter Benjamim, vou empreendendo e exercitando minha capacidade racional buscando dar um sentido a esses diálogos ouvidos aleatoriamente. Reconheço que não posso dar sentido a todos ouvindo apenas trechos, pedaços de conversas, mas sou levado a reafirmar e reforçar minha pergunta inicial: que é isso que me faz buscar um sentido em algo que para mim não possui a menor significância?

Por que o ser humano é alimentado por essa coisa chamada razão que o faz procurar por sentido nas coisas? Será que é de fato essa coisa que nos torna mais importantes? As conversas das pessoas, pelo menos as que eu ouvi, podem ser consideradas importantes? O que é importante efetivamente? Estudar e encontrar a cura de alguma doença? Analisar os fenômenos naturais e dar sentido a eles? Ir a escola para buscar conhecimento? Ir a igrejas, supermercados, festas, visitas, velórios, casamentos? Será que tudo isso e muito mais me torna de fato "racional" e consequentemente "superior" em relação aos outros animais que não possuem essa capacidade cognitiva chamada aqui singelamente de "inteligência"? Qual o sentido de nós estarmos pensando constantemente? Será que Freud estava correto ao apontar que nossa razão não passa de um mecanismo cultural de controle da nossa "i-razão", do nosso inconsciente e que por sinal é muito mais poderoso que a consciência, que a razão?

Afinal, por que pensamos?

sábado, 20 de abril de 2013

O MUNDO DA APARÊNCIA OU DA TITULAÇÃO

Ao preparar uma aula sobre Platão para os alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) aqui no município onde trabalho, deparei-me novamente com os conceitos e aspectos que identificam a filosofia platônica e pude então refazer minha perspectiva a respeito de sua filosofia e o impacto dela nos dias de hoje. Ao realizar isso, pude perceber, mais uma vez, o porquê de este filósofo grego ser tratado como referência, como base, como clássico de fato na tradição filosófica ocidental.

Obviamente que não farei aqui uma interpretação aprofundada, rebuscada, acadêmica sobre este fantástico filósofo. No muito, inclusive como é próprio da proposta deste blogue, farei minhas inserções de cunho meramente "filosofante" neste post para que o leigo possa compreender o papel que a filosofia, em especial a filosofia platônica, pode auxiliar o ser humano na busca de sentido da nossa realidade tão mascarada, tão escondida e tão enviesada de ideologias dominantes. Obviamente também que a proposta deste post não é de mostrar o quão Platão deve ser considerado como dono absoluto da verdade, mas sim como um filósofo pode oferecer a nós uma, frise-se bem, uma perspectiva sobre a realidade.

Sinteticamente, Platão nos fala que as aparências constituem o que ele chama de "mundo dos sentidos", mundo este conceituado como algo plural, variável no qual cada um de nós nos apegamos ou nos afeiçoamos por verdades aparentes. E por isso nosso comportamento também ser variável quando se refere às verdades que assumimos durante nossa vida. Platão nos leva a crer que esse mundo nos ilude, nos impõe aparências das mais diversas possíveis confundindo-nos e nos afastando do real mundo, do mundo verdadeiro, do "mundo das essências" ou das "ideias". Este mundo que, no dizer filosófico de Platão, é o que efetivamente nos deve importar.

Nosso mundo é repleto de ilusões, de aparências. Lidamos com pessoas em qualquer ambiente social que acreditam no poder atribuído aos títulos sociais, à sua aparência, ao seu rótulo social. Os títulos que as pessoas adquirem, por exemplo, denotam facilmente essa compreensão platônica de que o mundo dos homens está eivado dessa futilidade aparente de se buscar reconhecimento, notoriedade, fama, riqueza, não pelo que a pessoa é própria ou essencialmente, mas pelo que ela tenta "parecer".

Cada vez mais vemos indivíduos e mais indivíduos preocupados em possuir uma profissão, um título - algo tratado como genuinamente "natural" nas sociedades hodiernas - e assim serem tratados pelo título e não pelo que efetivamente são. Na televisão, para ilustrar melhor, se alguém der alguma entrevista, necessariamente logo abaixo ou associado ao seu nome tem que existir seu título, sua profissão, com o objetivo de validar aquele discurso e assim tornar aquele indivíduo mais respeitoso - ou não. Se um pedreiro é perguntado sobre o que ele acha da vida, sua resposta será tratada como simplista, sem "profundidade", "ah, é um pedreiro, o que se pode esperar dele..." dirão os críticos de plantão, porém, quando se trata de um advogado a falar sobre o mesmo assunto, "nossa, esse cara sabe falar...".

Se o indivíduo então decidir procurar um emprego, "mostrar o seu valor para a sociedade", mais uma vez terá que se deparar com essa necessidade da aparência. Tanto a aparência física do indivíduo quanto a aparência "não-física", como os seus títulos. E, claro, quanto mais títulos este indivíduo possuir associado a sua bela aparência, suas chances serão também bem maiores para conseguir o cargo almejado.

Quantas e quantas vezes também somos de alguma forma obrigados a lidar com algum indivíduo que se julga melhor do que os outros pelo simples fato de "ser" um policial, um advogado, um professor ou alguém que possui um emprego que o remunere bem, esquecendo-se eles que eles não "são" o que dizem ser, mas meras "sombras", meras representações mal-feitas e sobretudo iludidas diante disso que eles denominam ser quando na verdade eles "não são". Eu posso "estar" um professor, um advogado, um policial, mas não sou essencialmente isso que a sociedade me impõe ou que eu acredite que "seja" porque minha essência não é isso, de acordo com uma interpretação platônica, e que em virtude desse mundo plural, variável que vivemos, sou iludido a acreditar que essa aparência, que essa sombra seja efetivamente real.

Nos deparamos com pessoas que tentam nos convencer de nossa "incapacidade" já que não dispomos das mesmas quantidades de títulos que essas pessoas. Seus títulos os tornariam, segundo eles, melhores. Estas pessoas não passam de vítimas dessa sociedade, ou melhor, deste mundo das aparências apontado por Platão. Crentes de que estão com a verdade, por possuírem um conhecimento aparente com o acúmulo de seus títulos, as verdades dessas pessoas as confundem, levam-nas a afirmar que elas seriam e devem ser consideradas as melhores ou receber um melhor tratamento dentro da sociedade da qual fazem parte. Sustentadas nessas verdades aparentes, essas pessoas demonstram o quão pobres de espírito são justamente por tentar não só nos convencer de que suas titulações os qualificariam como "melhores" esquecendo-se elas, ainda de acordo com a filosofia platônica, que suas verdades não passam de simples opiniões (doxa) e assim, consequentemente, por se tratar de opinião, essas opiniões naturalmente ocultam interesses meramente pessoais e portanto não verdadeiros.

domingo, 17 de março de 2013

Os falsos profetas da Educação Pública

Ao participar de palestras motivacionais que ocorrem rotineiramente na educação do estado de Sergipe, estrategicamente planejadas para antes do início do período letivo, sou sempre tomado de questionamentos, frustrações e indignações que de algum modo me afetam diretamente. Não sei se em outros estados as secretarias de educação agem da mesma forma, de colocar palestras de cunho "motivacionais" aos professores para que iniciem de uma forma bastante positiva o período letivo. Nos meus tempos idos de estudante repleto de ideias e nenhuma prática, com nenhum conhecimento tácito da realidade educacional do meu estado, acreditava piamente que esse tipo de mecanismo pudesse refletir positivamente na educação de alguma maneira. Mas hoje, já passado alguns anos de experiência em sala de aula, não vejo mais com aqueles olhos de outrora. Assumi desde então que não mais participarei desse tipo de evento por justamente desacreditar isso que comumente chamam de "motivação" mas que para mim não passa de "auto-ajuda" retirado dessas palestras motivacionais dadas às empresas.

Geralmente, o indivíduo palestrante se configura como um "enviado especial" da secretaria de educação e que esta, por sua vez, está demonstrando um aceno de preocupação ao dar sua pequena parcela de "motivação" para que justamente esqueçamos das nossas precárias condições de trabalho e tentemos, a todo custo, buscar subterfúgios para continuar a lecionar tal qual a imagem romântica do professor dedicado à educação. É bom que fique bem claro: sou professor, gosto da profissão que escolhi, mas não concordo com as condições de trabalho das quais disponho.

Os palestrantes, assim pude perceber durante minha incursão na rede estadual de ensino até os dias de hoje, geralmente demonstram ser uma pessoa deísta e de preferência católica ou mística e que surge com certo ar de superioridade, com certo ar de pseudo-sapiência e com frases clichês do tipo "estou aqui para aprender com vocês" tão enojante que chega a dar ânsia de vômito! Isso sem comentar a postura de pseudo-profetas crentes de que estão anunciando a grande boa-nova da educação com suas práticas pedagógicas infantis, constrangedoras e sem nenhuma referência a algum teórico ou pensador efetivamente válido ou pelo menos científico da área da educação. Em alguns momentos parecem até tratar os professores como crianças!

Tirando esse aspecto extremamente meloso, de uma religiosidade tosca, de auto-ajuda, retirada desses livros baratos comprados em qualquer grande loja de departamento, os palestrantes ainda se julgam grandes sabedores e "sensitivos" da realidade humana realizando o que para mim é o mais hediondo: propagam a nós, ansiosos professores, saudosos de suas férias, que "nós somos os responsáveis pela situação à qual nos encontramos", "nós somos os responsáveis pela felicidade que queremos", que "o desejo que nós manifestamos para nós reflete no nosso modo de educar"... Em suma, o que eles querem de fato nos informar é que a educação se encontra no estágio que está por nossa culpa! Em nenhum momento aparece uma possível divisão de culpa, pelo menos, ou uma completa acusação de que a esfera política ou os políticos de fato possuem sua contribuição para a má qualidade da educação sergipana! Ou até mesmo a brasileira!

Mais uma vez, reforço, parece que o "enviado divino" - da secretaria da educação ou até, vejam vocês, convidados pela equipe gestora da escola - quer nos confundir, quer convencer a nós professores - e às vezes desconfio se conseguiram de fato - que nós, apenas nós, os "educadores para a vida", somos os únicos responsáveis pela desgraça que assola nossa educação refletida nos índices educacionais extremamente preocupantes.

Pior que isso é quando, ainda por cima, com atitudes no mínimo questionáveis, a secretaria de educação cria suas fórmulas compradas de algum sabichão da educação - que por um azar do destino, nunca sujou as mãos com um giz em sala de aula em uma escola pública - tentando, mais uma vez, colocar a completa responsabilidade da educação sobre as calejadas costas do professor. Esquecem-se que educação não se aprende só na escola. É um papel atribuído também às famílias, às religiões, à política, à sociedade de um modo geral. Concordo sim que cabe a escola ou ao professor uma parcela considerável, mas ele, o professor, sozinho, não pode resolver essa sua parcela se não lhe derem as condições favoráveis para que seu trabalho seja efetivamente desenvolvido.

Não adianta a secretaria - ou as secretarias - de educação enviarem seus "mensageiros" ou seus "místicos milagreiros" para empurrarem suas explicações ou ponderações absurdas, sem relação com a realidade efetiva da escola ou da educação como um todo, aos professores nos inícios dos períodos letivos sem dar aos professores essas condições pelo menos mínimas, a começar por um salário digno que desobrigue o professor de procurar manter-se através de outros vínculos e assim desgastar-se física e mentalmente! Esse "mensageiro" passa a ficar então preso ao que comumente acontecia nos debates entre os doutores da Igreja na Idade Média conhecido como flatus vocis. Os professores aparentam ouvir atentos, que vão colocar em prática aquilo que viram, saem da sala de "debates místicos" "motivados", mas, nas primeiras semanas, estão de volta à dura e triste realidade da sala de aula da escola pública: a escola sem uma estrutura adequada, salários desmotivadores, salas de aula com excesso de alunos, alunos também desmotivados e equipes gestoras atabalhoadas tentando milagrosamente solucionar os índices de reprovação e de abandono como também a "fantasmagórica" presença das interferências políticas nos destinos da escola, sobretudo no que tange àqueles que, não por mérito, mas por uma indicação política têm que segurar as rédeas de uma escola que caminha para a perda de seu valor institucional.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

É o carnaval uma festa popular?


É fato que no Brasil impera o que se chama de pluralidade cultural. Desde a origem do nosso país, segundo grandes teóricos da área, como Gilberto Freire em Casa Grande & Senzala, nota-se a pluralidade cultural originada de uma miscigenação entre brancos, negros e índios. Isso sem comentar a miscigenação entre nações estrangeiras e a nossa que durante a contemporaneidade formam o nosso ethos, a nossa essência cultural, a nossa identidade, como foi o caso de japoneses, italianos, alemães, portugueses que migraram para o nosso país e deram sua parcela de contribuição à formação da nossa cultura. O Brasil, de dimensões continentais, possui uma pluralidade, uma variação de cultura tão rica, mas tão rica, que algum desavisado pode confundir-se ao viajar do norte ao sul do país acreditando estar em outro país.

Muitos desses povos trazidos ou vindos para cá lutaram – e ainda lutam – para ter sua parcela de reconhecimento na construção cultural do nosso país. Os negros africanos que o digam, talvez os mais prejudicados por essa empreitada de trazer e difundir sua cultura entre nós brasileiros e ainda assim sofrerem uma perseguição desumana senão estúpida.

No período que se inicia religiosamente no mês de fevereiro, o carnaval, nota-se a influência marcante da contribuição negra para a formação da nossa identidade cultural talvez mais evidente – embora eu prefira acreditar que os festejos juninos sejam mais nutridos de influência brasileira que o carnaval, ambos vindos da Europa e adaptados à nossa realidade, mas isso é assunto para outro post.

É no carnaval que vemos, mais uma vez, dentro da nossa cultura, a presença dos caracteres da cultura negra como o samba, o ritmo e a dança, o vigor com que se dedicam, numa palavra, a alegria de fato espontânea com que festejam o que não existia muito evidente na festa trazida originalmente para as terras tupiniquins.

Talvez em lugar algum no resto do mundo se encontre uma festa tão esperada e tão bem identificada com o povo brasileiro quanto esta, o carnaval. Mas, diante das grandes transformações e interferências inculcadas pelo capitalismo tardio, essa festa tão marcante da nossa cultura não pôde fugir de seus tentáculos poderosos e sedutores. Foi-se o tempo em que o carnaval era de fato uma festa mera e exclusivamente inventada pelo e para o povo. Admito que meu discurso possa até parecer meio saudosista, mas é inegável o poder que o dinheiro exerce sobre essa festa. 

Grandes corporações se apossam de seu controle, instituem regras, campeonatos, modismos, economia, tudo a fim de tirar o brilho intenso dessa festa tão marcante para o brasileiro que é o carnaval. Muitos até imaginam que o carnaval é apenas aquele transmitido pela Globo no Rio de Janeiro! Esquecem, essas pessoas, que o carnaval possui inúmeras facetas, inúmeras formas de se apresentar a depender da região onde ele seja manifestado. Em cada região do país o carnaval possui uma característica própria. O problema é que uma emissora sediada em um estado transmite o carnaval de seu estado fazendo com que as pessoas acreditem que aquele carnaval é o melhor, o mais bonito ou o mais organizado, quando na realidade carnaval não tem nada a ver com isso! Não existe um carnaval melhor do que o outro! É tudo manifestação cultural, quer dizer, até certo ponto...

Criou-se a moda de comprar um “abadá” se quiser sair no bloco, de comprar uma fantasia se quiser sair na escola de samba, de comprar um camarote, uma arquibancada... E dizem que a festa é do povo! “Ah!”, bradarão alguns, “mas quem não tem dinheiro pode se divertir na pipoca!”, por exemplo, se for o carnaval na Bahia. “Pipoca”, nesse sentido, é um lugar onde não se paga e que fica fora dos cordões de isolamento que protegem os foliões que pagaram pelo “abadá” e que, sabe-se bem, não existe o mesmo tratamento dado aos foliões não-pagantes. Cito outro exemplo, o Pré-caju, que acontece também religiosamente aqui no meu estado durante o período das férias escolares, no qual existe um acordo entre os donos dos blocos – os organizadores da festa – em que a polícia não pode entrar no bloco dos “abadás” comprados, salvo em casos muito específicos. 

Isso acontece em todas as festas carnavalescas do país: uma diferenciação entre ricos e pobres, entre os mais favorecidos e os menos favorecidos. Lugares onde os ricos podem frequentar e os pobres não; comidas e festas exclusivas onde os ricos podem usufruir e os pobres, os que adaptaram o carnaval ao nosso país, têm que ficar de fora. Salvo, contudo, em alguns casos onde o carnaval de rua, aberto ao público, é mantido milagrosamente pelo povo e resiste à empresa capitalista, como em Olinda, Pernambuco, onde realmente, a festa é para todos e não se dividem ricos e pobres, todos  fantasiados ou não saem à rua com a roupa e o dinheiro que tiverem numa clara alusão ao princípio do carnaval quando a festa estava voltada apenas para extravasar as frustrações, as tristezas e as pressões daqueles que trabalhavam durante todo ano numa alegria só.

Hoje os nossos momentos de alegria estão visados e influenciados fortemente pela regra capitalista. Tudo que deve ser considerado bom tem que necessariamente passar pela regra do mercado, da economia e obviamente ser mais caro, exigir um preço. Se você quiser ser feliz, basta que pague, e bem, para adquirir os melhores lugares e gozar sua festa com tranqüilidade e segurança – os “camarotes”, o inverso da “pipoca”. Aos pobres, cabe a resignação de poder assistir em sua casa, na tevê, ou participar de uma “pipoca” no qual o policial, muito bem orientado pelos seus superiores, sejam da corporação ou não, aproxime-se para separar uma briga simplesmente batendo primeiro e perguntando depois. 

O carnaval já foi uma festa do povo, agora não passa de uma festa daqueles que organizam e que ficam assistindo de longe, de preferência em seus camarotes com convidados especiais, assistindo apenas o bloco passar e engordando suas contas com aquilo que é também caro ao ser humano: a diversão.

INDIVÍDUO HUMANO: UM CAÇADOR DE SI

É fato, a "Idade das Trevas", preconceituosamente atribuído ao período histórico no qual a Igreja havia dominado política e ideol...