sábado, 19 de março de 2016

A dupla face da política

Tempos inseguros, incertos. Tempos em que a esperança desfaleceu, foi pra bem longe daqui... Nossa política vai muito mal das pernas, aliás, e quando ela foi bem de verdade?...

A política parece possuir duas faces: uma escondida do povo e a outra pra ser mostrada. Claro que esta última possui uma face bonita, maquiada, às vezes até elegante, charmosa, por vezes alegre, esbanjadora de uma cutis jamais vista... Já a outra face é funesta, assustadora, horripilante... Numa palavra: real. Esta face é a que de fato importa para os fazedores de política. É ela de fato quem mobiliza a sociedade. Não é a face bonita, que aparece na tevê com incontáveis personagens pomposos, positivistas ou até esperançosos. A face mostruosa da política não é pra qualquer um. Maquiavel já alertara.

Um político deve estar preparado para os dois lados da política, mais ainda para o lado obscuro, esse lado bizarro. Na realidade, esse lado dito bizarro e as demais características de teor negativo somente o são para aqueles que não a conhecem. Quem está acostumado não vê dessa forma. Acha tudo absolutamente "normal".

Política está intimimamente relacionada  com poder, ousaria até afirmar que são sinônimos... Alguém poderia então dizer: "mas o poder está também em lugares longe do palco onde efetivamente acontece a política, entre os ditos políticos, os políticos profissionais" - aliás, tal termo já denota algo moralmente questionável! Perfeito. De fato. A política existe onde há alguma relação de poder, onde haja uma interação humana mínima. Agora, a forma como se faz política depende do ambiente, da esfera onde ela queira acontecer, mostrar-se ou não. Num ambiente macro, no palco da governança de qualquer sociedade humana ela terá essa dubiedade, essa dupla face e será manipulável por aqueles que sentem nesses jogos de relação de poder uma satisfação por simplesmente estar ali olhando aquela face putrefata acostumando-se a enxergar outro tipo de beleza.

Mas, e quando acontece de esse lado podre vir à mostra? Torna-se caos. Um verdadeiro inferno, sobretudo para os envolvidos direta e indiretamente.  Ainda há outro detalhe! Achamos que a política de face funesta apresenta-se por inteira? Que nada... Ela é tímida quanto às suas verdades. Mostra muito pouco. E do pouco que mostra já vemos a desgraça que pode gerar. Olha a situação caótica política que estamos vivenciando no país. Isso somente porque vislumbamos uma pequena parcela de sua face putrefata, imagine se víssemos tudo?!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A ciência prova a existência de Deus?

Ao final de uma aula de filosofia, sou acometido por três alunos que concluíram a atividade que houvera passado e que me perguntam ávidos e com o semblante incendiado: "professor, o senhor é ateu mesmo?" O tema da aula em questão fora sobre as teorias filosóficas que abordam o tema da verdade nos filósofos pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides. Introdutoriamente, falara com os alunos que o surgimento dessa nova forma de pensar originada por esses filósofos se deve ao fato de eles deixarem de lado a explicação baseada no mito ou na crença e terem se utilizado única e exclusivamente da razão como instrumento para explicação da realidade - a busca pelo princípio teórico das coisas, a arkhé, em grego. Não sei porque cargas d'água, de repente estávamos falando que a religião está, sob certo aspecto, intrinsecamente envolvida com o mito; diria até que a religião necessita do mito para existir enquanto tal; e comecei a explicitar a mitologia cristã que, embora alguns autores de filosofia possuam um enorme receio em colocar em seus manuais que nossa cultura possui uma relação com essa mitologia, resolvi encarar o desafio de mostrar aos alunos.

Por mais que esboçasse que o mito não poderia ser tratado como algo mentiroso, como uma narrativa simplesmente fantasiosa ou fantástica; por mais que tentasse mostrar a importância que o mito possui ao criar uma identidade para com uma determinada cultura, ainda assim alguns alunos resistiam em aceitar a ideia de que o mito não é uma explicação baseada na razão, mas sim na crença. Percebi que justamente os alunos mais resistentes a essa concepção são justamente os que frequentam igrejas protestantes ou evangélicas quando um deles me atira a seguinte pergunta: "o senhor é católico?" e de imediato, na mesma proporção com que me lançaram a pergunta, respondo que não. Ao término da explanação oral passo uma atividade e, à medida que forem concluindo, estariam liberados para sair, menos esses três que preferiram conversar comigo sobre minha suposta religiosidade.

"Professor, fale sério, o senhor é ateu mesmo?" Na sala de aula, com minha pouca experiência adquirida, resolvi não abordar muito esse tema justamente para evitar possíveis atritos que alguns alunos poderiam suscitar por acreditarem que, pelo fato de eu não possuir religião, pudesse perseguir aquele que se diz muito religioso. E aí, de uns tempos para cá, vinha assumindo uma postura de agnóstico - um "ateu light", e bote aspas nisso! - que acredita em uma força superiora que é indescritível ou incompreensível pela nossa limitada mente. Porém, e reconheço que talvez tenha sido meu erro, resolvo assumir de vez meu ateísmo diante deles: "Sou ateu!". E eis que sou agraciado com uma pérola argumentativa: "Não consigo imaginar como alguém pode viver sem Deus, professor. O senhor possui alguma doença mental?" Se essa aluna não tivesse feito essa pergunta com um leve senso de humor, juro que me sentiria ofendido e aí partiríamos para a seara da justiça. "Não, não, minha linda, simplesmente não consigo acreditar em Deus ou nessa coisa que vocês adoram em suas igrejas..."

"Mas, professor..." um segundo aluno vem ajudar na argumentação da colega e arremata com a segunda pérola argumentativa: "a ciência prova a existência de Deus. Muitos cientistas  já conseguiram isso!" Meu susto é notadamente percebido por outros alunos que observavam na sala aquela situação. "Quem foram esses cientistas? Me diga o nome de pelo menos um deles para que eu possa investigar, porque, até onde eu sei, a ciência não se envolve com assuntos da religião, com o "objeto" da religião, e, mesmo que ela tentasse - como já o fez em outras épocas - ela não poderia oferecer um resultado confiável... A ciência é um conhecimento originado pura e simplesmente da razão humana e não da crença ou da fé. Se assim o fosse deixaria de ser ciência e passaria a ser religião". Eles se calam por um instante até que a terceira que não havia falado ainda lança a terceira perola: "mas, professor, a prova da existência de Deus está nas coisas que ele criou como as plantas, as montanhas, os animais e até mesmo o ser humano..." Pra sacanear respondo: "tem registrado isso que você me falou em cartório, com a assinatura de Deus e firma reconhecida?". Aí vem o outro com outra pérola: "Deus criou todas as coisas boas do mundo, Deus é o bem maior". "Oxente? Mas Deus não teria criado tudo no planeta, aliás, no universo? Como é que ele criou apenas as coisas boas?", "não, professor, Ele criou as coisas boas e Satanás as coisas más". Comecei a rir alto atrapalhando o restante da turma, não pude me conter...

"Vamos lá: então vocês raciocinem comigo por um instante. Deus fez todas as coisas. É o Ser originalmente superior a todos e a tudo, concordam?" Os três se entreolham e balançam a cabeça concordando. "Diria mais: Deus é tão poderoso, mas tão poderoso que teria criado também o próprio Satanás, não é isso?", novamente concordam e um deles reforça meu argumento concluindo que Satanás fora um anjo antes de ser o rei do inferno. "Perfeito. Satanás é uma criação de Deus, concordam?" Concordam com os olhos esbugalhados. "Se Deus criou Satanás, e Satanás é a encarnação do mal em si, então Deus também criou o mal!", pronto, tomaram um susto e começaram a olhar para os lados em busca de uma explicação.
Santo Agostinho Por Simone Martini, atualmente no Museu Fitzwilliam, em Cambridge
"Professor, o senhor tem que conversar com o nosso pastor. Ele vai explicar para o senhor direitinho essas coisas...". Opa! Notei então que minha argumentação surtiu algum efeito. Eles ficam em dúvida. Resolvo ajudá-los: "Se serve de consolo, posso dar a vocês a explicação de um filósofo da Idade Média, chamado santo Agostinho, que solucionou este problema pelo qual vocês estão atravessando agora. Dizia o filósofo africano que o mal em si não existe, portanto, realizando uma elucubração, Satanás não existe. O que existe de fato é um afastamento da criatura em relação ao seu Criador, ou seja, o ser humano se afasta de Deus quando comete atos que são desaprovados por Ele. O pecado não é um mal em si, mas um afastamento do homem para Deus e, quanto mais atos maléficos o ser humano realizar, mais ele se tornará "mau", afastado de Deus. Deus realmente criou tudo e deu ao ser humano o livre-arbítrio, a capacidade de escolher se ele quer se aproximar de Deus ou não - salientando que antes de realizar tal ato, de afastar-se ou de aproximar-se, Deus já está ciente de tudo, por isso sua 'onisciência'".

O rapazinho solta um sorriso meio desconfiado pelo canto da boca e retruca: "viu aí, professor, que o senhor já sabe a resposta? Deus existe sim, ele é a personificação de tudo que é bom". Minha vez de argumentar: "para santo Agostinho, sim, em termos. Deus é o sumo Bem. É a 'essência' de todas as coisas no universo, o Uno, o princípio, mas, lembremos que santo Agostinho não é o único filósofo da tradição. Existiram e ainda existem muitos outros que desacreditam de sua concepção. Se bem que na contemporaneidade, não conheci nenhum filósofo notável que se debruçasse sobre Deus. Até porque acredito que já seja um tema mais que discutido e consequentemente quase suplantado". Uma delas, a mais calada das duas, respira fundo e me diz: "aos sábados pela manhã temos culto às sete e à noite também às sete...". Sorrio pelo canto da boca e eles saem.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A Palavra do Senhor II

Tenho que tratar desse tema novamente. Faz-se mais do que necessário compartilhar essas experiências. Óbvio que são, em um determinado momento hilárias, mas não deixam de suscitar uma reflexão reincidente.

Lá estava em casa de minha mãe quando surge à porta os tão famigerados "queima-panela", apelido "carinhoso" atribuído aos religiosos da Igreja Testemunha de Jeová bastante comum por essas paragens - o velho preconceito religioso que ainda resiste por essa região. Como de costume em minha família, alguém, para se livrar o mais brevemente possível desses "missionários", sugere que eu vá recebê-los. Confesso que inicialmente não gostava muito, mas com o tempo passei a sentir um pouco de satisfação ao fazer isso, pois, o que mais me fascina nesse tipo de experiência, é ver a cara de espanto desses "discípulos de Jesus" quando falo de coisas que para eles soam como tabu.

A forma de abordagem parece ser sempre a mesma: perguntam logo se a pessoa visitada compreende o porquê das desgraças que acometem o mundo na atualidade - como que se o mundo já teve um tempo duradouro de paz e tranquilidade - e em seguida lhe impõe a pergunta se a pessoa visitada lê a Bíblia. Em um outro momento já vão abrindo a Bíblia e mostrando em que parte deste livro se encontra a "passagem reveladora" que irá demonstrar laconicamente a razão de um mundo estar como está. É aí que eu os surpreendo...

Ao me perguntar, o jovem aparentemente de trinta anos, se eu acreditava nas palavras da Bíblia, ele crente de que a resposta seria sim, digo-lhe que não... Pronto. Desarma-se o rapaz e sua face é de um susto ensurdecedor que o faz, inclusive, refazer a pergunta: "...Você não acredita em Deus?" E de novo lhe respondo com um sorriso sarcástico já esboçado no canto da boca: "Não. Eu não acredito na palavra do Senhor..." Por dentro estou às gargalhadas ao ver os olhos saltitantes do jovem catequizador e espero ansiosamente a pergunta que vem logo em seguida: "Mas... Por quê?" Olhando nos olhos dele, respondo que, para mim, a Bíblia é um livro amaldiçoado pois não trouxe paz para a humanidade, pelo contrário, só desavenças. Respondo que a Palavra de Deus em verdade é a palavra de um padre ou de um pastor que diz estar com A Verdade, mas que na realidade nenhum deles a tem, pois, se assim fosse, não existiriam tantas religiões no mundo que se autoproclamam detentoras dessa suposta verdade. Insisto que A Verdade não existe! É uma mera convenção - como nos diriam os sofistas.

"Mas o senhor já leu a Bíblia?" Respondo que sim, e várias vezes. Li quando fora católico, li quando fora evangélico, espírita, e não encontrei essa verdade da qual me falaram. Na realidade vi apenas religiões almejando mais poder, mais dinheiro, mais riqueza. Embora todos falassem muito em bondade, na prática o que vi fora o contrário: padres perseguidores a um determinado grupo da própria igreja, padres preocupados em aumentar a renda da sua igreja, pastores que espalhavam o terror ou o preconceito às religiões que não aceitassem a Bíblia como livro elementar, pastores mais preocupados em aumentar seus domínios de influência do que necessariamente propagar a dita "Palavra de Deus"...

Em desespero, o jovem retruca: "Mas o senhor há de convir que do jeito que este mundo está , nós todos seremos julgados no dia do Apocalipse!". Eu respondo de imediato: "Oxalá!". Pronto, a pobre coitada que o acompanha dá um passo pra trás crente que estou invocando uma entidade demoníaca! "Se o mundo um dia se acabar como vocês estão dizendo, então, creio, teremos um final feliz! E duvido muito que Satanás vá querer uma porrada de gente lá no inferno e que o céu fique vazio..." Quando termino de dizer isso, os dois agora dão um passo para trás... Agora sim eles pensam que eu sou o próprio Satanás porque me veem sorrindo...

Meio assustados, eis que o jovem mancebo pergunta numa última tentativa ainda desesperadora de compreender aquela situação: "Vejo que o senhor gosta de argumentar, o senhor gosta de ler?" Cruzando os braços e segurando mais o riso, respondo: "Sim, pois sou formado em filosofia." Nesse instante parece que todo o medo se esvaiu, pois ambos me fitaram e a pobre coitada, outrora calada, fala: "Ah, tá explicado..." Deixei de ser o Capeta e virei um maluco, agora. Digo: "gosto muito de ler e foi através da leitura que descobri as verdadeiras verdades por trás das religiões, principalmente as ocidentais... Você já leu algum livro de filosofia?" Com um olhar convencido, infla um pouco o peito e responde: "sim, a Bíblia". Respiro fundo e faço outra pergunta: "você sabe o que é fundamentalismo?", e ele responde ajeitando o chapéu: "sim. São aquelas pessoas que não são cristianizadas". Seguro um sorriso e aguardo eles concluírem o assunto...

"Bom, se o senhor quiser nos conhecer melhor, nós temos cultos aos sábados e aos domingos às sete da manhã e às sete da noite. Vamos deixar um folheto com o senhor no qual o senhor verá o poder da Palavra de Deus"... Agradeço suspirando profundamente e o sarcasmo inicial transforma-se em indignação...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O ser humano precisa ser salvo de quê ou de quem?

Hoje senti uma inquietação que jamais havia sentido antes! Uma pergunta veio até meu pensamento que me deixou intrigado, confuso e bem angustiado - mais de uma para a coleção! Vivemos em uma época de crises de valores, de perspectivas, sobretudo política ou ideológica, na qual o ser humano não consegue mais encontrar uma referência sólida, inabalável, que lhe oferte uma segurança necessária para que ele mesmo consiga iniciar a tão laboriosa busca de si mesmo. Nem a religião, a mais antiga das bases referenciais humanas consegue ser tão inabalável. Por isso minha inquietação: será que o ser humano tem "salvação"?

As dúvidas e questionamentos quanto a essa possibilidade de salvação do ser humano tomam meu espírito que não consegue, contudo, sequer criar uma justificativa cabível que me convença da necessidade de se salvar o ser humano de sua atual condição! Certo que este texto pode configurar-se pessimista - que o seja! - mas que não podemos negar essa condição de a humanidade parecer estar sem rumo, isso sim me toma como um fato inegável.

A todo instante somos bombardeados com notícias e mais notícias de corrupção, de desrespeito aos direitos humanos, de violência, de terrorismo, de fundamentalismo, de crises financeiras... Daí me aparece um indivíduo e diz que temos uma solução quanto a esse quadro: "desligue a televisão", ele diz. Piora mais ainda, pois a sensação de alienação ou de não estar nem aí com o mundo em ruínas a nossa volta tende a aumentar um sentimento de estar fazendo a coisa errada também...

Como simplesmente fechar os olhos para nossa realidade, para essa realidade tão obscura e ao mesmo tempo tão cruel? Admito que parece clichê, mas ir para uma igreja e simplesmente orar para que uma entidade metafísica possa solucionar nossos problemas não me parece o mais apropriado. Ir a um cinema e ficar colecionando peças de personagens de filmes acreditando estar vivendo aquela  realidade ficcional com o objetivo simples de consumo também não me parece apropriado. Se fechar no mundinho de partidarismos políticos com visões tacanhas de determinadas ideologias, piorou. Por isso a pergunta: que fazer?

Quando se é jovem parece que o mundo todo está a seus pés. Basta-lhe um punhado de ideiazinhas para lhe dar um chão que o indivíduo se acha pleno. Mas, basta-lhes alguns anos e um certo grau de cultura - de maturidade - para se perceber que esse chão de outrora é movediço. A humanidade, os seres humanos, estou cada vez mais convencido disso, é um caso perdido! O único animal da Terra que tem a capacidade de transformar a natureza e, no entanto, é o que mais a destrói; é o único animal na face da terra que tem a sagacidade de elaborar palavras e daí criar discursos, mas o faz para perseguir, para maltratar ou até destruir argumentativamente seu semelhante acreditando ser o "dono da verdade"; o único animal da face da terra que se acha superior aos demais - inclusive a si mesmo - e por isso se vê no direito "natural" de dominar ou violentar o diferente.

Como, então, diante de uma realidade dessas dizer ou afirmar que a humanidade tem "salvação"? Alguém pode dizer: "mas o ser humano sempre foi assim desde suas origens e o mudo continua aí..." Eis que eu digo: e isso é reposta? Isso é alguma justificativa? Então eu sou de algum modo obrigado a aceitar essa situação e simplesmente "deixar a vida me levar"? Lidar com o ser humano é uma arte! Não que eu esteja desvalorizando a arte, mas faço referência às incontáveis dificuldades que é lidar com pessoas - portanto seres humanos racionais dotados de um polegar - que afirmam que sempre existiu e sempre existirá aquele que vive bem e o que vive mal, ou seja, o explorador e o explorado; que, embora tenham passado por um curso "superior", admitem que a violência entre crianças deva ser incentivada; que a sociedade deva ser comandada por pessoas que desrespeitam os direitos humanos elementares.

Admito que parece um discurso extremamente pessimista, mas o ser humano, em sua condição geral, aliás, como já nos dissera o velho Schopenhauer, está fadado ao sofrimento. Por que então lutar contra isso? Por que então não aceitar tal condição, abraçá-la, senti-la em sua profundidade. Talvez, quem sabe, o ser humano pudesse até entender a efetiva "felicidade".

"Esse é o pior dos mundos possíveis. Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinando o sofrimento como condição humana: VIVER É SOFRER..." (A. Schopenhauer).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

CRÔNICAS DE UMA BARBEARIA II

Dona Aldegunda, seu Paulo e as leis

Dona Aldegunda era uma funcionária pública exemplar. De família tradicional na pequena cidade de Enforcados, sempre esteve de algum modo envolvida com os grandes acontecimentos da pacata cidadezinha. E foi graças a essa convivência com os personagens mais conhecidos de Enforcados que ela conseguiu seu emprego público e, posteriormente, um cargo de chefia no setor onde trabalha a mais ou menos vinte anos. Casada com Paulo, sessenta e poucos anos, homem simples, funcionário municipal aposentado, a mais de trinta anos aceita a personalidade forte de sua esposa e vive à sombra dela. Não é de briga, calmo, parcimonioso, frequentador contumaz da barbearia de seu Oswaldo, senta-se à cadeira de espera e dá um bom dia timidamente a seu Oswaldo e ao cliente que está por terminar de cortar o cabelo.
- Bom dia, seu Paulo!Tudo bem com o senhor? Responde seu Oswaldo.
O homem sentado à cadeira do barbeiro observa pelo reflexo do espelho seu Paulo balbuciar alguma coisa logo após as palavras de seu Oswaldo e, curioso, pergunta-lhe:
- O senhor disse alguma coisa?
O olhar de seu Paulo se espanta, ele observa com maior profundidade para o homem sentado à cadeira do barbeiro e retruca:
- Não, meu amigo, não, não... Só estava pensando cá com meus botões...
Seu Oswaldo nota o clima um tanto tenso após a chegada de seu Paulo. O homem sentado à cadeira é o Firmino, conhecido na cidade por ser marchante, açougueiro e ter uma banca na feira. Meio rude, embrutecido talvez pela ocupação escolhida, carregava logo abaixo do nariz um bigode de destaque que lhe cobria a boca, mas que estava devidamente aparado. Ficou no ar a impressão de que Firmino conhecia alguma coisa de seu Paulo e com isso guardava também algum rancor. O pacato Paulo sentiu o clima esquisito que se iniciou e, como de costume, prefere se afastar de situações desconfortáveis:
- Oswaldo, passarei aqui mais tarde... Vou resolver um negócio e volto já...
- Vá em paz...
Assim que seu Paulo some da barbearia, Firmino fala:
- Isso lá é um homem que se respeite! Um pobre diabo desse que vive às custas daquela desgraçada que ele tá casado...
Seu Oswaldo, um pouco assustado, retruca:
- Oxente, cabra!? Por quê?
- A peçonhenta da esposa dele! Aquela mulé não vale o que o gato enterra! E ele é cúmplice dela por deixar ela fazer as asneiras que faz...
- Vixe... E o que foi que ela fez de tão má assim pro senhor?
- Aquela fia duma égua aprontou uma comigo da peste... Acabou com um dinheirinho que eu recebia pelo governo pra ajudar apenas os puxa-saco dela que ela chama de amigo. Pra mim botou pra lascar, pros amigo ajudou... Só vivia dizendo "vamos respeitar as leis! Temos que respeitar as leis!", pra cima dos que não era amigo dela... Era uma fia duma égua mermo...
Seu Oswaldo, de praxe, tentou ser o mais cuidadoso possível pois sabia sim da fama de dona Aldegunda e preferiu não perguntar mais nada ao Firmino deixando que ele falasse o que quisesse, como ele se calou, o silêncio imperou no ar até que o velho barbeiro interrompeu dizendo que o corte já havia concluído. Firmino paga-lhe o devido valor e sai da barbearia agradecendo. Bastou seu Oswaldo pegar a vassoura para limpar os restos de cabelo aos pés da velha cadeira que aparece à porta seu Paulo.
- Pronto! Resolvi o problema e já posso fazer minha barba agora...
O semblante de seu Paulo já estava mais relaxado. De fato, seu Oswaldo notara que o clima com os dois na barbearia não tinha sido muito bom e percebeu também que Paulo só havia saído para não estar no mesmo lugar que o Firmino. Assim que se senta na velha cadeira do barbeiro, este lhe pergunta:
- Ê, véio Paulo, diga lá as novidades...
Seu Paulo olha pra ele pelo espelho, mas, como também era costume do velho barbeiro, observa apenas os cabelos passando a mão na barba mediana do velho aposentado que permanece em silêncio enquanto seu Oswaldo vai reclinando a cadeira para a posição de barbear e, assim que termina o procedimento, seu Paulo fala:
- O amigo sabe que eu não sou de briga, né Oswaldo, mas esse homem que saiu daqui agora à pouco não gosta muito de mim por causa do que minha esposa fez pra ele...
Fazendo-se de desentendido, seu Oswaldo retruca:
- Oxente, cabra?! E o que foi que sua mulé fez pra esse pobre de Cristo?
- Você sabe que Aldegunda tem um gênio bem forte... Ela só quis aplicar as leis, fazer o que tá escrito nas normas, mas ele não entende isso...
Seu Oswaldo solta um sorriso irônico pelo canto da boca e decide atiçar um pouco a conversa...
- Mas ele disse que pra os amigos dela a lei não se aplicava. Era verdade mermo?
- Claro que não. Minha esposa é muito correta! Ela segue as leis, as leis que ela segue devem ser respeitadas acima de qualquer coisa!
Seu Oswaldo amplia ainda mais o sorriso irônico do canto da boca e apimenta mais ainda a conversa, talvez com o objetivo de arrancar alguma coisa escondida do velho Paulo...
- Mas o senhor há de concordar comigo, seu Paulo, que existem situações em que as leis não podem ser aplicadas como tão nos papéis, né não?!
- Acho que não... O problema do mundo é justamente esse: se todo mundo seguisse o que tá prescrito nas leis, nas leis de Deus e nas leis dos homens, o mundo não taria desse jeito que tá... Todo mundo só ia fazer o que é certo e ninguém errava nada... O mundo seria melhor se todo mundo seguisse as leis, seu Oswaldo, bem melhor, com certeza...
Seu Oswaldo se cala, mas não se convence deixando o sorriso do canto da boca esmorecer paulatinamente...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os Parlamentares e o povo ou precisamos ler Voltaire!

Nos últimos dias, na mídia em geral, está em discussão o que um parlamentar dissera a sua colega em pleno espaço de trabalho. Não vou citar nomes aqui para não realizar uma suposta defesa - ou não - de parlamentar A ou B. Meu objetivo aqui é apenas tentar mostrar no viés de um filosofante, com certo distanciamento, as ideias ou implicações que o referido acontecimento causou à minha percepção.

Casos são incontáveis pelas câmaras, assembleias e plenários do nosso país desse tipo. Indivíduos, políticos, eleitos pelo povo - frise-se bem isso: eleitos pelo povo - a bradarem opiniões até então jamais vistas pela nossa infante democracia. Discursos que envolvem muitos absurdos, discursos reacionários, ditatoriais, impositivos, preconceituosos, fundamentalistas, religiosos etc...

Diante desse quadro, pode-se concluir também que nunca em nossa história falou-se e divulgou-se tanto aquilo que os nossos representantes políticos dialogam ou discutem em seus respectivos ambientes de trabalho, seja com a ajuda da televisão ou da Internet ou dos impressos em geral.

É inegável que na atualidade praticamente tudo que se é dito e devidamente registrado por algum tipo de mídia no local de trabalho desses nossos parlamentares ganha repercussão às vezes momentânea ou às vezes mais duradoura. Em alguns casos repercutem com alguma consequência e em outros não trazem consequência alguma, a não ser o simples fato da aparição, de chamar a atenção, de ganhar uns breves minutos de fama.

Tem-se a impressão de que a necessidade de estar na mídia é fundamental para as atividades políticas. Mostrar alguma coisa na televisão ou nos impressos ou na Internet tornou-se uma obrigatoriedade de alguns parlamentares que vêem nisso um trampolim para mostrar que são "atuantes". Mas, afinal, o que é ser um político atuante? No meu entender, o político atuante, seja ele do poder legislativo ou executivo, deve ficar restrito inicialmente às suas obrigações elementares, por exemplo, os do poder legislativo, criar leis ou discuti-las visando o bem da nação. É um clichê bradado aos quatro cantos do país que, de alguma forma, legitima a incursão de qualquer indivíduo no meio político. Mas não vem ao caso aqui um suposto aprofundamento.

Contudo, parece que esses parlamentares ávidos por mostrarem suas "atuações" não reconhecem ou não admitem essa regra elementar atribuída a eles. Seus aparecimentos, ainda que momentâneos, seus destaques enfatizados pela mídia em geral, pela grande mídia, são suas opiniões reacionárias, preconceituosas, religiosas... que, na realidade, apesar de tudo, representam uma parcela da população que os elegeu! O político X que é contra o casamento homossexual, por exemplo, é um "avatar" dos indivíduos que depositaram seu voto de confiança nele ou no partido dele - o que é relativamente incipiente em nossa cultura, votar em algum candidato pelo partido. A mídia em geral, a grande mídia, enfatiza a opinião em muitos casos assustadora, que gera repercussão ou comoção.

Democracia é isso. Não pretendo julgá-la detalhadamente, mas, em seu cerne, os vários discursos reacionários, humanistas, religiosos, ateus, escravocratas ou libertadores devem co-existir, inclusive o discurso anti-democrático e seu oposto! Essa "confusão" de ideologias, de opiniões e consequentemente de partidos é o que efetivamente dá corpo a isso que chamamos de "democracia", é seu modus operandi. O problema é que nossa cultura, talvez influenciada profundamente pela grande mídia, não criou ainda o hábito ou pelo menos não nos apontou o indício do que é viver democraticamente. Nós, brasileiros, não criamos ainda uma cultura - ou não conseguimos - de saber respeitar a opinião do outro e daí querermos, inclusive, em alguns casos, responder com algum tipo de violência à pessoa que não concorda com o nosso ponto de vista.

Assusta sim a quantidade de discursos reacionários ou fundamentalistas que vem surgindo entre esses nossos representantes - eleitos por nós! - que bradam aos quatro cantos do país - graças à nossa mídia - suas opiniões extremamente desconcertantes para com uma cultura efetivamente humanitária e democrática. Não sei se isso é um bom sinal, mas que dá a entender que possivelmente podemos estar caminhando para um governo com os mesmos caracteres desses senhores que não reconhecem o valor democrático de suas funções e que ainda por cima encontram certo respaldo em uma parcela da população! Dá medo sim saber que exitem pessoas que acreditam que um governo ditatorial, fundamentalista ou reacionário seja a solução para nossos problemas político-econômicos, por exemplo. Parece que nos esquecemos da máxima do filósofo francês Voltaire quando contribuía para o fortalecimento das bases para o surgimento da democracia afirmando que "posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...