quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A FELICIDADE DE REBANHO

Falar da felicidade não é tão fácil. Sobretudo nos dias de hoje em que as pessoas acreditam estar mais perto dela. É fato que o ser humano contemporâneo dispõe de um leque de possibilidades de satisfação dificilmente antes imaginado por seres humanos de outras épocas. Contudo, esses mesmos seres humanos mais propensos a alcançar a felicidade no mundo hodierno, são também angustiados, insatisfeitos, para encontrá-la efetivamente, justamente por terem acesso a um leque incomensurável de "felicidades". E lembremos ainda que felicidade aqui não é a mesma coisa que satisfação.

Inicialmente, seria interessante partirmos de uma concepção - frise-se bem: uma concepção! - de felicidade ou pelo menos alguns caracteres que possam nos auxiliar a identificar uma ou as várias felicidades falseadas que nos deparamos comumente. Entendo por felicidade como algo que o ser humano faz de si próprio e não naquilo que ele busca fora de si, seja através de bens materiais ou sucesso pessoal. A felicidade, por essa ótica, seria algo muito mais associado ao que o próprio ser humano faz de si mesmo; algo que está dentro de si, e não fora. Reconheço que essa ideia não é de todo inédita. Talvez remonte à dita sabedoria oriental que a muito tempo já se voltara para tais questões - inclusive antes mesmo da civilização grega!

Partindo, então, dessa concepção de felicidade, podemos, ao menos, começar a identificar a preocupação atual em oferecer uma felicidade pronta, empacotada, ou ainda industrializada. Não há como deixar de citar o velho e bom Nietzsche quando mostrava para nós sua ideia de felicidade existente no mundo moderno, a "felicidade de rebanho". Uma felicidade padronizada que se encaixa perfeitamente à nossa concepção de felicidade proposta aqui.

Que "felicidade padronizada" seria essa?

Uma felicidade em que a grande maioria da população imagina, tal como ganhar na loteria, por exemplo, ou simplesmente possuir um carro da moda ou uma casa própria. São ideias comumente difundidas entre as pessoas e que elas acreditam ser felicidades verdadeiras quando na realidade oferecem satisfação de um desejo que pode, inevitavelmente, levá-las a outros desejos de maneira interminável. Na visão nietzschiana, felicidades padronizadas ou industrializadas ou empacotadas ou simplesmente prontas não são felicidades efetivas porque vem de fora, é algo que a sociedade, de alguma forma, obrigou o indivíduo a aceitar.

Como já havia escrito em outro post, vivemos em uma sociedade que está constantemente nos dizendo ou nos obrigando a sermos felizes, de preferência o tempo todo. É a ditadura da felicidade! Na televisão encontramos o espaço perfeito para identificar essa concepção. Programas e mais programas voltados para nos deixar "felizes", "alegres", "divertidos", afinal, essa é a principal preocupação da tevê, o entretenimento, mesmo sem se preocupar com algum tipo de qualidade dessa produção, o objetivo maior é o entretenimento puro e simples. Até nos telejornais encontramos a fórmula: 1) notícias "ruins"; 2) esportes; 3) notícias "boas", fechando o periódico televisivo e nos deixando "alegres" com as notícias finais. Vemos até propaganda de funerária com imagens associadas à felicidade?! Imagine?!


Diante disso, e já concluindo este breve pensamento, não podemos deixar de lançar uma pergunta no mínimo provocativa: o que significa, então, ser feliz? Realizar aquilo que a sabedoria oriental ou o velho Sócrates já nos preconizara: "conhecer-se a si mesmo", e não nos perdermos em buscas cegas que a sociedade a todo instante quer que acreditemos. A fórmula parece bastante simplória, mas não nos iludamos, é eficaz. Basta que tenhamos o hábito de refletir antes de tomar uma decisão e procurar identificar se aquela escolha realmente tem a ver com nossa essência, nosso eu, nossa alma...

domingo, 17 de abril de 2016

A VERDADE, A POLÍTICA E AS IDEIAS PARA CONSUMO

Talvez soe como escapismo ou pura alienação, mas estou cansado de ler, ver e ouvir os "comentários políticos" que de algum modo afetam minha consciência e os meus sentidos no momento. É só isso que vemos, ouvimos e discutimos agora. Alguns sabem lidar com o respeito da diversidade, já outros, chamados também de haters, essas palavras da moda criadas pela internet, mas que traduzem muito bem essa nova qualidade de pessoas, só sabem esbravejar suas verdades e preconceitos como donas absolutas dessas supostas verdades...

Diante disso, dessa realidade em que ninguém parece estar com a verdade ou o seu oposto, prefiro acatar a sugestão de um amigo e colega de profissão em "suspender o juízo" e me acalentar nas asas da ave de Minerva buscando distanciar-me o mais possível para tentar enxergar com a clareza que nos falta em dias assim. Os sofistas que nos digam, em especial Protágoras de Abdera, vivido no século IV a.C., quando nos falara que "o homem é a medida de todas as coisas", e que nos auxiliará nesse post.

Obviamente que não vamos aqui destrinchar detalhada ou ainda filosoficamente as reflexões específicas a que este filósofo propõe. Vamos sim tentar partir uma reflexão a partir dessa sua frase icônica e tentar compreender o quão de "verdade" ela se evidencia na realidade humana, em especial a nossa atual aqui no Brasil.

Lembremos o papel elementar da filosofia, o de refletir, de "olhar diferente" para nossa realidade, de não aceitar as verdades ditas como tal e tentar mostrar a diversidade de perspectivas, diga-se de passagem, o modus operandi do filósofo. Digo isso posto que ainda encontramos alguns indivíduos que insistem em reforçar a ideia - no mínimo preconceituosa, se bem que sou suspeito para afirmar isso - de que a filosofia é um saber inútil ou que não contribui para absolutamente nada em nossas vidas práticas. Prefiro assumir que ela continue assim!

Tais indivíduos que denomino possuir uma "visão de cabresto" - influência de minha cultura nordestina, assumo - acreditam piamente em suas verdades e não conseguem compreender que essas suas verdades são construções, são invenções ideológicas ou discursivas que lhes auxiliam na compreensão de suas realidades. Sendo assim, suas realidades também não passariam de construções humanas o que, em muitos casos, são postas por um grupo dominante.

Immanuel Kant. Fonte: filosofiamevideo.com.br
A autonomia da razão tão apregoada pelo consagrado Kant, filósofo alemão vivido no final do século XVIII e início do século seguinte, pressupõe que o indivíduo pense por conta própria - o sapere aude! - e de algum modo consiga desvencilhar-se dessas amarras ideológicas ou discursivas impostas por outros. O indivíduo deve correr o risco de pensar por conta própria, apreender a realidade e assim criar uma consciência do mundo e de si sem se valer de conjunto de ideias de outrem. Alguém que busca outra dimensão da realidade além das necessidades imediatas. Contudo, não é o que vislumbramos ainda nessa dita sociedade moderna ou contemporânea. Parece-nos que cada vez mais as pessoas estão de algum modo se vendo obrigadas a "pensar por atacado" acreditando que basta se valer de um pensamento-produto em alguma prateleira acreditando estar realizando o melhor "negócio" de suas vidas. Pior ainda: ao comprarem e consumirem esses pensamentos-produtos, defendem-nos com unhas e dentes não aceitando um pensamento-produto distinto do seu, com aquela arrogância pequeno-burguesa em assumir que "o que eu tenho é melhor que o seu" não se questionando da autenticidade ou qualidade de quem os fabricou e o objetivo fundamental deste pensamento-produto revolucionário, e tal peculiaridade é ainda mais evidente e violenta nos haters quando atuam sobretudo no mundo virtual.

Protágoras de Abdera. fonte: www.tautonomia.com.br
Perguntaria Protágoras: "quem está com a verdade?" E ele próprio responderia: "Ninguém, posto que ela não existe". A realidade de cada um diz respeito a cada um, e cada realidade foi criada a partir das concepções, das disposições, dos modos de ser e de viver de cada pessoa. Sendo assim, nobres leitores, como afirmar se Dilma ou Cunha ou Temer estão certos - ou errados - em alguma coisa que eles façam ou deixem de fazer? Como afirmar e convencer os seus respectivos defensores e críticos também de que na realidade estão todos sendo ludibriados por essa aparência de verdade que eles insistem em propagar e assim defender? Esquecem-se todos de exercitar a reflexão, de perguntar, de duvidar, essa arte tão prazerosa difundida pela escola cética e que, de algum modo, faz parte do cerne do fazer filosófico, da experiência filosófica. Aliás, como realizar tal façanha, como valorizar a dúvida, se vivemos em um mundo que busca a todo instante valorizar as aplicações imediatas do conhecimento? Como privilegiar a dúvida se as concepções dos que são contra ou a favor do impeachment da presidente Dilma estão já postas, determinadas, resolvidas, ou ainda, já se efetivaram enquanto verdades absolutas? É um dos desafios mais inglórios e mal-entendidos de que temos conhecimento.

Presidente Dilma Roussef e o presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha. Fonte: veja.abril.com.br
Lembremos ainda que, nessa perspectiva sofística, a política nada mais seria do que um lugar para persuasão e que ninguém ali, quando entra neste meio, estaria efetivamente preocupado em assumir que a verdade não existe e que ela não passaria de pura convenção. O circo iria acabar e os artistas - longe de mim dizer que um artista circense é idêntico a um político! - não fariam mais seu show, não ficariam mais no centro do picadeiro chamando a atenção com seus números e encenações, e fatalmente o público os abandonaria. Aliás, quem é a atração principal nesse grande picadeiro que é a realidade humana?

sábado, 19 de março de 2016

A dupla face da política

Tempos inseguros, incertos. Tempos em que a esperança desfaleceu, foi pra bem longe daqui... Nossa política vai muito mal das pernas, aliás, e quando ela foi bem de verdade?...

A política parece possuir duas faces: uma escondida do povo e a outra pra ser mostrada. Claro que esta última possui uma face bonita, maquiada, às vezes até elegante, charmosa, por vezes alegre, esbanjadora de uma cutis jamais vista... Já a outra face é funesta, assustadora, horripilante... Numa palavra: real. Esta face é a que de fato importa para os fazedores de política. É ela de fato quem mobiliza a sociedade. Não é a face bonita, que aparece na tevê com incontáveis personagens pomposos, positivistas ou até esperançosos. A face mostruosa da política não é pra qualquer um. Maquiavel já alertara.

Um político deve estar preparado para os dois lados da política, mais ainda para o lado obscuro, esse lado bizarro. Na realidade, esse lado dito bizarro e as demais características de teor negativo somente o são para aqueles que não a conhecem. Quem está acostumado não vê dessa forma. Acha tudo absolutamente "normal".

Política está intimimamente relacionada  com poder, ousaria até afirmar que são sinônimos... Alguém poderia então dizer: "mas o poder está também em lugares longe do palco onde efetivamente acontece a política, entre os ditos políticos, os políticos profissionais" - aliás, tal termo já denota algo moralmente questionável! Perfeito. De fato. A política existe onde há alguma relação de poder, onde haja uma interação humana mínima. Agora, a forma como se faz política depende do ambiente, da esfera onde ela queira acontecer, mostrar-se ou não. Num ambiente macro, no palco da governança de qualquer sociedade humana ela terá essa dubiedade, essa dupla face e será manipulável por aqueles que sentem nesses jogos de relação de poder uma satisfação por simplesmente estar ali olhando aquela face putrefata acostumando-se a enxergar outro tipo de beleza.

Mas, e quando acontece de esse lado podre vir à mostra? Torna-se caos. Um verdadeiro inferno, sobretudo para os envolvidos direta e indiretamente.  Ainda há outro detalhe! Achamos que a política de face funesta apresenta-se por inteira? Que nada... Ela é tímida quanto às suas verdades. Mostra muito pouco. E do pouco que mostra já vemos a desgraça que pode gerar. Olha a situação caótica política que estamos vivenciando no país. Isso somente porque vislumbamos uma pequena parcela de sua face putrefata, imagine se víssemos tudo?!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A ciência prova a existência de Deus?

Ao final de uma aula de filosofia, sou acometido por três alunos que concluíram a atividade que houvera passado e que me perguntam ávidos e com o semblante incendiado: "professor, o senhor é ateu mesmo?" O tema da aula em questão fora sobre as teorias filosóficas que abordam o tema da verdade nos filósofos pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides. Introdutoriamente, falara com os alunos que o surgimento dessa nova forma de pensar originada por esses filósofos se deve ao fato de eles deixarem de lado a explicação baseada no mito ou na crença e terem se utilizado única e exclusivamente da razão como instrumento para explicação da realidade - a busca pelo princípio teórico das coisas, a arkhé, em grego. Não sei porque cargas d'água, de repente estávamos falando que a religião está, sob certo aspecto, intrinsecamente envolvida com o mito; diria até que a religião necessita do mito para existir enquanto tal; e comecei a explicitar a mitologia cristã que, embora alguns autores de filosofia possuam um enorme receio em colocar em seus manuais que nossa cultura possui uma relação com essa mitologia, resolvi encarar o desafio de mostrar aos alunos.

Por mais que esboçasse que o mito não poderia ser tratado como algo mentiroso, como uma narrativa simplesmente fantasiosa ou fantástica; por mais que tentasse mostrar a importância que o mito possui ao criar uma identidade para com uma determinada cultura, ainda assim alguns alunos resistiam em aceitar a ideia de que o mito não é uma explicação baseada na razão, mas sim na crença. Percebi que justamente os alunos mais resistentes a essa concepção são justamente os que frequentam igrejas protestantes ou evangélicas quando um deles me atira a seguinte pergunta: "o senhor é católico?" e de imediato, na mesma proporção com que me lançaram a pergunta, respondo que não. Ao término da explanação oral passo uma atividade e, à medida que forem concluindo, estariam liberados para sair, menos esses três que preferiram conversar comigo sobre minha suposta religiosidade.

"Professor, fale sério, o senhor é ateu mesmo?" Na sala de aula, com minha pouca experiência adquirida, resolvi não abordar muito esse tema justamente para evitar possíveis atritos que alguns alunos poderiam suscitar por acreditarem que, pelo fato de eu não possuir religião, pudesse perseguir aquele que se diz muito religioso. E aí, de uns tempos para cá, vinha assumindo uma postura de agnóstico - um "ateu light", e bote aspas nisso! - que acredita em uma força superiora que é indescritível ou incompreensível pela nossa limitada mente. Porém, e reconheço que talvez tenha sido meu erro, resolvo assumir de vez meu ateísmo diante deles: "Sou ateu!". E eis que sou agraciado com uma pérola argumentativa: "Não consigo imaginar como alguém pode viver sem Deus, professor. O senhor possui alguma doença mental?" Se essa aluna não tivesse feito essa pergunta com um leve senso de humor, juro que me sentiria ofendido e aí partiríamos para a seara da justiça. "Não, não, minha linda, simplesmente não consigo acreditar em Deus ou nessa coisa que vocês adoram em suas igrejas..."

"Mas, professor..." um segundo aluno vem ajudar na argumentação da colega e arremata com a segunda pérola argumentativa: "a ciência prova a existência de Deus. Muitos cientistas  já conseguiram isso!" Meu susto é notadamente percebido por outros alunos que observavam na sala aquela situação. "Quem foram esses cientistas? Me diga o nome de pelo menos um deles para que eu possa investigar, porque, até onde eu sei, a ciência não se envolve com assuntos da religião, com o "objeto" da religião, e, mesmo que ela tentasse - como já o fez em outras épocas - ela não poderia oferecer um resultado confiável... A ciência é um conhecimento originado pura e simplesmente da razão humana e não da crença ou da fé. Se assim o fosse deixaria de ser ciência e passaria a ser religião". Eles se calam por um instante até que a terceira que não havia falado ainda lança a terceira perola: "mas, professor, a prova da existência de Deus está nas coisas que ele criou como as plantas, as montanhas, os animais e até mesmo o ser humano..." Pra sacanear respondo: "tem registrado isso que você me falou em cartório, com a assinatura de Deus e firma reconhecida?". Aí vem o outro com outra pérola: "Deus criou todas as coisas boas do mundo, Deus é o bem maior". "Oxente? Mas Deus não teria criado tudo no planeta, aliás, no universo? Como é que ele criou apenas as coisas boas?", "não, professor, Ele criou as coisas boas e Satanás as coisas más". Comecei a rir alto atrapalhando o restante da turma, não pude me conter...

"Vamos lá: então vocês raciocinem comigo por um instante. Deus fez todas as coisas. É o Ser originalmente superior a todos e a tudo, concordam?" Os três se entreolham e balançam a cabeça concordando. "Diria mais: Deus é tão poderoso, mas tão poderoso que teria criado também o próprio Satanás, não é isso?", novamente concordam e um deles reforça meu argumento concluindo que Satanás fora um anjo antes de ser o rei do inferno. "Perfeito. Satanás é uma criação de Deus, concordam?" Concordam com os olhos esbugalhados. "Se Deus criou Satanás, e Satanás é a encarnação do mal em si, então Deus também criou o mal!", pronto, tomaram um susto e começaram a olhar para os lados em busca de uma explicação.
Santo Agostinho Por Simone Martini, atualmente no Museu Fitzwilliam, em Cambridge
"Professor, o senhor tem que conversar com o nosso pastor. Ele vai explicar para o senhor direitinho essas coisas...". Opa! Notei então que minha argumentação surtiu algum efeito. Eles ficam em dúvida. Resolvo ajudá-los: "Se serve de consolo, posso dar a vocês a explicação de um filósofo da Idade Média, chamado santo Agostinho, que solucionou este problema pelo qual vocês estão atravessando agora. Dizia o filósofo africano que o mal em si não existe, portanto, realizando uma elucubração, Satanás não existe. O que existe de fato é um afastamento da criatura em relação ao seu Criador, ou seja, o ser humano se afasta de Deus quando comete atos que são desaprovados por Ele. O pecado não é um mal em si, mas um afastamento do homem para Deus e, quanto mais atos maléficos o ser humano realizar, mais ele se tornará "mau", afastado de Deus. Deus realmente criou tudo e deu ao ser humano o livre-arbítrio, a capacidade de escolher se ele quer se aproximar de Deus ou não - salientando que antes de realizar tal ato, de afastar-se ou de aproximar-se, Deus já está ciente de tudo, por isso sua 'onisciência'".

O rapazinho solta um sorriso meio desconfiado pelo canto da boca e retruca: "viu aí, professor, que o senhor já sabe a resposta? Deus existe sim, ele é a personificação de tudo que é bom". Minha vez de argumentar: "para santo Agostinho, sim, em termos. Deus é o sumo Bem. É a 'essência' de todas as coisas no universo, o Uno, o princípio, mas, lembremos que santo Agostinho não é o único filósofo da tradição. Existiram e ainda existem muitos outros que desacreditam de sua concepção. Se bem que na contemporaneidade, não conheci nenhum filósofo notável que se debruçasse sobre Deus. Até porque acredito que já seja um tema mais que discutido e consequentemente quase suplantado". Uma delas, a mais calada das duas, respira fundo e me diz: "aos sábados pela manhã temos culto às sete e à noite também às sete...". Sorrio pelo canto da boca e eles saem.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A Palavra do Senhor II

Tenho que tratar desse tema novamente. Faz-se mais do que necessário compartilhar essas experiências. Óbvio que são, em um determinado momento hilárias, mas não deixam de suscitar uma reflexão reincidente.

Lá estava em casa de minha mãe quando surge à porta os tão famigerados "queima-panela", apelido "carinhoso" atribuído aos religiosos da Igreja Testemunha de Jeová bastante comum por essas paragens - o velho preconceito religioso que ainda resiste por essa região. Como de costume em minha família, alguém, para se livrar o mais brevemente possível desses "missionários", sugere que eu vá recebê-los. Confesso que inicialmente não gostava muito, mas com o tempo passei a sentir um pouco de satisfação ao fazer isso, pois, o que mais me fascina nesse tipo de experiência, é ver a cara de espanto desses "discípulos de Jesus" quando falo de coisas que para eles soam como tabu.

A forma de abordagem parece ser sempre a mesma: perguntam logo se a pessoa visitada compreende o porquê das desgraças que acometem o mundo na atualidade - como que se o mundo já teve um tempo duradouro de paz e tranquilidade - e em seguida lhe impõe a pergunta se a pessoa visitada lê a Bíblia. Em um outro momento já vão abrindo a Bíblia e mostrando em que parte deste livro se encontra a "passagem reveladora" que irá demonstrar laconicamente a razão de um mundo estar como está. É aí que eu os surpreendo...

Ao me perguntar, o jovem aparentemente de trinta anos, se eu acreditava nas palavras da Bíblia, ele crente de que a resposta seria sim, digo-lhe que não... Pronto. Desarma-se o rapaz e sua face é de um susto ensurdecedor que o faz, inclusive, refazer a pergunta: "...Você não acredita em Deus?" E de novo lhe respondo com um sorriso sarcástico já esboçado no canto da boca: "Não. Eu não acredito na palavra do Senhor..." Por dentro estou às gargalhadas ao ver os olhos saltitantes do jovem catequizador e espero ansiosamente a pergunta que vem logo em seguida: "Mas... Por quê?" Olhando nos olhos dele, respondo que, para mim, a Bíblia é um livro amaldiçoado pois não trouxe paz para a humanidade, pelo contrário, só desavenças. Respondo que a Palavra de Deus em verdade é a palavra de um padre ou de um pastor que diz estar com A Verdade, mas que na realidade nenhum deles a tem, pois, se assim fosse, não existiriam tantas religiões no mundo que se autoproclamam detentoras dessa suposta verdade. Insisto que A Verdade não existe! É uma mera convenção - como nos diriam os sofistas.

"Mas o senhor já leu a Bíblia?" Respondo que sim, e várias vezes. Li quando fora católico, li quando fora evangélico, espírita, e não encontrei essa verdade da qual me falaram. Na realidade vi apenas religiões almejando mais poder, mais dinheiro, mais riqueza. Embora todos falassem muito em bondade, na prática o que vi fora o contrário: padres perseguidores a um determinado grupo da própria igreja, padres preocupados em aumentar a renda da sua igreja, pastores que espalhavam o terror ou o preconceito às religiões que não aceitassem a Bíblia como livro elementar, pastores mais preocupados em aumentar seus domínios de influência do que necessariamente propagar a dita "Palavra de Deus"...

Em desespero, o jovem retruca: "Mas o senhor há de convir que do jeito que este mundo está , nós todos seremos julgados no dia do Apocalipse!". Eu respondo de imediato: "Oxalá!". Pronto, a pobre coitada que o acompanha dá um passo pra trás crente que estou invocando uma entidade demoníaca! "Se o mundo um dia se acabar como vocês estão dizendo, então, creio, teremos um final feliz! E duvido muito que Satanás vá querer uma porrada de gente lá no inferno e que o céu fique vazio..." Quando termino de dizer isso, os dois agora dão um passo para trás... Agora sim eles pensam que eu sou o próprio Satanás porque me veem sorrindo...

Meio assustados, eis que o jovem mancebo pergunta numa última tentativa ainda desesperadora de compreender aquela situação: "Vejo que o senhor gosta de argumentar, o senhor gosta de ler?" Cruzando os braços e segurando mais o riso, respondo: "Sim, pois sou formado em filosofia." Nesse instante parece que todo o medo se esvaiu, pois ambos me fitaram e a pobre coitada, outrora calada, fala: "Ah, tá explicado..." Deixei de ser o Capeta e virei um maluco, agora. Digo: "gosto muito de ler e foi através da leitura que descobri as verdadeiras verdades por trás das religiões, principalmente as ocidentais... Você já leu algum livro de filosofia?" Com um olhar convencido, infla um pouco o peito e responde: "sim, a Bíblia". Respiro fundo e faço outra pergunta: "você sabe o que é fundamentalismo?", e ele responde ajeitando o chapéu: "sim. São aquelas pessoas que não são cristianizadas". Seguro um sorriso e aguardo eles concluírem o assunto...

"Bom, se o senhor quiser nos conhecer melhor, nós temos cultos aos sábados e aos domingos às sete da manhã e às sete da noite. Vamos deixar um folheto com o senhor no qual o senhor verá o poder da Palavra de Deus"... Agradeço suspirando profundamente e o sarcasmo inicial transforma-se em indignação...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O ser humano precisa ser salvo de quê ou de quem?

Hoje senti uma inquietação que jamais havia sentido antes! Uma pergunta veio até meu pensamento que me deixou intrigado, confuso e bem angustiado - mais de uma para a coleção! Vivemos em uma época de crises de valores, de perspectivas, sobretudo política ou ideológica, na qual o ser humano não consegue mais encontrar uma referência sólida, inabalável, que lhe oferte uma segurança necessária para que ele mesmo consiga iniciar a tão laboriosa busca de si mesmo. Nem a religião, a mais antiga das bases referenciais humanas consegue ser tão inabalável. Por isso minha inquietação: será que o ser humano tem "salvação"?

As dúvidas e questionamentos quanto a essa possibilidade de salvação do ser humano tomam meu espírito que não consegue, contudo, sequer criar uma justificativa cabível que me convença da necessidade de se salvar o ser humano de sua atual condição! Certo que este texto pode configurar-se pessimista - que o seja! - mas que não podemos negar essa condição de a humanidade parecer estar sem rumo, isso sim me toma como um fato inegável.

A todo instante somos bombardeados com notícias e mais notícias de corrupção, de desrespeito aos direitos humanos, de violência, de terrorismo, de fundamentalismo, de crises financeiras... Daí me aparece um indivíduo e diz que temos uma solução quanto a esse quadro: "desligue a televisão", ele diz. Piora mais ainda, pois a sensação de alienação ou de não estar nem aí com o mundo em ruínas a nossa volta tende a aumentar um sentimento de estar fazendo a coisa errada também...

Como simplesmente fechar os olhos para nossa realidade, para essa realidade tão obscura e ao mesmo tempo tão cruel? Admito que parece clichê, mas ir para uma igreja e simplesmente orar para que uma entidade metafísica possa solucionar nossos problemas não me parece o mais apropriado. Ir a um cinema e ficar colecionando peças de personagens de filmes acreditando estar vivendo aquela  realidade ficcional com o objetivo simples de consumo também não me parece apropriado. Se fechar no mundinho de partidarismos políticos com visões tacanhas de determinadas ideologias, piorou. Por isso a pergunta: que fazer?

Quando se é jovem parece que o mundo todo está a seus pés. Basta-lhe um punhado de ideiazinhas para lhe dar um chão que o indivíduo se acha pleno. Mas, basta-lhes alguns anos e um certo grau de cultura - de maturidade - para se perceber que esse chão de outrora é movediço. A humanidade, os seres humanos, estou cada vez mais convencido disso, é um caso perdido! O único animal da Terra que tem a capacidade de transformar a natureza e, no entanto, é o que mais a destrói; é o único animal na face da terra que tem a sagacidade de elaborar palavras e daí criar discursos, mas o faz para perseguir, para maltratar ou até destruir argumentativamente seu semelhante acreditando ser o "dono da verdade"; o único animal da face da terra que se acha superior aos demais - inclusive a si mesmo - e por isso se vê no direito "natural" de dominar ou violentar o diferente.

Como, então, diante de uma realidade dessas dizer ou afirmar que a humanidade tem "salvação"? Alguém pode dizer: "mas o ser humano sempre foi assim desde suas origens e o mudo continua aí..." Eis que eu digo: e isso é reposta? Isso é alguma justificativa? Então eu sou de algum modo obrigado a aceitar essa situação e simplesmente "deixar a vida me levar"? Lidar com o ser humano é uma arte! Não que eu esteja desvalorizando a arte, mas faço referência às incontáveis dificuldades que é lidar com pessoas - portanto seres humanos racionais dotados de um polegar - que afirmam que sempre existiu e sempre existirá aquele que vive bem e o que vive mal, ou seja, o explorador e o explorado; que, embora tenham passado por um curso "superior", admitem que a violência entre crianças deva ser incentivada; que a sociedade deva ser comandada por pessoas que desrespeitam os direitos humanos elementares.

Admito que parece um discurso extremamente pessimista, mas o ser humano, em sua condição geral, aliás, como já nos dissera o velho Schopenhauer, está fadado ao sofrimento. Por que então lutar contra isso? Por que então não aceitar tal condição, abraçá-la, senti-la em sua profundidade. Talvez, quem sabe, o ser humano pudesse até entender a efetiva "felicidade".

"Esse é o pior dos mundos possíveis. Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinando o sofrimento como condição humana: VIVER É SOFRER..." (A. Schopenhauer).

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...