domingo, 8 de abril de 2012

Ciência versus Religião: um infinito conflito

Dentre os muitos temas polêmicos tratados pela filosofia, existe um que me deixa bastante apreensivo quando vou tratá-lo em sala de aula. O tema é a religião e sua relação com o mito, sobretudo quando da existência da mitologia cristã. Nos manuais de filosofia, pelo menos os que trabalhei e trabalho, parecem notar a mesma apreensão que sinto. Não comentam detidamente ou detalhadamente o tema em questão ou sequer fazem alguma referência à mitologia cristã. Não sei se por um receio inocente ou por puro medo de seu título não ser aceito pelas escolas. Comentam sobre mitologias indígenas daqui ou de regiões distantes e, claro, a grega, mas sem criar qualquer referência à mitologia cristã.

Tomei consciência desse "lapso inocente" ao citar justamente o que os manuais omitiram e, para minha parcial surpresa, alguns alunos questionaram. Primeiro: não conseguiam compreender que a explicação mitológica não é algo meramente fantasioso, mas sim uma tentativa de explicação da realidade relacionada à afetividade humana. Segundo: a dificuldade em distinguir a explicação científica da explicação religiosa-mítica, por exemplo, a respeito da origem do mundo. Por fim: não conseguiam entender também a necessidade do embasamento bibliográfico quando se comenta a respeito de alguma ideia, sobretudo filosófica, em detrimento das suas apresentadas porque o "pastor assim o disse" ou "está na Bíblia"; aliás, falar "está na Bíblia" é quase como que se Deus baixasse e dissesse diretamente a eles, não compreendendo, portanto, que existem tradutores e intérpretes para as várias passagens bíblicas.



O curioso desses "alunos-questionadores" é que todos eles, sem excessão, são de igrejas protestantes e parecem não aceitar outra interpretação ou ideia ainda que alicerçada em documentos ou concepções de teóricos que tentam explicar algo que para eles já está sacramentado porque o "pastor assim o disse"! Dogmáticos radicais, parecem sentir um medo quando alguém aponta uma outra perspectiva distinta daquela da sua igreja ou então crêem ser um discurso disfarçado da religião católica.

Óbvio que inicialmente achei essa atitude deles bastante salutar, afinal sou um professor de filosofia e meu principal objetivo é tornar o aluno capaz de questionar as coisas, porém, notei algum tempo depois que na realidade não passa de uma ilusão de minha parte, porque eles não querem questionar no sentido de problematizar filosoficamente uma ideia ou um conceito; o que eles pretendem realmente é mostrar que estão convictos de suas escolhas religiosas e que, infelizmente, seguem à risca aquilo que o pastor falou.

Um desses alunos supostamente questionadores chegou até a dizer durante uma aula que a teoria do Big Bang era uma "invenção mentirosa para enganar a humanidade" apesar de minhas incansáveis explicações para ele tentando mostrar que tal teoria não é uma "verdade absoluta", mas que, pelo fato de ser científica, possui comprovações além de seguir um discurso lógico; no dia seguinte me trouxe o "livro da verdade", um folheto da sua igreja contendo a "verdadeira explicação" sobre a origem da humanidade e do universo - mitologia cristã.

Uma outra, após algum comentário que fiz a respeito de santo Agostinho sobre sua explicação do conceito da Santíssima Trindade, que teria sido ele o precursor dessa compreensão, que na Bíblia não existia essa explicação de modo claro e objetivo além de filosófico, na semana seguinte alegou que eu estaria faltando com a verdade - pra não me chamar de mentiroso - quando afirmei ser Agostinho o inaugurador dessa explicação, pois o pastor dela lhe disse que "o professor não leu a Bíblia e não entende que ela é fruto da inspiração divina"! Mais uma vez tentei explicá-la das distinções, mas minhas palavras foram em vão, pois sua postura era de total indiferença ao que explicava enquanto ela distraía-se com uma colega e quando se voltava para mim estava com "pedras nas mãos", questionando em voz alta minha explicação e impondo a sua.

Não pretendo com isso perseguir os alunos ou até culpá-los exclusivamente pela postura dogmática e até intransigente de lidar com perspectivas diferentes das deles. Com certeza eles, adolescentes ou crianças ainda em desenvolvimento, são visível e fortemente influenciados pela família rigorosamente religiosa e por mestres religiosos radicalmente dogmáticos que conseguem exercer uma influência tamanha sobre seus espíritos ainda em construção. Não custa nada lembrar que tais posturas muitas vezes levam ao preconceito, ao desrespeito com o outro ou, ainda pior, à intolerância religiosa. Reconheço minha missão enquanto professor de combater esse tipo de comportamento, mas reconheço e admito também minha incapacidade de combater esse mesmo tipo de comportamento quando ele é fecundo na família e na religião. Acredito que por mais que a escola traga consigo essa honrosa missão da educação, ela não é uma exclusividade sua, mas sobretudo da família e por que não da religião também? Afinal, Deus legou seus ensinamentos de amor e harmonia com o próximo apesar de em muitas vezes não percebermos.

Depois dessas experiências entendi a omissão dos manuais e mais uma vez cheguei à mesma conclusão: ainda vivemos - pelo menos aqui nesta cidade - sobre a influência dominadora da religião apesar do avanço da ciência. Meu consolo é que, pelo menos, não tenho o mesmo destino de Giordano Bruno quando questiono e manifesto minha insatisfação com essa presença ainda tão marcante na sociedade onde vivo.

INDIVÍDUO HUMANO: UM CAÇADOR DE SI

É fato, a "Idade das Trevas", preconceituosamente atribuído ao período histórico no qual a Igreja havia dominado política e ideol...