Mais um comentário sobre a educação brasileira


 

Recentemente ouvi na tevê um comentário dentre outros no mínimo provocativo de uma filósofa brasileira, Viviane Mosé, num desses raros momentos de lucidez da nossa televisão, no qual coincidentemente só acontece mais vezes na tevê Aperipê, afiliada aqui em Sergipe da rede Brasil (o programa dominical dessa emissora chama-se "Conexão Roberto D'Ávila"), sobre a educação brasileira. Sua idéia, assim me recordo, girava em torno da afirmação de que o nosso modelo educacional estava há muito ultrapassado e que ainda por cima apresentava resquícios da ditadura outrora existente no nosso país. Só para se ter uma idéia, o simples termo "disciplina" quer nos dizer o quê? Pois é. Algo que vem dos quartéis generais daquele momento histórico e que hoje não se aplica, ou pelo menos não se aplicaria, aos saberes que encontramos na nossa escola. Como enquadrar filosofia, sociologia ou, pior ainda, arte num conceito de disciplina? Não ficaria algo no mínimo contraditório já que tais disciplinas tentam justamente criar certo caráter de liberdade completamente avesso a isso que se chama "disciplina"? Mas isso é apenas a ponta do iceberg de acordo com a provocação por ela desenvolvida além de não propor uma reforma, mas sim outra forma de se educar no nosso país! Óbvio que é uma tarefa hercúlea, mas, pelo menos, sou obrigado a concordar com ela diante do que vemos na nossa educação de hoje. Ainda não conseguimos identificar, por exemplo, se o nosso aluno tem que prestar um vestibular, se tem que arranjar um emprego ou "simplesmente" prepará-lo para "ser" humano. A nossa escola vivencia esse conflito de identidade e reflete tal comportamento numa formação incompleta do indivíduo que pretendemos incluir na sociedade. Em vez disso somos obrigados a seguir projetos e programas impostos por governos com problemas de afirmação que demonstram um peculiar despreparo ao lidar com isso que chamamos de educação. Basta que um novo governo assuma o poder executivo e assim percebermos o saco de boas intenções que eles possuem em relação à educação, mas que não querem mudar nada significativamente, talvez propositadamente por acreditarem achar a educação um saco de vespas. Isso sem comentar a realidade dos professores que de algum modo estão já acostumados com tal situação não conseguindo mais exercitar aquela capacidade de se adaptar ou até de criar de fato alguma coisa que porventura proponha mudar radicalmente nosso processo educativo. Na realidade o professor mais parece um cego em tiroteio quando um novo programa de governo é implantado, daí ele perceber que é "melhor" ficar com o que já tem que já é conhecido além de confiável. Lembro-me ainda que a filósofa comentava sobre a perda do encantamento que o nosso aluno encontra na sala de aula ilustrando que o aluno tem uma vida ativa fora da escola: ele brinca, se diverte, se movimenta, enfim, está ativo ampliando suas experiências em relação ao mundo que o rodeia, contudo, ao entrar na escola, mais precisamente na sala de aula, se depara com uma organização (disciplina) na qual é obrigado a seguir, a começar pela simples arrumação das cadeiras enfileiradas em que todos se vêem forçados a se sentarem um atrás do outro prestando atenção ao quadro negro ou a algo que o esforçado professor traga para conseguir prender a atenção do aluno por alguns momentos para que só assim ele possa desenvolver sua capacidade de "raciocínio abstrato" diria até metafísico, ou seja, ele pára de ser ativo para se tornar passivo só que nem todos possuem esse "dom" e daí são logo taxados de irrequietos, super-ativos ou simplesmente alunos que não têm a capacidade de estarem de forma "comportada" em sala de aula. Mas, finalmente, de quem é a culpa? Com certeza o processo cultural brasileiro está envolvido em nossa educação e vem se arrastando ao longo da nossa recente história criando raízes tão profundas na qual o indivíduo que ouse arrancá-las esteja também disposto a deflagrar uma guerra violenta contra esse status quo poderoso.

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