Minha desilusão religiosa, como não poderia deixar de ser, foi colossal, mas ela me incentivou de algum modo a buscar mais as argumentações a respeito dessa coisa chamada religião que eu acreditava cegamente entender. Talvez, na realidade, eu já carregava comigo de forma incipiente uma certa descrença, mas sempre procurava deixá-la de lado, escondê-la, ou por medo ou por precaução. Mais tarde, já na metade do curso de filosofia, é que procurei de fato mergulhar nesse tema da crítica religiosa através de dois filósofos emblemáticos na crítica à religião: Feuerbach e Nietzsche, em suas respectivas obras, fundamentais para mim, A Essência do Cristianismo e O Anticristo. Agora sim despertava de meu "sono dogmático"!
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Ludwig Andreas Feuerbach. |
Essa trilha solitária a qual escolhi me levou a cursar filosofia e aí sim descobri o caminho que a religião jamais iria me mostrar. Formei-me professor e percebi o quanto de embebido e consequentemente cego pela religião estava. Os filósofos citados acima e mais alguns retiraram todo o véu que anteriormente encobria minha visão, e realmente, nesse momento, podia enxergar com bastante clareza a realidade da religião e a realidade que ela procurava esconder de mim. Sempre quando me lembro desse momento marcante, recordo-me em seguida da cena crucial do filme Matrix quando Neo desperta do casulo e enxerga a realidade que ele desconhecia.
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Cena do filme Matrix. |
Por isso me sinto angustiado além de revoltado quando me deparo com alguém, com pessoas ligadas ao meu círculo de convivência – não que eu tenha escolhido – que dizem “ser absurdo como alguém pode deixar de acreditar na evidência da criação do mundo por Deus”; ou ainda, “como alguém pode acreditar naquela teoria imbecil de que o homem deriva do macaco”. Isto sem comentar que essa mesma pessoa diz ter encontrado todas “as evidências” num livro obscuro, de, não duplo, mas vários sentidos para não dizer completamente contraditório chamado Bíblia. Será que Darwin estaria brincando só para sacanear com as pessoas?
A ciência recentemente levou a “crença darwiniana” à lugar de verdade científica quando, depois da descoberta da genética, afirmou ter agora sim evidências da semelhança entre um chimpanzé e um ser humano – pelo menos fisicamente. E esse tipo de pessoa acha que é um crime comparar alguém, um ser humano, esse “ser especial”, a um animal, esquecendo-se ela que nós só nos diferenciamos dos animais pela razão – se bem que nem essa argumentação de que a razão é inerente a todo ser humano eu esteja ainda de todo convencido.
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Charles Darwin |
Esse tipo de profissional esquece que escola, em sua base conceitual, é o ambiente onde se proporciona instrução, experiência ou vivência, no caso brasileiro, de cunho científico, e que o doutrinamento - ou catecismo - que ela está sujeitando seus pobres alunos se faz em igrejas, não mais em escolas! Que mostrasse sua opção ideológica, mas mostrasse também o outro lado, aquilo que ela nega, aquilo que seus pobres alunos não sabem, mas que possuem o direito "divino" de também conhecer.