domingo, 20 de dezembro de 2009

É proibido ser infeliz!

Devo confessar que estou bastante apreensivo com o rumo das coisas do jeito que estão indo... Violência, aquecimento global, desrespeito ao ser humano, corrupção e agora, vejam vocês, estamos até proibidos de sermos infelizes. Pois é... Talvez esta última constatação seja a mais preocupante, porque me vejo numa sociedade que impede até de ficarmos tristes com esses fenômenos tão iminentes e corriqueiros em nosso cotidiano, pois deveríamos colocar tais coisas debaixo do tapete e agir como se nada estivesse acontecendo de ruim no nosso mundo. Essa parece ser a palavra de ordem do momento. Tal constatação me veio como um soco no estômago quando uma matéria de uma revista me mostrara que as empresas estão preocupadas atualmente em contratar "pessoas com grau de satisfação elevado" ou então aquelas pessoas que conseguem ser "felizes". Criaram até uma forma de medir o grau de felicidade desse possível candidato! Nesse sentido, noto que a tristeza transformou-se em doença, em patologia psíquica, em um mal que pode ser remediado e assim controlado. Razão disso? Ora, uma pessoa infeliz produz menos! De que adianta alguém preocupado com o aquecimento da terra, com a corrupção em nossa política ou com a violência urbana cada vez mais descontrolada se isso não lhe ajuda em nada, ou melhor, não contribui para o crescimento econômico do nosso país? Vamos acabar com esses infelizes!!! Fim àqueles que não conseguem ser felizes nesse mundo repleto de males e sofrimento!


O velho Marx já nos alertara... O capitalismo seduz, seduz e ainda por cima cria um véu de desumanização no próprio ser humano que ele se vê incapaz de fugir. Não que eu seja um marxista ferrenho – longe de mim tal responsabilidade – mas basta lermos A Ideologia Alemã, por exemplo, para percebermos certos elementos no mínimo alarmantes que o capitalismo exerce sobre nós e daí pudermos assim compreender por que não podemos sequer ser infelizes nos dias de hoje. Parece até um palavrão ou uma doença contagiosa alguém chegar até outro e assumir "companheiro, estou infeliz..." De imediato surgem os grandes entendedores com suas orientações de auto-ajuda acreditando piamente que para a felicidade existe uma fórmula universal, uma fórmula única a todos. Talvez seja muito mais fácil convivermos com a infelicidade do que o contrário, afinal é esta a condição do ser humano, faz parte de sua natureza. A infelicidade está cravada na alma de qualquer ser dotado de razão, que busque, ao menos, exercitá-la. Todavia, como vivemos numa sociedade que força justamente o oposto, percebemos o contrário... No dia em que um mendigo ler um livro de auto-ajuda e me convencer o quanto o livro mudou sua vida para melhor, talvez aí sim eu passe a dar um pouco mais de crédito aos autores dessa suposta corrente "filosófica", como muitos deles se arvoram a afirmar. Aliás, talvez seja por isso que os mendigos não conseguem empregos ou se dar bem na vida, porque são infelizes, e por isso a sociedade dá – mais uma vez – as costas para eles mostrando-lhes o quão eles estão errados ao negar esse mundo tão esplendoroso e fantástico do capitalismo tardio feito exclusivamente para os que são felizes.

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