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Por que adquirir um produto "pirata"?

Embora alguns intelectuais e teóricos de hoje negarem ou até condenarem as críticas ao capitalismo inauguradas principalmente pelo velho Marx quando da sua obra máxima O Capital, alegando uma defasagem no mínimo suspeita, acredito que existam certos aspectos que seriam praticamente inevitáveis não relacioná-los à filosofia marxista, sobretudo sua crítica, ao que, no dizer atualizado dos frankfurtianos, podemos denominar de um “capitalismo tardio”.

Não posso deixar de assumir que os ideais de comunismo proposto por Marx de fato não conseguiram germinar de uma forma tão plena ou então saudável nos moldes do seu pensamento, aliás, como muitos teóricos até concordariam, no entanto, reconhecendo essa “derrota prática” do comunismo marxista, ao menos sua crítica parece de fato ter bastante fundamento e ainda hoje nos servir como alicerce para identificarmos e originarmos uma compreensão mais coerente acerca do problema em questão.

É certo que, para Marx, numa interpretação completamente despretensiosa, na qualidade de filosofante, o próprio capitalismo traria dentro de si elementos que posteriormente o derrocaria. É o princípio dialético inaugurado pelo mestre de Marx, o filósofo também alemão, Hegel, segundo o qual a contradição seria a mola mestra, a engrenagem maior e responsável por mover toda a máquina chamada “modo de produção capitalista”.

Essa contradição estaria, por exemplo, sendo retratada nas relações de trabalho em que o patrão depende do empregado, o explorador do explorado e vice-versa, criando uma relação fundamental entre os opostos, oposição esta típica do capitalismo.

Numa visão mais ampla, ainda seguindo o viés marxista, o próprio capitalismo, à medida que dá sinais de avanço, de progresso, no bojo desse mesmo movimento estaria seu inverso, o atraso, o retrocesso. No capitalismo, existe essa ilusão de que o progresso é necessário, que é importante, ficando subjacente os elementos que irão consumir esse mesmo progresso, esse mesmo avanço. É como se dentro do próprio capitalismo já germinasse um novo modo de produção que o suprimiria. É o que percebemos hoje, por exemplo, no conflito existente entre os grandes donos de empresas contra o comércio dito “pirata”, principalmente nos produtos que estão relacionados à área de informática e que dependem, portanto, da utilização de algum computador.

Acredito que as facilidades ocasionadas pelo advento do computador foram até certo momento esperadas pelos grandes fabricantes desse instrumento com bastante entusiasmo, não obstante, talvez eles não tenham previsto aquilo que o velho Marx já nos mostrara que é justamente essa forma dialética de funcionamento que o capitalismo traz consigo. Do mesmo jeito que ele, o capitalismo, oferece as mil e uma facilidades para sua manutenção, simultaneamente também traz consigo os elementos que poderão enfraquecê-lo e assim suprimi-lo (no sentido da aufheben hegeliana).

Enquanto ouvimos campanhas e mais campanhas para não adquirirmos produtos piratas, produtos esses que seriam frutos do “crime organizado”, de acordo com a descrição dada pelas grandes empresas que estariam inseridas no mercado denominado por eles de “legalizado”, mesmo assim, são eles, os ditos ilegais, que vendem de maneira significativa além de possuírem uma acessibilidade imensa para uma boa parte população e em qualquer lugar do país!

Imaginem que em uma feira municipal, que acontece semanalmente em qualquer cidadezinha do interior de Sergipe, existem bancas que comercializam desde CD’s de músicas, de jogos para vídeo-game, DVD’s de filmes, arquivos em MP3, JPEG, AVI e até, pasmem, programas para computador “hackeados” ou “copiados ilegalmente”. Isto sem comentar na variedade que é imensa e bem maior que as lojas ditas especializadas e que vendem esses produtos em alguns lugares da capital.

Agora pergunto: será que alguém que more no interior de Sergipe iria ser levado a adquirir um “produto original” viajando para a capital, trocando sua própria cidade, sua feira e perder a comodidade de comprá-lo ao lado de sua casa? Acho meio improvável senão impossível. Não possuo a certeza no assunto, mas da mesma forma que uma fábrica que diz empregar dezenas ou centenas de trabalhadores “legalizados”, as fábricas “ilegais” de produtos “piratas” deve contratar do mesmo jeito, óbvio que na clandestinidade e com menos privilégios trabalhistas, mas, ainda assim, estaria empregando do mesmo jeito que as outras fábricas.

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