quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Luta do Bem contra o Mal!?

Atualmente vimos nos meios de comunicação o combate que o Estado brasileiro realizou lá no Rio de Janeiro, juntamente com os governos locais,  aos traficantes que ocupavam os morros ditos mais perigosos da cidade maravilhosa. A imagem que para mim mais chamou a atenção foi justamente aquela do tanque de guerra subindo o morro, atravessando uma barreira criada pelos traficantes, imponente e incólume aos tiros que literalmente arranhavam-no.

A imgem do tanque é perfeita para representar o poder do nosso Estado diante dos traficantes. O que me pergunto é: será que somente agora os poderosos do nosso Estado se deram conta da sua capacidade, da sua força? Por que não o fizeram em tempos anteriores? Por que será que eles acreditaram que somente agora poderiam fazer alguma coisa em conjunto com os governos estadual e municipal?

Os traficantes fugiram. O morro foi tomado. A mídia, como de costume, realiza o seu show com chamadas e mais chamadas demonstrando sua incrível força de influenciar e convencer as pessoas de que ali aconteceu uma coisa "esplendorosa" ao mesmo tempo que "assustadora". Ouvimos ainda os responsáveis pela grandiosa e bem realizada missão bradarem que se tratava de uma "luta do bem contra o mal". Nesse ponto acredito que deveríamos, no mínimo, ter o máximo de cuidado...

Sabemos que a realidade social não é tão simples para ser compreendida. Não existe uma fórmula única e universal que nos faça entender por completo como funciona a estrutura social de qualquer sociedade. Aprendemos ainda que cada sociedade possui suas prerrogativas, suas formas, enfim, sua estrutura própria para se mostrar como tal - e isto sem falar nos contextos históricos que certamente, para não dizer fatalmente, possui uma influência olímpica sobre os cidadãos e consequentemente sobre sua sociedade.

Surge um discurso que resume, que sintetiza tudo como uma luta "simples" entre heróis e vilões. Os heróis, sabemos quem são através de suas fardas; os vilões, pela falta delas. Aliás, não só pela falta das fardas como também de outras coisas, tais como emprego, educação, qualidade de vida... Longe de mim proteger traficante ou bandido, mas uma pergunta me salta de uma forma tão evidente que é impossível não fazê-la: será que as pessoas pedem para se tornarem marginais, traficantes, ladrões e etc?

Sei que talvez possua uma compreensão romântica acerca do indivíduo, porém, prefiro entender através deste viés no qual a sociedade, o meio em que se vive, possui um papel extremamente poderoso na formação do indivíduo. Acredito que um indivíduo não se torna ladrão por uma escolha livre, individual, plenamente sua, mas sim pelas circunstâncias, pelo contexto em que aquele indivíduo está inserido. Mas isso também não quer dizer que todos os indivíduos já nasçam "bonzinhos". Cabe à sociedade moldá-los, enquadrá-los aos ditames e normas que ela prescreve. Para se formar um cidadão é necessário que haja uma interação entre a sociedade e os indivíduos que a compõem, entre aqueles que detêm o poder e os que não têm, podendo ser um poder legalmente legitimado ou não. Não pretendo aqui me esmiuçar tanto sobre esse assunto, pretendo apenas demonstrar a complexidade ao se resumir uma luta que não apresenta personagens tão bem definidos como num filme americano de bang-bang.

Sintetizar que um traficante é o mal e os policiais e soldados são o bem é no mínimo fruto de um pensamento rasteiro, sem muito aprofundamento ou ainda fruto de uma tentativa mal-fadada de relacionar essa luta a algo religioso, santo. Claro que a mídia em geral montou seus holofotes para os nossos "bravos heróis", mas se esqueceu de dar ênfase no tratamento dado aos moradores por parte de alguns oficiais ("bravos heróis") quando entravam nas pequenas casas construídas a muito suor como se entrasse nas "linhas inimigas" ou ainda "na casa do mal".

Claro que não estive lá para observar em loco, mas a própria mídia forneceu esses "pequenos momentos" que poderíamos chamar também de "saldo negativo permitido", já que esses pequenos detalhes não se comparam à grandiosa missão que os nossos "bravos heróis" realizaram na ocupação e consequente expulsão dos traficantes dos morros cariocas.

Definir uma luta desse porte como simplesmente um combate entre o bem e o mal é no mínimo complicado, como afirmei antes, demonstrando ainda uma certa incapacidade do nosso Estado em de fato compreender a realidade que o cerca tentando ainda limitar essa realidade a uma má compreensão carente de subtefúrgios e passível de preconceitos históricos ao povo que mora naquelas paragens.

É bom lembrar que, segundo a literatura antropológica brasileira, a formação das favelas se deu justamente pela ausência ou incapacidade do Estado brasileiro em dar as devidas atenções aos seus indivíduos, no caso, ex-soldados vindos da Guerra de Canudos - aliás, outra incapacidade do nosso Estado de compreender efetivamente a sua própria realidade.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Por que me tornei professor?

É impressionante o grau de desrespeito pelo qual um professor hoje em dia se vê de certa forma obrigado a sofrer. Adolescentes, pequenos indivíduos que se julgam superiores pelo simples fato “natural” de assim o ser, tratam um profissional do conhecimento como mero artefato, mero brinquedo para seus caprichos mesquinhos e sem propósito algum. Não compreendem o poder que tem em suas mãos e deixam-no escorrer por entre os dedos que nem um caramelo derretido pelo calor nas mãos de uma criança que ainda procura conhecer o mundo a sua volta. Às vezes percebe-se claramente que as “liberdades” vem de casa, de pais que não conseguem controlar seus pequenos consumidores insaciáveis e delegam aquilo que perderam aos profissionais do saber crendo substancialmente que eles possuem a fórmula correta e perfeita para “consertar” aquilo que eles, os pais, não conseguiram.

Óbvio que o professor, assim como a escola, dispõe de um papel extremamente fundamental na sociedade, todavia, essa relevância não desobriga os pais de também reconhecerem o seu. Talvez este meu discurso soe um tanto antiquado, voz de um professor que sempre ouve dos demais colegas que antigamente era muito melhor, que havia um respeito maior e que o professor poderia bater no peito e bradar sem medo que era um professor. Hoje em dia isso mudou bastante. Discursos e mais discursos demonstrando que aquele período era, digamos assim, “desvirtuado educativamente”, coexistem com as explosões de direitos e mais direitos individuais que em muitas vezes não vislumbram a simples ideia de que o indivíduo não vive sem o coletivo.

Óbvio também que exageros aconteceram e sempre acontecerão no mundo da escola, mas isso não quer dizer que podemos incorrer em "liberalidades conquistadas" pelo alunado ao longo de sua impúbere história, aliás, será que este aluno de hoje sabe realmente dar valor ou reconhecer o que é história, melhor ainda, a sua própria história?

Às vezes me questiono se isso é uma única obrigação do professor, o de transmitir conhecimento ao aluno, e não uma disposição dele, do aluno, de também demonstrar interesse, pesquisar, sobretudo nos dias de hoje no qual a internet, por exemplo, surge como um instrumento valiosíssimo na construção e no acesso ao conhecimento. Isso sem comentar os livros que as séries iniciais recebem do poder público – claro que com problemas estruturais aqui e acolá, mas nada comparado aos anos iniciais da nossa fragmentada educação na história brasileira – ou materiais e equipamentos mais modernos possíveis que a escola recebe ora através de programas do governo, ora através de aquisição própria.

Instrumentos, material escolar, livros, laboratórios de informática – claro que em alguns casos precariamente, mas reforço minha comparação ao momento histórico anterior – salas para acompanhamentos de alunos com necessidades diferenciadas, enfim, uma série de recursos e ações que tentam auxiliar essa árdua tarefa do professor de “simplesmente” transmitir conhecimento aos nossos alunos, mas, ainda assim, ele não demonstra o interesse devido.

Culpa do professor que não sabe utilizar os recursos para tornar suas aulas mais atraentes? Culpa do professor porque não sabe dominar uma sala com quarenta ou cinquenta alunos no início ou no auge da puberdade? Culpa da escola que não dá a devida atenção estrutural adequada ao professor e por isso ele se sentir isolado, acuado com seus alunos, sem um acompanhamento efetivo da equipe escolar? Culpa do sistema educacional que permite uma relação promíscua entre educação e política, pelo menos aqui no Estado de Sergipe? Ou culpa do governo federal que acha simplesmente que o problema da educação será resolvido com o envio de mais e mais parafernálias eletrônicas ao professor que em muitas vezes sente preguiça ou medo de encostar naquela “coisa que brilha e faz luz” (o datashow)?

Será que Platão não estaria certo ao pôr sobre a entrada de sua Academia “Entre aqui apenas aquele que souber geometria” selecionando e valorizando religiosamente aquilo que os alunos de hoje desprezam tanto? Certo dia, numa aula de história, comentava justamente sobre a quantidade de mortes que ocorreram ao longo da nossa história para que se chegasse à Educação Pública, a educação que os pobres e excluídos pudessem ter acesso e assim, através dela, emanciparem-se, tornarem-se cidadãos livres e capazes de serem os senhores de seus destinos, de seus pensamentos, mas eis que de repente ouço alguém próximo comentar: “o professor tá viajando de novo. Que chatice!” Travei meu pensamento na hora...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Um professor pode usar um jaleco branco?


Essa semana fui acometido por uma imagem no mínimo intrigante: um professor vestido num jaleco branco. Devo admitir que há muito vira uma imagem desse tipo, mas a associava sempre a algo antigo, ultrapassado, que professor ou escola alguma jamais utilizasse mais tal indumentária.

Conversei com alguns colegas de trabalho sobre o acontecido e fui surpreendido por um comentário que me fez questionar meu "pré-conceito". O comentário versava sobre o fato de que, segundo esse colega, todo professor deveria usar essa roupa pois ela impõe respeito diante dos alunos. Achei esse comentário estranho, pois jamais passou pela minha cabeça que um professor dependesse de uma roupa para conseguir respeito entre seus alunos.

Ao refletir sobre o assunto em questão, recordei-me de minhas aulas de sociologia na universidade onde meu estimado professor falava sobre o papel que a indumentária pode exercer sobre as pessoas numa dada sociedade. Citou o exemplo do médico e em seguida do advogado em que ambos, se não usassem as roupas que usam, não iriam surtir o efeito de "diferenciados" dentro da nossa sociedade na nossa época atual e que não obteriam, consequentemente, o respeito almejado por ambas as profissões.

Claro que essa constatação sociológica - se é que podemos chamá-la assim - está carregada de certa razão, pois não apenas os médicos e advogados como também outras profissões atribuem à roupa um papel fundamental que ela deve exercer para se conseguir um reconhecimento do status social. Por isso o padre ou o pastor vestirem-se diferentes das demais pessoas; por isso os artistas famosos ou os juízes também se utilizarem deste mesmo artifício. No entanto me questiono se outras profissões deveriam seguir esse mesmo princípio como é o caso do professor.

Ao aceitarmos conviver em sociedade, pelo menos assim aprendi no meu breve curso de Introdução à Sociologia, somos também obrigados a aceitar determinadas atribuições que o nosso papel social nos coloca. Por isso sermos impelidos em determinadas circunstâncias a agirmos e vestirmo-nos de forma "adequada" para não sofrermos muito com aquilo que o velho Durkheim chama de coerção social. Se bem que, ainda de acordo com o sociólogo, ninguém em sociedade estaria livre de sofrer tal influência já que tal característica é inerente a toda sociedade humana.

Nesse sentido, parece que o uso de determinadas indumentárias ou apetrechos possuíriam lugares e tempos determinados para serem utilizados de forma adequada. Não me sentiria bem, por exemplo, trajando uma sunga de praia em um velório, embora eu pudesse fazê-lo desde que estivesse ciente - ou não! - das consequências que minha atitude causaria não só diretamente a mim como também, de forma indireta, aos meus amigos ou à minha família.

Sempre me questionei a respeito das roupas ditas determinadas para o convívio social em determinados momentos ou lugares. Nunca admiti a ideia de vivermos num país de clima tropical e sermos obrigados a usar calça jeans e uma camisa "fechada" para entrar num prédio público. Questiono-me ainda se tal comportamento não seria fruto de um resquício do nosso "deslumbramento" daquilo que vem de fora do nosso país.

Sem comentar que o uso desse jaleco, assim ouvi ou li em algum lugar, também teria sido um resquício da ditadura militar que infligiu o nosso país nos anos sessenta, numa tentativa, talvez válida, de aumentar a auto-estima do professor naquele período - assim como a utilização, por exemplo, do termo "disciplina" para atribuir às matérias que ensinamos na escola.

O colega que trajava o dito jaleco branco não era tão idoso assim, mas isso não quer dizer que ele seria uma pessoa de espírito envelhecido sobretudo enclausurado numa época que não mais voltará - um saudosista. Talvez queira apenas destacar-se, chamar a atenção para a necessidade de conseguir respeito já que a nossa "opção-condição" social - essa coisa ainda mal explicada que nos leva a sermos professores - infelizmente não nos dá de maneira satisfatória e ampla. Mas ainda insisto em querer acreditar que uma roupa não possui esse poder todo num mundo tão moderno...

sábado, 11 de setembro de 2010

A Palavra do Senhor

 
Apareceu em minha casa um grupo de evangélicos. Todos muito bem vestidos, bem alinhados. Dois deles, um casal, escolheram-me para propagar o que aprenderam sobre a Bíblia em sua religião e os demais se espalharam que nem pardais em busca de comida pela rua onde moro. Muito simpáticos, dão bom dia e me perguntam se podem perguntar – tão educados... Consinto afirmativamente e aguardo a "pérola" lançada. Óbvio que sou no mínimo suspeito para elogiar alguma religião, sobretudo a cristã, já que minha formação acadêmica desvencilhou-me dos grilhões morais desse fenômeno tão inerente à condição humana. Fora graças à filosofia que consegui libertar-me das amarras para mim agora pseudo-morais e que só me levaram a um estádio de plenitude falseada para não dizer fantasiosa. Mas eis que o casal me questiona se já houvera lido a Bíblia. Como sempre, respondi que não por inteira, mas pelo menos o Novo Testamento tive a oportunidade de lê-lo. Em seguida eles me soltam outra "pérola" ainda mais valiosa que a primeira: - O senhor sabe que o mundo está caminhando para o final? Confesso que fui tomado por certa surpresa ao ouvir da boca de um "crente" tal afirmação tão negativista ou apocalíptica. Novamente consenti que sim, e que inclusive não era de agora que o "mundo está caminhando para o seu final". Empolguei-me. Comecei então a explicar que tal sentimento de destruição ou fim do mundo não vem de agora, mas que era algo que desde a Idade Média já existia. Estava parecendo que eu ia dar uma breve aula aos assustados "crentes" quando de repente eles me interrompem e perguntam se eu queria ser salvo. Fiquei atônito. O que responder para essas pessoas? Que forma de salvação ele estava se referindo? Será que estava evidente que meu espírito decadente suplicava por salvação?... – Basta que o senhor freqüente nossa igreja aos sábados e comece a abrir os seus olhos para Jesus... Não agüentei e rebati: - E porque só a igreja de vocês é que poderá me salvar? Notei que fiz uma pergunta desconcertante. O casal se entreolha, talvez perdidos, até que ela diz: - porque a nossa é a melhor! Essa frase ecoou na minha mente durante meses, anos – é tanto que mais ou menos sete anos depois estou escrevendo sobre ela! – e ainda ecoa. "Porque a nossa é a melhor". Como se a igreja deles fosse um remédio que pudesse ser comprado numa farmácia por uma simples indicação do farmacêutico. A afirmação sem dúvida alguma foi muito profunda. Quer dizer que esse tempo todo da história da humanidade, todas as demais religiões, fora a deles obviamente, estão perdidas ou são "piores", tudo "porque a nossa é a melhor"... Dei um riso sarcástico para os dois e o outro ainda emendou: - o senhor pode começar seu caminho para salvação adquirindo nossa revista por apenas dois reais. Não agüentei. Soltei uma gargalhada e eles tentaram me seguir na risada sem saber ao certo o que estavam rindo...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mais um comentário sobre a educação brasileira


 

Recentemente ouvi na tevê um comentário dentre outros no mínimo provocativo de uma filósofa brasileira, Viviane Mosé, num desses raros momentos de lucidez da nossa televisão, no qual coincidentemente só acontece mais vezes na tevê Aperipê, afiliada aqui em Sergipe da rede Brasil (o programa dominical dessa emissora chama-se "Conexão Roberto D'Ávila"), sobre a educação brasileira. Sua idéia, assim me recordo, girava em torno da afirmação de que o nosso modelo educacional estava há muito ultrapassado e que ainda por cima apresentava resquícios da ditadura outrora existente no nosso país. Só para se ter uma idéia, o simples termo "disciplina" quer nos dizer o quê? Pois é. Algo que vem dos quartéis generais daquele momento histórico e que hoje não se aplica, ou pelo menos não se aplicaria, aos saberes que encontramos na nossa escola. Como enquadrar filosofia, sociologia ou, pior ainda, arte num conceito de disciplina? Não ficaria algo no mínimo contraditório já que tais disciplinas tentam justamente criar certo caráter de liberdade completamente avesso a isso que se chama "disciplina"? Mas isso é apenas a ponta do iceberg de acordo com a provocação por ela desenvolvida além de não propor uma reforma, mas sim outra forma de se educar no nosso país! Óbvio que é uma tarefa hercúlea, mas, pelo menos, sou obrigado a concordar com ela diante do que vemos na nossa educação de hoje. Ainda não conseguimos identificar, por exemplo, se o nosso aluno tem que prestar um vestibular, se tem que arranjar um emprego ou "simplesmente" prepará-lo para "ser" humano. A nossa escola vivencia esse conflito de identidade e reflete tal comportamento numa formação incompleta do indivíduo que pretendemos incluir na sociedade. Em vez disso somos obrigados a seguir projetos e programas impostos por governos com problemas de afirmação que demonstram um peculiar despreparo ao lidar com isso que chamamos de educação. Basta que um novo governo assuma o poder executivo e assim percebermos o saco de boas intenções que eles possuem em relação à educação, mas que não querem mudar nada significativamente, talvez propositadamente por acreditarem achar a educação um saco de vespas. Isso sem comentar a realidade dos professores que de algum modo estão já acostumados com tal situação não conseguindo mais exercitar aquela capacidade de se adaptar ou até de criar de fato alguma coisa que porventura proponha mudar radicalmente nosso processo educativo. Na realidade o professor mais parece um cego em tiroteio quando um novo programa de governo é implantado, daí ele perceber que é "melhor" ficar com o que já tem que já é conhecido além de confiável. Lembro-me ainda que a filósofa comentava sobre a perda do encantamento que o nosso aluno encontra na sala de aula ilustrando que o aluno tem uma vida ativa fora da escola: ele brinca, se diverte, se movimenta, enfim, está ativo ampliando suas experiências em relação ao mundo que o rodeia, contudo, ao entrar na escola, mais precisamente na sala de aula, se depara com uma organização (disciplina) na qual é obrigado a seguir, a começar pela simples arrumação das cadeiras enfileiradas em que todos se vêem forçados a se sentarem um atrás do outro prestando atenção ao quadro negro ou a algo que o esforçado professor traga para conseguir prender a atenção do aluno por alguns momentos para que só assim ele possa desenvolver sua capacidade de "raciocínio abstrato" diria até metafísico, ou seja, ele pára de ser ativo para se tornar passivo só que nem todos possuem esse "dom" e daí são logo taxados de irrequietos, super-ativos ou simplesmente alunos que não têm a capacidade de estarem de forma "comportada" em sala de aula. Mas, finalmente, de quem é a culpa? Com certeza o processo cultural brasileiro está envolvido em nossa educação e vem se arrastando ao longo da nossa recente história criando raízes tão profundas na qual o indivíduo que ouse arrancá-las esteja também disposto a deflagrar uma guerra violenta contra esse status quo poderoso.

sábado, 17 de julho de 2010

Simples compreensão sobre gênero


A título de uma explicação mais clara, faz-se necessário de início buscarmos uma definição ou ainda uma espécie de diferenciação acerca do tema deste artigo aqui proposto. É senso comum, por exemplo, acreditar que gênero e sexo são terminologias que gozam de determinada semelhança, não obstante, existem distinções singulares que através de uma observação mais acurada se tornam mais evidentes, sobretudo através de um viés antropológico ou ainda sociológico – nas ciências humanas em geral. Na perspectiva das ciências humanas, tratar de gênero pressupõe uma tentativa de identificar de que maneira se manifestam os aspectos culturais que são de algum modo essencial tanto no sexo masculino quanto no feminino. O que viria a ser propriamente a feminilidade ou a masculinidade naquilo que fisicamente o sexo "mostra" como homem ou mulher, mas que a sociedade influencia de algum modo transformando essa definição física em um conceito sociológico de papel social? Ou seja, será que o sexo é realmente definido por uma condição genética ou uma condição que é dada pela formação social do indivíduo que percebe justamente nessa formação a definição se este mesmo indivíduo será homem ou mulher – isso se partirmos para uma compreensão simplista sem nos envolvermos com as demais variantes contemporâneas que partem da homossexualidade ou da bissexualidade?
De fato, a sociedade atual tem sido cada vez mais maleável ou tolerável no sentido de respeitar as opções de cada indivíduo naquilo que envolve o papel social que o indivíduo está predisposto a escolher. Atualmente as minorias gozam de certo espaço na sociedade para se manifestarem além de, ainda que de modo incipiente, conseguir espaços onde antigamente jamais se pensava estarem, como leis que buscam proteger as mulheres em relação à violência doméstica ou o preconceito que ainda sofrem apesar da criação dessas leis que reconheçam seus direitos. As sociedades ocidentais, de um modo geral, têm permitido que segmentos outrora subsumidos ou reprimidos, ao menos, consigam manifestar algum sinal de insatisfação ou de existência. Se um indivíduo nasce com o sexo masculino, isto é natural, mas se durante sua vida social "escolhe" tornar-se homossexual ou bissexual, isto é cultural, e será neste espaço que a antropologia ou a sociologia tendem a contribuir com os seus estudos. Hoje se pode perceber essa tolerância, repito, ainda que incipiente, àqueles que outrora eram no mínimo estranhos e que não podiam sequer demonstrar sua opção à sociedade daquele momento. Exemplo disso são os movimentos que as minorias vêm construindo com uma participação quase que maciça daqueles que outrora não tinham voz. E a partir dessa compreensão de que as liberdades atualmente vêm sendo um pouco mais respeitadas é que se nota que o gênero não passa de uma construção social, de sentido que a sociedade impõe ao indivíduo e que o indivíduo retorna ou bem ou mal ao seu modo. De acordo com o sentido de gênero, o que torna um indivíduo masculino ou feminino – ou seus desdobramentos – é o tipo de comportamento que esse mesmo indivíduo terá diante dos seus pares, comportamento este notadamente e de algum modo obtido a partir das circunstâncias sociais ou culturais ao qual ele está inserido.
Decerto que nas sociedades ocidentais, sobretudo na América Latina, o papel social dado ao homem obteve um caráter extremamente superior em comparação ao da mulher. O gênero feminino ao longo da história tem sentido o quão de marginalidade, de inferioridade o gênero masculino vem-lhe impondo. Apesar das conquistas localizadas em termos de liberdades, elas ainda sofrem com algum tipo de preconceito social. Contudo, podemos questionar se tal postura é uma exclusividade dos tempos recentes. Se a forma de pensarmos atualmente é influenciada pela cultura helênica e, conseqüentemente, tendo certos reflexos também do cristianismo, por fazermos parte de um mundo que envolve tais prerrogativas que reduziam sobremaneira o papel feminino, então na contemporaneidade conseguimos pelo menos identificar o foco do problema e assim tentarmos partir para as tentativas de solucioná-lo. Claro que ainda há muito por se fazer, sobretudo no que diz respeito às opções que a cultura oferece, entretanto, algumas conquistas aparentemente inócuas serviram e ainda servem como alavanca para conquistas mais contundentes e isso, obviamente, não se aplica exclusivamente ao gênero feminino, aplica-se também aos homossexuais, aos negros, aos índios, etc.

sábado, 19 de junho de 2010

O Clima de Copa do Mundo está no ar!


Reconheço, mais uma vez, que essas minhas palavras são como uma gota, não mais no oceano, mas no universo ainda incomensurável. É uma luta inglória esse discordar daquilo que é comum à esmagadora maioria que se encontra influenciada por alguns e que, sobretudo, não consegue fugir dessa condição. E tal condição se torna mais evidente quando a televisão cobre algum grande evento. Aí é que se mostra o poder de influência que os poderosos grupos exercem sobre essa maioria cega. É o que vemos agora na tevê: "O clima de Copa está no ar"!

Sempre que se aproxima o período de um grande evento esportivo como o da Copa do Mundo de futebol as pessoas são impelidas, sentem-se eufóricas, ficam "vidradas"  em frente a uma tela de tevê na expectativa de assistir aos jogos da seleção brasileira de futebol. Até aí diria que é aceitável já que o povo brasileiro possui quase que uma relação promíscua com a televisão quando assume que ela serve para o lazer. E sempre nesse período surgem alguns paladinos da sabedoria tentando mostrar o quanto fragilizados, induzidos ou manipulados se encontram os telespectadores aos caprichos desse grandioso evento esportivo ou, "pelo menos", dos organizadores do citado evento.

Como havia dito no início, minhas palavras são menores que uma brisa diante de um furacão chamado Copa do Mundo, no entanto, mais uma vez, essa coisa chamada consciência que insisto em alimentar, obriga meu espírito a expor-se, a aliviar-se tal qual uma válvula de escape de fato. Por isso estou aqui mais uma vez exercitando isso que, assim imagino, realizo com o devido prazer. Mas vamos lá. Vocês já ousaram - eu disse ousaram mesmo - sair às ruas durante os jogos da seleção brasileira? Deixar Galvão Bueno narrando suas emoções prontas e burocratizadas além de nada gratuitas em algum jogo da seleção brasileira? Eu consegui tal proeza – no começo foi difícil! Realizei tal façanha na Copa de 94 e fiquei mais do que surpreso... Foi uma experiência única! Foi quase que a mesma sensação de dar o primeiro beijo. Uma alegria, uma sensação de tranqüilidade, de contato imediato com algo divino - e olha que não havia ingerido nenhuma bebida alcoólica ou alguma coisa alucinógena. Senti-me o último ser humano da Terra! A cidade estava completamente parada. Nenhum pé de gente surgia. Pude caminhar tranquilamente por uma avenida que normalmente é bastante movimentada, mas como não estava no "normalmente", como estava no jogo da seleção brasileira, pude gozar desse privilégio. Lembro-me que foi durante esta caminhada que começaram a surgir as indagações, os questionamentos sobre o momento. Foi o despertar da consciência do mesmo modo que Neo ao acordar no casulo-bateria da Matrix. A partir daí me questionei se ficar vidrado na tevê assistindo aos jogos da tão vitoriosa seleção brasileira me faria melhor. Ora, pensei, é apenas um entretenimento como qualquer outro e, assim penso, todos tem o direito de se divertirem. Até aí tudo bem. O problema foi quando o Brasil fez um gol e aquele barulho ensurdecedor de pessoas gritando ao mesmo tempo causou em mim outro espanto. Claro que antes desse dia eu fazia a mesma coisa, só que não me dava conta de que era um barulho tão uníssono e tão integrado. Foi impressionante ouvir os gritos de gol em comunhão, parecia que a humanidade inteira estava falando - tive essa impressão, pois passava por um condomínio de apartamentos. Daí surge de uma janela um cidadão berrando que o "Brasil será campeão", que "vai ganhar tudo" e, agora vem o ponto que pretendo me aprofundar, que "sentia orgulho em ser um brasileiro" tremulando e beijando a bandeira dependurada em sua varanda... Aí sim comecei a sentir-me preocupado. Voltei à realidade. Quer dizer que ser brasileiro é sentir ou assistir a vitória de uma modalidade de esporte numa competição mundial? "Ser patriota é torcer pelo Brasil na Copa do Mundo", como já ouvi de uma campanha publicitária?

Jogo terminado e as coisas lentamente vão retornando ao seu funcionamento rotineiro. Rotineiro? Outro cidadão passa com seu veículo todo pintado nas cores da nossa bandeira; outro estende a bandeira no capô do seu carro e sai em velocidade buzinando e berrando que o "Brasil está na final e que será o campeão"; uma mulher sai com um bebê ainda de colo pulando na calçada e se esquecendo que aquela criança - talvez um sobrinho, um filho, sei lá - não entende nada daquilo e que pode até estar se assustando. Enfim, pessoas se aglomeram nas ruas com aquele zum-zum-zum típico de festa se vangloriando do acontecido "heróico"! Isso mesmo, "heróico"! Pois é, um grupo de jovens atletas, no auge da sua forma física, ganhando rios de dinheiro pra bater uma bola e ainda por cima serem reconhecidos como "heróis"! Falar que são heróis um Antônio Conselheiro ou até mesmo um Zumbi seria um crime hediondo perto desses que taxaram os jogadores de "heróis".  Diriam eles: heróis são esses jogadores porque sofreram muito pra trazerem a taça; heróis são esses jogadores porque jogam não por paixão ou até mesmo por mera diversão, mas porque recebem um salário, uma compensaçãozinha financeira que lhe dá o direito de trocar de carro como se troca de humor - e carro importado, viu!  A televisão, que não tem nada de besta, aproveita cada imagem, cada momento dessa Copa, tudo sempre voltado ao "patriotismo" ou um "apelo patriótico" do povo brasileiro. Alguma coisa na imagem sugere um verde e um amarelo. O telejornal vem com o apresentador direto do país-sede trazendo notícias diretas de lá. Todos querem saber o que acontece com os nossos jogadores e o nosso técnico - que ironia - deixa-os trancafiados quase incomunicáveis... Questão: será que não acontece mais nada no país para ser visto ou mostrado? Não tão importante quanto a Copa. Tem-se que dar privilégio aos assuntos ligados à Copa. Mais da metade da programação dos telejornais tem que estar voltado para ela. Para que se preocupar com um pai que violentou a filha por um bocado de tempo e ainda por cima teve filhos com ela? A Copa está aí! Para que se preocupar com a movimentação de alguns parlamentares - nossos maravilhosos representantes - que querem alterar "só um pouquinho" uma lei tão importante para a nossa simbólica democracia que é a lei do "Ficha Limpa"? A Copa do Mundo está aí! Nesse momento tão importante torna-se um tabu falar de política. Se bem que política não é só aquilo que os parlamentares, por exemplo, fazem.

As pessoas não conseguem diferenciar que a todo instante faz-se política. Basta que haja apenas duas pessoas conversando - aliás, já tratei sobre isso em um dos meus artigos aqui postados. Então, como não ser político mesmo vendo a seleção brasileira de futebol batendo sua bolinha? Acredito que nem nesse momento há escapatória. Ao torcer pelo Brasil, seja com fanatismos ou não, faz-se a demonstração de uma idéia de nacionalidade, de nação brasileira, no nosso caso e isso é um tema político – obviamente que carecendo de certo grau de aprofundamento. Só que a maioria não entende o quão complexo ser efetivamente patriota é, no sentido pleno do termo. Que ser brasileiro é tratar e se envolver com os assuntos políticos ligados ao interesse dessa nação chamada Brasil, e não apenas dos pouco mais de vinte jogadores que foram selecionados. Briga-se "tão bem" porque o técnico convocou fulano e deixou beltrano de fora, mas não se briga quando um político consegue safar de acusações que um homem público não deveria possuir. Entende-se tão bem as regras da Copa do Mundo, do jogo, mas não se dão ao trabalho de entender como são as regras efetivas que sucedem no nosso parlamento!? É isso que é ser brasileiro? Deixar uma minoria resolver esses problemas, aliás, nossos problemas que afetam mais diretamente as nossas vidas que um campeonato esportivo?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Desabafo contra a pequenez humana

Devo admitir que cada vez mais que amplio minha experiência de viver, mais me espanto com o ser humano. Mais me decepciono. Não consigo compreender por completo como ainda existem pessoas que não conseguem se desgarrar de sua infância e agem, talvez involuntariamente, como tais. Não páram para refletir diante de situações que elas próprias não reconhecem como esdrúxulas, como estúpidas, ou, menos pior, como meninices. Pior que isso é saber que tais tipos de pessoas estão envolvidas com o processo de educação, que trabalham numa escola e se auto-intitulam "professoras" quando na realidade não dispõem do menor senso crítico possível pertencente, em tese, a um profissional da educação. "Ganham" seus títulos acadêmicos, suas "lecenciaturas plenas" sem a menor capacidade de entender o papel grandioso que possui diante de si, de sua importância na formação de pequenos seres que as vêem como algum tipo de referência e agem justamente reforçando aquilo que esses pequenos seres deveriam suplantar. Ao invés de levá-los ao progresso efetivo, impõem-lhes obstáculos, atrasam-no, podendo até torná-los pior do que elas próprias que se dizem "capacitadas" para lidar com esses pequenos pobres educandos. São pessoas que não possuem a menor capacidade de enxergar a realidade a sua volta e se julgam tão observadoras quanto uma coruja, mas no fundo não passam de morcegos que ainda por cima possuem um sistema de radar não muito confiável. São pessoas que não conseguem ter um olhar para um novo, para o inevitável, para o amanhã, prendendo-se a mesquinharias, a coisas pequenas, vis, tentando espalhar seu veneno a outros seres. que tentam levar a sério e dignamente sua profissão de educador. Vulgarmente podemos denominá-las de, com todas as letras, invejosas. Incapazes de possuir um espírito nobre, de colocar-se no lugar do outro, de entender criticamente a realidade, tentam destruir aquele que possui esse espírito nobre que ela tanto almeja. Uma pessoa dessa estirpe ainda insiste em proclamar-se "educadora"... E ainda por cima com "ressalvas acadêmicas" por ter-se formado nessas universidades repletas de processos por suas atividades escusas em locais ermos, distantes dos olhos das autoridades competentes. Pessoas que não dependem de si mesmas para estarem em determinados cargos públicos, mas sim de um "padrinho forte", de um político inescrupuloso que conseguiu comprar sua alma tão barata e deixá-la devedora desse "favor", desse "empurrãozinho" na vida. Pior, de novo, é que esse tipo de pessoa empesteia nossa já tão arcaica educação sergipana envolta com essa "áurea de apadrinhamentos". Pessoas que não conseguem estar em suas determinadas posições sociais por mérito próprio, mas sim por mérito alheio. E ainda querem passar a imagem de que são importantes ou pior, de competentes... Coitadas dessas pessoas e de nós, espíritos livres...

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Depois do eurocentrismo, o cariocentrismo...


Confesso que não sou um resoluto assistente de telenovelas muito embora nossa cultura esteja impregnada de tal modo que nos torna praticamente sabedores de algum trecho novelístico do momento. Pelo menos, mesmo que não assista, nomes de novelas e de alguns personagens sorrateiramente penetram em meu cotidiano, em certos momentos em minhas conversas do dia-a-dia me transformando num assistente ainda que superficial. Procuro não me aprofundar propositadamente pois sei dos riscos que essas sereias, filhas de Terpsícore, chamadas novelas exercem sobre o simples telespectador, tal qual Odisseu em sua aventura ao passsar pela ilha delas. Do pouco que vejo, percebo algo que me deixa intrigado nessa emissora tão onipresente no nosso país que é a Globo: por que cargas d'água as tramas, diria que em sua esmagadora maioria, só acontecem no Rio de Janeiro e em alguns pouquíssimos momentos em São Paulo? Um aficcionado por tevê, ou melhor, por telenovelas, certamente irá me corrigir e poderá bradar "Ei! Mas tivemos uma novela ano passado ambientalizada em outro país!". É verdade, mas ainda assim havia um "pezinho" no Rio de Janeiro. Ou seja, sempre existe alguma coisa acontecendo no Rio de Janeiro. Seria então uma política da empresa? Um desejo secreto de todos os dirigentes? Ou porque a onipresente Globo possui sua base lá no Rio de Janeiro e por isso lhe seria mais "cômodo" transmitir a cultura que ela vivencia? Não que eu tenha nada contra os cariocas ou os paulistas, pelo contrário, admiro-os enquanto culturas marcantes e que nos completa enquanto nação brasileira, o que procuro chamar a atenção é que a onipresente Globo não prefere reconhecer essa imensidão que se chama nação brasileira e que por sua vez deveria retratar mais em sua programação porém engole arbitrariamente as demais culturas e povos da nossa nação acreditando que a única que pode representar nosso país é a cultura carioca. - o "cariocentrismo". Por que me interessaria, por exemplo, preocupar-me com o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro se em minha cultura a nossa festa maior é o São João, por exemplo? Por que me preocupar com o campeonato carioca ou o paulista se meu estado também possui um campeonato embora não seja valorizado - isso já é um outro problema que aqui não caberia espaço para comentar. Seria mais proveitoso preocupar-me com meus problemas e não com os dos outros já que vivemos num mundo que está buscando valorizar os micro-universos em comparação aos macros, talvez um efeito dessa coisa contemporânea chamada mundialização - ou globalização para o hemisfério norte. A televisão é uma concessão pública que deveria refletir os desejos do povo ou dos muitos povos que convivem no nosso país, assim dizem os especialistas que tenho lido e escutado, só que mais parece um desejo de um único grupo empresarial que impõe seus desejos, seus caprichos goela abaixo para um povo passivo diante desse deus onipresente. -  seria isso então o tão falado "padrão Globo de qualidade"? Chega a ser um abuso basear sua programação em um único ou dois estados que acreditam ser importantes deixando de lado tantas outras culturas, tantos outros povos, como se todo o restante tivesse a obrigação de seguir ou refletir os mesmos padrões e costumes impostos por uma minoria autoritária que manda e desmanda na programação da tevê brasileira, reconhecendo, obviamente, o poder que a televisão exerce sobre o ser humano. Talvez não seja mais o momento de nos questionarmos se estamos sendo influenciados pelas culturas advindas de fora do país, mas sim por uma única cultura imposta através de um meio de comunicação tentando nos transformar em iguais ainda que simbióticos.

sábado, 17 de abril de 2010

Pensar é um crime!?


Hoje ao comprar o pão, como faço rotireinamente à tarde, pude presenciar um comentário que ao mesmo tempo em que me deixou preocupado, demonstrou ser uma realidade inquestionável. Duas atendentes que trabalhavam no caixa do supermercado conversavam sobre os filmes que mais gostavam. Até aí achei algo extremamente tranqüilo senão raro por essas paragens "enforcadenses". Depois de debaterem a respeito de um filme nacional do momento estar alcançando um questionável sucesso graças a um apelo um tanto religioso, eis que uma delas lança e me fere tal qual uma flecha a seguinte afirmação: "o filme é ruim quando chega no final e a gente é que tem que ser criativo e entender". E a outra, concordando, emendou: "Eu também não gosto desses filmes que fazem a gente pensar...". Respirei fundo... Olhei para os lados segurando para não soltar um palavrão e tentar mostrá-las justamente o contrário. Contive minha índole de filosofante. Saí da loja com um leve mal-estar depois do que ouvira e comecei a refletir – essa estranha mania que me toma desde minha saudosa época de estudante profissional. Confesso que a vontade que me deu foi, além de xingar, pular no pescoço das duas tentando esganá-las dizendo que elas não mereciam estar vivas, aliás, não mereciam nem serem denominadas de humanas por afirmarem tal coisa. Mas, graças à fortuna, contive-me. Depois que passei a exercitar essa coisa que me faz escrever pude desenvolver dentro de mim um espírito verdadeiramente cristão – ainda que momentaneamente – e perdoá-las. Pois é. Depois de toda aquela minha insatisfação, para não dizer raiva, cheguei à conclusão de que as pobres coitadas não tinham culpa de suas verdades tendo em vista que a cultura à qual respiramos impõe justamente esse tipo de pensamento, esse tipo de ideia, e o que é pior, transforma-a numa verdade absoluta. Talvez se eu interferisse na conversa delas poderia até sofrer algum tipo de agressão ou então ser taxado como estúpido. Pensar hoje em dia soa até como um palavrão, um crime horrendo que alguém praticou, e se eu me dispusesse a proteger o pensar, afirmando que o filme que faz a gente pensar, que permite ao simples assistente um exercício de reflexão, é muito positivo, no sentido de ofertar a nós um momento de engrandecimento espiritual, poderia ser taxado no mínimo como "olha o chato que vem comprar pão de novo". Agi bem (eu acho) ao ficar calado e agora expor um pouco minha indignação diante daquela situação. A ideia que me vem à cabeça é de desespero ao constatar que minha realidade está infestada de pessoas com esse mesmo pensamento. De pessoas que, talvez por força das circunstâncias, dão-se ao luxo de acomodarem-se e assumir abertamente que a inteligência ou a razão não as fará felizes. Quem sabe até o errado seja eu e não elas ao seguirem uma tendência tão lugar-comum nos dias de hoje. Eu é que estou errado ao tentar mostrar um caminho que creio ser mais feliz para as pessoas, pois a experiência desse caminho é exclusivamente minha, o que não me dá o direito de impô-lo a outras pessoas. Se elas estão felizes com as suas escolhas, que seja!

sábado, 3 de abril de 2010

Um Pensamento Genuinamente "Americano"

Gostaria de abrir um precedente e fugir um pouco do "convencional" nesse espaço para divulgar um discurso que, à primeira vista, não nos parece provido de certo traquejo filosófico. Não obstante, o senhor Guaicaípuro Cuatemoc nos fala com uma propriedade tão colossal que fica quase impossível não relacioná-lo ao panteão dos pensadores da humanidade. E o que é melhor: um pensamento que reflete sobremaneira os milhões e milhões de latino-americanos calados pela sua auto-piedade para não dizer incapacidade - talvez imposta - em desvencilhar-se dos grilhões ora americanos, ora europeus. Retirei este texto do site www.novae.inf.br. Deleitem-se!



"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a "descobriram" há 500... O irmão europeu da alfândega pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financeiro europeu pede ao meu país o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu explica-me que toda a dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros, sem lhes pedir consentimento.
Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos de 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.
Teria aquilo sido um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!
Teria sido espoliação? Guarda-me, Tanatzin, de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação dos metais preciosos tirados das Américas.
Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas uma indenização por perdas e danos.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "Marshall Montezuma", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.
Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo.
No aspecto financeiro, foram incapazes - depois de uma moratória de 500 anos - tanto de amortizar capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, o que nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente, temos demorado todos estes séculos para cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.
Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, concedendo-lhes 200 anos de bónus. Feitas as contas a partir desta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, concluimos, e disso informamos os nossos descobridores, que nos devem não os 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, mas aqueles valores elevados à potência de 300, número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.
Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?
Admitir que a Europa, em meio milénio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para estes módicos juros, seria admitir o seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.
Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos a assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente na obrigação do pagamento da dívida, sob pena de privatização ou conversão da Europa, de forma tal, que seja possível um processo de entrega de terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

segunda-feira, 29 de março de 2010

As pessoas acham que nunca vão morrer?

Talvez este meu texto soe um tanto esquisito. Talvez você que o lê possa interpretá-lo como algo louco de uma mente extremamente louca ou no mínimo "sem noção". Mas é algo que me toma de um modo tão forte que é quase impossível não comentar. É impressão minha ou as pessoas acham que nunca vão morrer um dia? 
É esta a ideia que pretendo comentar aqui ainda que brevemente. Peço que perdoe os possíveis e inevitáveis erros que porventura insistam em imiscuir-se nesse pequeno texto. Prenda-se tão somente à ideia que nele está presente.
Basta, então, que observemos na mídia a quantidade de informações a respeito de "como manter a saúde", "como prolongar a vida" ou ainda de "como manter-se sempre jovem". Vez por outra surge na grande mídia algum ícone com seu segredo para manter a boa forma e logo tal segredo deixa de sê-lo. A grande maioria das pessoas seguem tal "filosofia" de tal modo que parece estarem seguindo uma religião. Mas tal "filosofia" é rapidamente suplantada por uma outra que também é logo absorvida e futuramente será também suplantada. Se bem que ainda existe aquela camada da população que não segue tal "filosofia" mas ainda carrega dentro de si um peso na consciência por não fazê-lo. Parece uma cobra que tenta morder o próprio rabo - não tem fim nunca! Essas mesmas pessoas parecem acreditar que podem encontrar a fórmula para viver bem, viver "com saúde", sempre em busca de prolongar sua vida. Mas, e a morte? Ela não é algo tão natural quanto a vida? Ela não possui o mesmo esplendor que o nascimento? Ela não transforma - como nos dissera Machado de Assis - de um modo distinto a natureza, o universo ou a própria humanidade? Não quero mais me alongar nesse exercício filosofante, porém, quero deixar uma pergunta no ar: já imaginaram como seria o mundo se ninguém ou nada morresse?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

“Eu devia estar contente...”


O pai e a mãe brincam com sua filhinha na praia à tarde em uma terça-feira. Muitos os chamariam de privilegiados por poderem aproveitar algumas horas com sua filha na praia enquanto outros estão promovendo o "progresso" de suas vidas. Estes, trabalhando dia após dia, lutando para receberem seus salários e assim pagar suas contas "pedindo a Deus" que sobre um pouco mais no final do mês e que dê para pagar um divertimento qualquer que lhes retire daquele clima tenso e estressante do trabalho. Aqueles, o pai, a mãe e sua filhinha, provavelmente devem ter uma vida mais "digna"; o pai deve possuir um emprego "melhor" porque consegue aproveitar, mesmo em período de trabalho, seu tempo – algo tão valioso em tempos atuais – e, com isso, conseguindo também pagar suas contas ao receber o salário sendo que, sem dúvida, deve-lhe sobrar um "pouco mais" para divertir-se com a família. Meu questionamento é: por que, então, que em tempos atuais há aquele que trabalha consumindo todo o seu tempo, praticamente, e aquele que trabalha, mas consegue obter tempo o suficiente para divertir-se, para realizar aquilo que desejar, sem mais tarde sofrer alguma perda, pelo contrário, ganhando até mais? Por que tem que ser deste jeito e não de outro? Em suma: por que uns vivem melhor e outros não? Não falo isto me direcionando exclusivamente ao sistema do qual nos fora imposto, mas sim ao longo da própria história da humanidade. Sempre se soube da existência do explorado e do explorador, daquele entendido como "mais esperto" que domina o outro, daquele que viu na imposição da força o poder controlar os mais fracos, e assim nasceu a civilização. De novo pergunto: por que tem que ser, necessariamente, dessa maneira? Já não vivemos no "melhor dos mundos possíveis"? Já não gozamos do supra-sumo da tecnologia moderna? Por que, enfim, ainda continuamos a explorar o outro?... Admito e compreendo que, no decorrer da história humana, continuamente houve também aqueles que procuraram, sob um certo aspecto, justificar a existência dessas "duas categorias" de seres humanos. Platão, em sua inquestionável obra que trata sobre a república, alegava uma aristocracia, o governo dos mais capacitados, como melhor forma de governar uma cidade, no entanto não procurava desmerecer as demais classes subalternas ou "inferiores" mesmo que estas tivessem tal aparência; ou seja, Platão justificava, a seu modo, o explorador diante do explorado, mas, ao mesmo tempo, concordava que para a cidade alcançar uma harmonia era indubitavelmente forçoso que tal harmonia fosse respeitada por ambas as classes, embora uma fosse "melhor" que a outra, e que assim cada classe procurasse encontrar seu valor não desmerecendo nem uma nem outra. Hegel será outro pensador que também tratará desta relação entre o explorador e o explorado de uma forma mais abrangente ao mesmo tempo que precisa – na relação entre senhor e escravo – na qual legitima, de certa forma, a existência tanto de um quanto do outro, ofertando ainda a compreensão de que um jamais conseguiria viver sem o outro; o senhor necessita da existência do escravo assim como o escravo necessita da existência do senhor; o patrão necessita do empregado assim como o empregado necessita do patrão. Nesse sentido, o escravo – ou o explorado – somente poderia encontrar sua "felicidade", digamos assim, se reconhecesse e identificasse seu desígnio de "escravo". Portanto seria pura perda de tempo alguém questionar: "como posso ser feliz sabendo que alguém está me explorando?" ou ainda "por que sou tão infeliz?". Tanto para Hegel como para Platão os seres humanos já nasceram, sob um certo aspecto, "predestinados" a exercer as categorias que lhes foram dadas pela constituição de suas classes na sociedade. A constatação de alguém ao saber que está sofrendo por causa da exploração do outro somente poderá ofertar-lhe o princípio do sofrimento que constitui a sua vida, cabendo a ele "acomodar-se" com tal desígnio "natural".
Aquele que sofre de uma maneira inconsciente acha-se satisfeito ou até mesmo feliz por gozar a vida, mas não consegue compreender que ele só está gozando a vida porque o explorador, o dono da empresa que ele trabalha de segunda até sábado ou até domingo, permite a ele tempo de folga – de diversão – a fim de que possa recompor suas energias, regressar no próximo dia de trabalho mais animado e assim esperar uma outra oportunidade de, novamente, poder gozar a vida e assim o ciclo continuar a repetir-se. Este, cuja inconsciência de seu sofrimento lhe é peculiar, ainda por cima não aceita – sequer pretende! – tentar conhecer o porquê de seu "natural" desígnio, sequer tenta compreender o porquê de sua realidade constituir-se daquela forma e encontrando em sua ignorância, às vezes muito bem-vinda, às vezes não, a satisfação maior.
Quiçá seja por isso que o número de suicídios é maior entre pessoas que possuem um pouco mais de cultura e, portanto, um poder aquisitivo também diferenciado; já nos casos inversos, o suicídio é praticamente inexistente. Um outro pensador, Shopenhauer, contemporâneo a Hegel, irá concordar que o ser humano sofre porque passa a conhecer a miséria, entenda-se, a realidade na qual está inserido, a saber, a realidade humana. Dor e sofrimento são, portanto, tudo aquilo que o homem pode conhecer. Em alguns casos, uns sofrem menos, em outros...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A verdade não existe!


Quantas são as histórias e lendas que ouvimos sobre a origem do mundo, das coisas e dos homens? Desde explicações folclóricas, mitológicas ou até científicas, o ser humano persegue essa resposta desde tempos imemoriáveis no intento de "simplesmente" descobrir, tal qual uma criança curiosa, de onde veio, qual a sua razão de existir, qual o sentido de se estar aqui. Tais questionamentos suscitam uma busca de si mesmo através de uma inquietude interior e pujante que a todo instante atormenta o ser humano, como já nos dissera o pai da Filosofia ocidental, o senhor Sócrates. Parece-nos um tipo de fantasma que a todo instante nos ronda para lembrar que, por mais poderosos que pareçamos ser, ainda não sabemos algo deveras "simples": de onde viemos? Uma lancinante pergunta que a Filosofia tenta nos relembrar a todo momento muito embora nossa sociedade tecnocrática intente em colocá-la na marginalidade. Talvez o mais conveniente a fazer é entender cada explicação como mais uma explicação respeitando cada especificidade e esfera à qual ela esteja sujeita, todavia, temos que criar um esforço para não nos tornarmos arrogantes detentores da verdade última crente de que aquela explicação que defendemos é a única. Muitas vezes nos deparamos com certos indivíduos que incorrem nesse erro lamentável de se acharem os "donos da verdade" quando nos falam e nos contradizem a respeito, por exemplo, da origem humana sobre a terra. Algumas vezes encontramo-nos com alguma pessoa que possa agredir-nos verbalmente porque não concordamos com ela sobre, por exemplo, o criacionismo, que Deus criara o homem e a mulher a semelhança de si mesmo. Compartilho de uma idéia completamente contrária à dela, no entanto não destrataria alguém pelo simples fato de este alguém discordar de minha opinião. Em resposta poderia, no máximo, indicá-la leituras de outros povos, de outras culturas que também explicam sobre a origem do mundo e dos seres humanos ao seu modo. Poderia explicá-la das semelhanças existentes na criação do mundo dos gregos em relação à judaico-cristã, por exemplo, na qual os gregos dão um sentido ao cosmo de ordenação, uma função que se compromete em estabelecer a ordem, já nas Sagradas Escrituras falam de Deus (talvez o cosmo grego) organizando o mundo quando não havia nada, quando havia o caos, no qual os gregos criam como possibilidade de criação. E isso sem comentar escrituras sagradas de povos antigos que também são bastante semelhantes aos gregos, aos judeus e aos cristãos. Então, se cada povo possui sua explicação específica sobre a criação do universo ou até de si mesmo, como podemos apontar algo ou alguma verdade como sendo absoluta, única e, perdoando a redundância, verdadeira. Tal constatação nos remete ao filósofo francês, Michel Foucault, quando este nos indica que, por mais que tentemos demonstrar a importância ou a veracidade de um determinado conhecimento a nós mesmos, sobretudo aos outros, somos nós mesmos os únicos responsáveis para tornar aquele conhecimento efetivamente válido, importante ou verdadeiro; que se nós não déssemos a esse conhecimento a "sua" importância ele não a possuiria – e isso também nos remete a um sentido que o sujeito do conhecimento é responsável sobre seu objeto de estudo. Tudo que observamos, criamos ou entendemos, ainda segundo o filósofo francês, depende única e exclusivamente de nossa afetação para com diante daquilo que estamos observando. É como o arrebatamento de uma paixão cujo objeto de desejo, a pessoa amada, somente é importante graças ao ser que está apaixonado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ser humano, ser buscante da felicidade

O ser humano é um ser que vive em constante conflito. É personagem de uma guerra que ele próprio sustenta e que, em alguns casos, ele mesmo sabe como pará-la – eis então a grande problemática proposta por Sócrates do "conhece-te a ti mesmo". O ser humano ocidental retém em seu cerne fortíssimas influências judaico-cristãs e por isso é recipiente de uma dualidade de mundos: a sua realidade que lhe impõe os percalços da vida, mas que o coloca na expectativa de outra vida. O ser humano vive na Terra, porém com a expectativa de encontrar o Paraíso (um lugar perfeito). Pelo fato de o ser humano não se identificar com este mundo, ele então põe todas as suas esperanças em outro mundo. Mas, por que então ele não se identifica ou não se vê realizado, satisfeito neste mundo do qual ele faz parte? Eis o princípio da insatisfação, do sentimento de infelicidade dado ao fato de que o homem jamais se pretende completamente satisfeito com qualquer coisa com a qual ele consiga realizar. É justamente graças a este conflito, este sentimento de nunca estar satisfeito, que se notam as principais atribulações na vida de qualquer pessoa transformando-a, com isso, em alguém infeliz não em relação ao mundo do qual faz parte, mas em relação a si mesmo. O ser humano, por ser infeliz consigo mesmo, passa a transformar as coisas que toca em coisas também infelizes, transforma o mundo a sua volta em algo infeliz – talvez por causa disso as muitas vicissitudes que estão aí pelo mundo, já que o ser humano não consegue satisfazer-se com o que tem em mãos. É claro que algum "otimista" irá bradar o oposto ao se deparar com alguém que lhe demonstre tais argumentações, entretanto, embora ele tente comprovar que exista felicidade, mesmo que ligeira, não pode deixar de concordar que essa "felicidade ligeira" não passa na realidade de pura ilusão, de uma desdenhosa miragem que o engana e, pior ainda, que o vicia a buscar desde sempre esse "tipo" de fortuna. Transforma-o em um ser perseguidor da "coisa alegre" que, ao ter provado uma vez e assim gostado, deseja mais e mais se viciando. Em sua perseguição desenfreada pela bendita felicidade, termina esquecendo ou finge esquecer-se das atrocidades que realiza nessa sua busca. Ele quer porque quer a qualquer custo possuí-la e está disposto a pagar qualquer preço – inclusive a sua própria felicidade... Mas, afinal de contas, o que é felicidade mesmo?

INDIVÍDUO HUMANO: UM CAÇADOR DE SI

É fato, a "Idade das Trevas", preconceituosamente atribuído ao período histórico no qual a Igreja havia dominado política e ideol...