sexta-feira, 28 de julho de 2017

COMO NÃO FALARMOS DE POLÍTICA?

Será que o Brasil está caminhando para uma insurreição civil? Será que o país, dos últimos anos para cá, vem mostrando claros sinais de que algo muito maior e transformador está por vir? Finalmente, será que estamos preparados para entrarmos no "país do futuro", pelo menos quando mostramos a corrupção nua e crua acontecendo nos lugares antes escondidos nos porões da nossa política? É fato: nos encontramos em uma situação, no mínimo, conflituosa. Imagino que o nosso país jamais houvera vivenciado uma situação de tantos corruptores sendo denunciados e mostrados na imprensa como que nesse momento. Mas a crise política faz parte da nossa realidade. Ousaria até afirmar que essa crise faz parte da condição humana. Aliás, me engano, Maquiavel já nos alertara que esse conflito é parte elementar de qualquer relação política. É sobre isso, então, que este post pretende comentar, como de costume, despretensiosamente.

Nicolau Maquiavel, filósofo italiano que vivera entre os anos de 1469 e 1527, desenvolveu suas análises sobre o tema da política em uma Europa em transformação, especialmente na Itália. Enquanto os maiores países europeus buscavam fortalecer sua nação com a formação dos chamados Estados nacionais, a Alemanha e a Itália passavam por conflitos que dificultavam o fortalecimento dessa ideia de país moderno. A Idade Média já estava demonstrando nítidos sinais de cansaço e a modernidade se destacava impondo seu corolário de concepções. Dentre eles, a ruptura dos valores cristãos aos valores científicos, filosóficos e por que não políticos. Maquiavel será, então, o responsável pelo golpe fundamental que enfim irá separar o hibridismo que existia entre política e religião muito comum no contexto anterior.

Naturalmente que a obra maquiaveliana causou impacto aos poucos indivíduos letrados que puderam acessá-la. Esse impacto, inclusive, fez surgir distorções de seu pensamento legando-o ao chamado "mito do maquiavelismo", condenando-o a um imoralismo político. Não que Maquiavel fosse um "santo", mas, imagino, sua principal pretensão ao analisar a realidade política em obras como O Príncipe fora justamente de mostrar uma face que a grande maioria das pessoas não sabia que existia ou que não queria enxergar. Numa palavra, uma face humana, desvinculada das normas gregas ou ainda dos ditames judaico-cristãos. Maquiavel percebera, então, que há uma distinção profunda entre as práticas cotidianas do ser humano com as práticas políticas também humanas, ainda que estas últimas estivessem entrelaçadas a valores dito religiosos.

Maquiavel não será entendido, inclusive, como um pensador qualquer alienado ao seu tempo. Pelo contrário. Ele irá refletir sobre uma perspectiva que até então nenhum outro havia ousado realizar, que é de dissociar a realidade política de normas morais ou moralizantes trazendo à tona esse rosto humano outrora escondido. Cabe ao político, ao governante, ter certas características exclusivas se ele pretender manter-se no poder e, nesse sentido, dependendo da situação, utilizar algum recurso ao mal quando necessário.

A famosa frase "os fins justificam os meios" supostamente atribuída ao autor em questão, denota uma concepção filosófico-política aparentemente assustadora. Contudo, tal concepção não é de todo equivocada. Na realidade da política, onde as relações de poder são muito mais massacrantes e evidentes, não há ninguém de "boas intenções". Ninguém está ali por acaso ou para ser "bonzinho" com todos. Caso isso ocorra, não irá permanecer por muito tempo. É como se colocasse uma ovelha no meio de lobos e, talvez o que é pior, tentar fazer dessa ovelha um lobo. No jogo de poder da política vence aquele que for mais perspicaz, mais sagaz, mais forte no momento oportuno.

Voltando ao nosso contexto, basta que mudemos os personagens históricos envolvidos e aplicarmos a reflexão maquiaveliana à realidade política brasileira - por isso Maquiavel ser um clássico! Nosso atual presidente não assumiu um cargo que lhe caiu nas mãos por acidente; ele não é uma "ovelha". Para que ele consiga se manter fará das tripas coração e se valerá de recursos que todo "bom" político, se quer manter-se no poder, terá que inevitavelmente fazer. Óbvio que nosso contexto é distinto, em partes, do contexto de Maquiavel, por exemplo, em sua época não havia a imprensa, que, apesar dos pesares, possui um papel crucial nos jogos políticos de hoje. Mas existe uma certa estrutura dessa realidade política que se repete, que se mantém. É dessa realidade que Maquiavel e este pretenso filosofante se refere. Maquiavel, para quem pretende conhecer essa estrutura escondida da realidade política, é mais que uma leitura obrigatória. É mais que uma necessidade.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

UMA EXPLICAÇÃO SOBRE FILOSOFIA

É no mínimo curioso como nesse tempo todo eu não tenha falado de um tema que está subentendido em todas as postagens deste pretenso blogue de filosofia: falar da própria filosofia. Tentar mostrar ao menos um caminho que possa nos indicar uma compreensão acerca deste saber muitas vezes mal compreendido assim como marginalizado.

Como se sabe em qualquer aula de introdução à filosofia, ela surgiu na Grécia e, embora alguns estudiosos prefiram crer que sua maternidade estaria com os orientais, prefiro concordar que foram os ocidentais, especificamente os gregos, responsáveis por criar essa forma tão única de compreensão da realidade como da condição humana.

Graças à razão, essa forma completamente inovadora de se enxergar a realidade, de se pensar, que a filosofia conseguiu sua emancipação na forma como a conhecemos. Tales, o primeiro indivíduo a fazer filosofia, a se valer da razão para pensar o mundo, no caso, a busca pelo princípio primordial, o que em grego denominou-se arché, é então considerado um filósofo embora não tivesse cunhado o termo "filósofo", esse amante ou buscante do saber, da sabedoria.

Mas o que efetivamente esse indivíduo realizou de tão inovador? O que é, enfim, essa coisa chamada filosofia?

Tales "simplesmente" pensou diferente. Não quis mais se valer das explicações oriundas do mito. Não que o mito seja sinônimo de mentira ou fábula. O mito não passa de uma explicação simples, sem muito rigor, baseada em crenças ou bastante influenciado por um caráter religioso. Com a razão não é assim. A explicação racional exige apenas o ser humano como referência; dá-lhe uma certa autonomia nas explicações das coisas; e exige um certo rigor lógico ou ainda metodológico.


Decerto que os pré-socráticos não foram exemplos desse dito rigor metodológico, sobretudo na forma como imaginamos hoje, mas o que eles falaram, mesmo que em algumas situações através de poemas ou fragmentos aparentemente sem nexo, havia um sentido ali presente; e se havia um sentido, havia de algum modo um elemento racional. Como na citação de Heráclito de Éfeso “a guerra é mãe e rainha de todas as coisas”. À primeira vista parece ser uma simples frase, solta, que faz algum alusão à defesa da guerra. Contudo, essa "guerra" que ele se refere estaria relacionada ao devir, à ideia de movimento, dos contrários, princípio este que originou o cosmo. Note que em sua frase não há uma menção a algum tipo de explicação mitológica, à crença. Há sim uma tentativa de explicação da realidade alicerçada na capacidade exclusivamente humana. Eis então uma explicação racionalizada. Eis a filosofia ocidental mostrando uma identidade própria, única, exclusiva entre os gregos e que teria chegado até nós.

Nesse sentido, a filosofia, reitero, é uma explicação racionalizada sobre temas ligados ao mundo e ao próprio ser humano. Ela busca a reflexão. Aliás, o sinônimo de filosofia seria justamente reflexão, indagação, questionamento. Algo que é inerente ao pensar racional e que os ocidentais teriam iniciado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A FELICIDADE DE REBANHO

Falar da felicidade não é tão fácil. Sobretudo nos dias de hoje em que as pessoas acreditam estar mais perto dela. É fato que o ser humano contemporâneo dispõe de um leque de possibilidades de satisfação dificilmente antes imaginado por seres humanos de outras épocas. Contudo, esses mesmos seres humanos mais propensos a alcançar a felicidade no mundo hodierno, são também angustiados, insatisfeitos, para encontrá-la efetivamente, justamente por terem acesso a um leque incomensurável de "felicidades". E lembremos ainda que felicidade aqui não é a mesma coisa que satisfação.

Inicialmente, seria interessante partirmos de uma concepção - frise-se bem: uma concepção! - de felicidade ou pelo menos alguns caracteres que possam nos auxiliar a identificar uma ou as várias felicidades falseadas que nos deparamos comumente. Entendo por felicidade como algo que o ser humano faz de si próprio e não naquilo que ele busca fora de si, seja através de bens materiais ou sucesso pessoal. A felicidade, por essa ótica, seria algo muito mais associado ao que o próprio ser humano faz de si mesmo; algo que está dentro de si, e não fora. Reconheço que essa ideia não é de todo inédita. Talvez remonte à dita sabedoria oriental que a muito tempo já se voltara para tais questões - inclusive antes mesmo da civilização grega!

Partindo, então, dessa concepção de felicidade, podemos, ao menos, começar a identificar a preocupação atual em oferecer uma felicidade pronta, empacotada, ou ainda industrializada. Não há como deixar de citar o velho e bom Nietzsche quando mostrava para nós sua ideia de felicidade existente no mundo moderno, a "felicidade de rebanho". Uma felicidade padronizada que se encaixa perfeitamente à nossa concepção de felicidade proposta aqui.

Que "felicidade padronizada" seria essa?

Uma felicidade em que a grande maioria da população imagina, tal como ganhar na loteria, por exemplo, ou simplesmente possuir um carro da moda ou uma casa própria. São ideias comumente difundidas entre as pessoas e que elas acreditam ser felicidades verdadeiras quando na realidade oferecem satisfação de um desejo que pode, inevitavelmente, levá-las a outros desejos de maneira interminável. Na visão nietzschiana, felicidades padronizadas ou industrializadas ou empacotadas ou simplesmente prontas não são felicidades efetivas porque vem de fora, é algo que a sociedade, de alguma forma, obrigou o indivíduo a aceitar.

Como já havia escrito em outro post, vivemos em uma sociedade que está constantemente nos dizendo ou nos obrigando a sermos felizes, de preferência o tempo todo. É a ditadura da felicidade! Na televisão encontramos o espaço perfeito para identificar essa concepção. Programas e mais programas voltados para nos deixar "felizes", "alegres", "divertidos", afinal, essa é a principal preocupação da tevê, o entretenimento, mesmo sem se preocupar com algum tipo de qualidade dessa produção, o objetivo maior é o entretenimento puro e simples. Até nos telejornais encontramos a fórmula: 1) notícias "ruins"; 2) esportes; 3) notícias "boas", fechando o periódico televisivo e nos deixando "alegres" com as notícias finais. Vemos até propaganda de funerária com imagens associadas à felicidade?! Imagine?!


Diante disso, e já concluindo este breve pensamento, não podemos deixar de lançar uma pergunta no mínimo provocativa: o que significa, então, ser feliz? Realizar aquilo que a sabedoria oriental ou o velho Sócrates já nos preconizara: "conhecer-se a si mesmo", e não nos perdermos em buscas cegas que a sociedade a todo instante quer que acreditemos. A fórmula parece bastante simplória, mas não nos iludamos, é eficaz. Basta que tenhamos o hábito de refletir antes de tomar uma decisão e procurar identificar se aquela escolha realmente tem a ver com nossa essência, nosso eu, nossa alma...

domingo, 17 de abril de 2016

A VERDADE, A POLÍTICA E AS IDEIAS PARA CONSUMO

Talvez soe como escapismo ou pura alienação, mas estou cansado de ler, ver e ouvir os "comentários políticos" que de algum modo afetam minha consciência e os meus sentidos no momento. É só isso que vemos, ouvimos e discutimos agora. Alguns sabem lidar com o respeito da diversidade, já outros, chamados também de haters, essas palavras da moda criadas pela internet, mas que traduzem muito bem essa nova qualidade de pessoas, só sabem esbravejar suas verdades e preconceitos como donas absolutas dessas supostas verdades...

Diante disso, dessa realidade em que ninguém parece estar com a verdade ou o seu oposto, prefiro acatar a sugestão de um amigo e colega de profissão em "suspender o juízo" e me acalentar nas asas da ave de Minerva buscando distanciar-me o mais possível para tentar enxergar com a clareza que nos falta em dias assim. Os sofistas que nos digam, em especial Protágoras de Abdera, vivido no século IV a.C., quando nos falara que "o homem é a medida de todas as coisas", e que nos auxiliará nesse post.

Obviamente que não vamos aqui destrinchar detalhada ou ainda filosoficamente as reflexões específicas a que este filósofo propõe. Vamos sim tentar partir uma reflexão a partir dessa sua frase icônica e tentar compreender o quão de "verdade" ela se evidencia na realidade humana, em especial a nossa atual aqui no Brasil.

Lembremos o papel elementar da filosofia, o de refletir, de "olhar diferente" para nossa realidade, de não aceitar as verdades ditas como tal e tentar mostrar a diversidade de perspectivas, diga-se de passagem, o modus operandi do filósofo. Digo isso posto que ainda encontramos alguns indivíduos que insistem em reforçar a ideia - no mínimo preconceituosa, se bem que sou suspeito para afirmar isso - de que a filosofia é um saber inútil ou que não contribui para absolutamente nada em nossas vidas práticas. Prefiro assumir que ela continue assim!

Tais indivíduos que denomino possuir uma "visão de cabresto" - influência de minha cultura nordestina, assumo - acreditam piamente em suas verdades e não conseguem compreender que essas suas verdades são construções, são invenções ideológicas ou discursivas que lhes auxiliam na compreensão de suas realidades. Sendo assim, suas realidades também não passariam de construções humanas o que, em muitos casos, são postas por um grupo dominante.

Immanuel Kant. Fonte: filosofiamevideo.com.br
A autonomia da razão tão apregoada pelo consagrado Kant, filósofo alemão vivido no final do século XVIII e início do século seguinte, pressupõe que o indivíduo pense por conta própria - o sapere aude! - e de algum modo consiga desvencilhar-se dessas amarras ideológicas ou discursivas impostas por outros. O indivíduo deve correr o risco de pensar por conta própria, apreender a realidade e assim criar uma consciência do mundo e de si sem se valer de conjunto de ideias de outrem. Alguém que busca outra dimensão da realidade além das necessidades imediatas. Contudo, não é o que vislumbramos ainda nessa dita sociedade moderna ou contemporânea. Parece-nos que cada vez mais as pessoas estão de algum modo se vendo obrigadas a "pensar por atacado" acreditando que basta se valer de um pensamento-produto em alguma prateleira acreditando estar realizando o melhor "negócio" de suas vidas. Pior ainda: ao comprarem e consumirem esses pensamentos-produtos, defendem-nos com unhas e dentes não aceitando um pensamento-produto distinto do seu, com aquela arrogância pequeno-burguesa em assumir que "o que eu tenho é melhor que o seu" não se questionando da autenticidade ou qualidade de quem os fabricou e o objetivo fundamental deste pensamento-produto revolucionário, e tal peculiaridade é ainda mais evidente e violenta nos haters quando atuam sobretudo no mundo virtual.

Protágoras de Abdera. fonte: www.tautonomia.com.br
Perguntaria Protágoras: "quem está com a verdade?" E ele próprio responderia: "Ninguém, posto que ela não existe". A realidade de cada um diz respeito a cada um, e cada realidade foi criada a partir das concepções, das disposições, dos modos de ser e de viver de cada pessoa. Sendo assim, nobres leitores, como afirmar se Dilma ou Cunha ou Temer estão certos - ou errados - em alguma coisa que eles façam ou deixem de fazer? Como afirmar e convencer os seus respectivos defensores e críticos também de que na realidade estão todos sendo ludibriados por essa aparência de verdade que eles insistem em propagar e assim defender? Esquecem-se todos de exercitar a reflexão, de perguntar, de duvidar, essa arte tão prazerosa difundida pela escola cética e que, de algum modo, faz parte do cerne do fazer filosófico, da experiência filosófica. Aliás, como realizar tal façanha, como valorizar a dúvida, se vivemos em um mundo que busca a todo instante valorizar as aplicações imediatas do conhecimento? Como privilegiar a dúvida se as concepções dos que são contra ou a favor do impeachment da presidente Dilma estão já postas, determinadas, resolvidas, ou ainda, já se efetivaram enquanto verdades absolutas? É um dos desafios mais inglórios e mal-entendidos de que temos conhecimento.

Presidente Dilma Roussef e o presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha. Fonte: veja.abril.com.br
Lembremos ainda que, nessa perspectiva sofística, a política nada mais seria do que um lugar para persuasão e que ninguém ali, quando entra neste meio, estaria efetivamente preocupado em assumir que a verdade não existe e que ela não passaria de pura convenção. O circo iria acabar e os artistas - longe de mim dizer que um artista circense é idêntico a um político! - não fariam mais seu show, não ficariam mais no centro do picadeiro chamando a atenção com seus números e encenações, e fatalmente o público os abandonaria. Aliás, quem é a atração principal nesse grande picadeiro que é a realidade humana?

sábado, 19 de março de 2016

A dupla face da política

Tempos inseguros, incertos. Tempos em que a esperança desfaleceu, foi pra bem longe daqui... Nossa política vai muito mal das pernas, aliás, e quando ela foi bem de verdade?...

A política parece possuir duas faces: uma escondida do povo e a outra pra ser mostrada. Claro que esta última possui uma face bonita, maquiada, às vezes até elegante, charmosa, por vezes alegre, esbanjadora de uma cutis jamais vista... Já a outra face é funesta, assustadora, horripilante... Numa palavra: real. Esta face é a que de fato importa para os fazedores de política. É ela de fato quem mobiliza a sociedade. Não é a face bonita, que aparece na tevê com incontáveis personagens pomposos, positivistas ou até esperançosos. A face mostruosa da política não é pra qualquer um. Maquiavel já alertara.

Um político deve estar preparado para os dois lados da política, mais ainda para o lado obscuro, esse lado bizarro. Na realidade, esse lado dito bizarro e as demais características de teor negativo somente o são para aqueles que não a conhecem. Quem está acostumado não vê dessa forma. Acha tudo absolutamente "normal".

Política está intimimamente relacionada  com poder, ousaria até afirmar que são sinônimos... Alguém poderia então dizer: "mas o poder está também em lugares longe do palco onde efetivamente acontece a política, entre os ditos políticos, os políticos profissionais" - aliás, tal termo já denota algo moralmente questionável! Perfeito. De fato. A política existe onde há alguma relação de poder, onde haja uma interação humana mínima. Agora, a forma como se faz política depende do ambiente, da esfera onde ela queira acontecer, mostrar-se ou não. Num ambiente macro, no palco da governança de qualquer sociedade humana ela terá essa dubiedade, essa dupla face e será manipulável por aqueles que sentem nesses jogos de relação de poder uma satisfação por simplesmente estar ali olhando aquela face putrefata acostumando-se a enxergar outro tipo de beleza.

Mas, e quando acontece de esse lado podre vir à mostra? Torna-se caos. Um verdadeiro inferno, sobretudo para os envolvidos direta e indiretamente.  Ainda há outro detalhe! Achamos que a política de face funesta apresenta-se por inteira? Que nada... Ela é tímida quanto às suas verdades. Mostra muito pouco. E do pouco que mostra já vemos a desgraça que pode gerar. Olha a situação caótica política que estamos vivenciando no país. Isso somente porque vislumbamos uma pequena parcela de sua face putrefata, imagine se víssemos tudo?!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A ciência prova a existência de Deus?

Ao final de uma aula de filosofia, sou acometido por três alunos que concluíram a atividade que houvera passado e que me perguntam ávidos e com o semblante incendiado: "professor, o senhor é ateu mesmo?" O tema da aula em questão fora sobre as teorias filosóficas que abordam o tema da verdade nos filósofos pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides. Introdutoriamente, falara com os alunos que o surgimento dessa nova forma de pensar originada por esses filósofos se deve ao fato de eles deixarem de lado a explicação baseada no mito ou na crença e terem se utilizado única e exclusivamente da razão como instrumento para explicação da realidade - a busca pelo princípio teórico das coisas, a arkhé, em grego. Não sei porque cargas d'água, de repente estávamos falando que a religião está, sob certo aspecto, intrinsecamente envolvida com o mito; diria até que a religião necessita do mito para existir enquanto tal; e comecei a explicitar a mitologia cristã que, embora alguns autores de filosofia possuam um enorme receio em colocar em seus manuais que nossa cultura possui uma relação com essa mitologia, resolvi encarar o desafio de mostrar aos alunos.

Por mais que esboçasse que o mito não poderia ser tratado como algo mentiroso, como uma narrativa simplesmente fantasiosa ou fantástica; por mais que tentasse mostrar a importância que o mito possui ao criar uma identidade para com uma determinada cultura, ainda assim alguns alunos resistiam em aceitar a ideia de que o mito não é uma explicação baseada na razão, mas sim na crença. Percebi que justamente os alunos mais resistentes a essa concepção são justamente os que frequentam igrejas protestantes ou evangélicas quando um deles me atira a seguinte pergunta: "o senhor é católico?" e de imediato, na mesma proporção com que me lançaram a pergunta, respondo que não. Ao término da explanação oral passo uma atividade e, à medida que forem concluindo, estariam liberados para sair, menos esses três que preferiram conversar comigo sobre minha suposta religiosidade.

"Professor, fale sério, o senhor é ateu mesmo?" Na sala de aula, com minha pouca experiência adquirida, resolvi não abordar muito esse tema justamente para evitar possíveis atritos que alguns alunos poderiam suscitar por acreditarem que, pelo fato de eu não possuir religião, pudesse perseguir aquele que se diz muito religioso. E aí, de uns tempos para cá, vinha assumindo uma postura de agnóstico - um "ateu light", e bote aspas nisso! - que acredita em uma força superiora que é indescritível ou incompreensível pela nossa limitada mente. Porém, e reconheço que talvez tenha sido meu erro, resolvo assumir de vez meu ateísmo diante deles: "Sou ateu!". E eis que sou agraciado com uma pérola argumentativa: "Não consigo imaginar como alguém pode viver sem Deus, professor. O senhor possui alguma doença mental?" Se essa aluna não tivesse feito essa pergunta com um leve senso de humor, juro que me sentiria ofendido e aí partiríamos para a seara da justiça. "Não, não, minha linda, simplesmente não consigo acreditar em Deus ou nessa coisa que vocês adoram em suas igrejas..."

"Mas, professor..." um segundo aluno vem ajudar na argumentação da colega e arremata com a segunda pérola argumentativa: "a ciência prova a existência de Deus. Muitos cientistas  já conseguiram isso!" Meu susto é notadamente percebido por outros alunos que observavam na sala aquela situação. "Quem foram esses cientistas? Me diga o nome de pelo menos um deles para que eu possa investigar, porque, até onde eu sei, a ciência não se envolve com assuntos da religião, com o "objeto" da religião, e, mesmo que ela tentasse - como já o fez em outras épocas - ela não poderia oferecer um resultado confiável... A ciência é um conhecimento originado pura e simplesmente da razão humana e não da crença ou da fé. Se assim o fosse deixaria de ser ciência e passaria a ser religião". Eles se calam por um instante até que a terceira que não havia falado ainda lança a terceira perola: "mas, professor, a prova da existência de Deus está nas coisas que ele criou como as plantas, as montanhas, os animais e até mesmo o ser humano..." Pra sacanear respondo: "tem registrado isso que você me falou em cartório, com a assinatura de Deus e firma reconhecida?". Aí vem o outro com outra pérola: "Deus criou todas as coisas boas do mundo, Deus é o bem maior". "Oxente? Mas Deus não teria criado tudo no planeta, aliás, no universo? Como é que ele criou apenas as coisas boas?", "não, professor, Ele criou as coisas boas e Satanás as coisas más". Comecei a rir alto atrapalhando o restante da turma, não pude me conter...

"Vamos lá: então vocês raciocinem comigo por um instante. Deus fez todas as coisas. É o Ser originalmente superior a todos e a tudo, concordam?" Os três se entreolham e balançam a cabeça concordando. "Diria mais: Deus é tão poderoso, mas tão poderoso que teria criado também o próprio Satanás, não é isso?", novamente concordam e um deles reforça meu argumento concluindo que Satanás fora um anjo antes de ser o rei do inferno. "Perfeito. Satanás é uma criação de Deus, concordam?" Concordam com os olhos esbugalhados. "Se Deus criou Satanás, e Satanás é a encarnação do mal em si, então Deus também criou o mal!", pronto, tomaram um susto e começaram a olhar para os lados em busca de uma explicação.
Santo Agostinho Por Simone Martini, atualmente no Museu Fitzwilliam, em Cambridge
"Professor, o senhor tem que conversar com o nosso pastor. Ele vai explicar para o senhor direitinho essas coisas...". Opa! Notei então que minha argumentação surtiu algum efeito. Eles ficam em dúvida. Resolvo ajudá-los: "Se serve de consolo, posso dar a vocês a explicação de um filósofo da Idade Média, chamado santo Agostinho, que solucionou este problema pelo qual vocês estão atravessando agora. Dizia o filósofo africano que o mal em si não existe, portanto, realizando uma elucubração, Satanás não existe. O que existe de fato é um afastamento da criatura em relação ao seu Criador, ou seja, o ser humano se afasta de Deus quando comete atos que são desaprovados por Ele. O pecado não é um mal em si, mas um afastamento do homem para Deus e, quanto mais atos maléficos o ser humano realizar, mais ele se tornará "mau", afastado de Deus. Deus realmente criou tudo e deu ao ser humano o livre-arbítrio, a capacidade de escolher se ele quer se aproximar de Deus ou não - salientando que antes de realizar tal ato, de afastar-se ou de aproximar-se, Deus já está ciente de tudo, por isso sua 'onisciência'".

O rapazinho solta um sorriso meio desconfiado pelo canto da boca e retruca: "viu aí, professor, que o senhor já sabe a resposta? Deus existe sim, ele é a personificação de tudo que é bom". Minha vez de argumentar: "para santo Agostinho, sim, em termos. Deus é o sumo Bem. É a 'essência' de todas as coisas no universo, o Uno, o princípio, mas, lembremos que santo Agostinho não é o único filósofo da tradição. Existiram e ainda existem muitos outros que desacreditam de sua concepção. Se bem que na contemporaneidade, não conheci nenhum filósofo notável que se debruçasse sobre Deus. Até porque acredito que já seja um tema mais que discutido e consequentemente quase suplantado". Uma delas, a mais calada das duas, respira fundo e me diz: "aos sábados pela manhã temos culto às sete e à noite também às sete...". Sorrio pelo canto da boca e eles saem.

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...