A Luta do Bem contra o Mal!?

Atualmente vimos nos meios de comunicação o combate que o Estado brasileiro realizou lá no Rio de Janeiro, juntamente com os governos locais,  aos traficantes que ocupavam os morros ditos mais perigosos da cidade maravilhosa. A imagem que para mim mais chamou a atenção foi justamente aquela do tanque de guerra subindo o morro, atravessando uma barreira criada pelos traficantes, imponente e incólume aos tiros que literalmente arranhavam-no.

A imgem do tanque é perfeita para representar o poder do nosso Estado diante dos traficantes. O que me pergunto é: será que somente agora os poderosos do nosso Estado se deram conta da sua capacidade, da sua força? Por que não o fizeram em tempos anteriores? Por que será que eles acreditaram que somente agora poderiam fazer alguma coisa em conjunto com os governos estadual e municipal?

Os traficantes fugiram. O morro foi tomado. A mídia, como de costume, realiza o seu show com chamadas e mais chamadas demonstrando sua incrível força de influenciar e convencer as pessoas de que ali aconteceu uma coisa "esplendorosa" ao mesmo tempo que "assustadora". Ouvimos ainda os responsáveis pela grandiosa e bem realizada missão bradarem que se tratava de uma "luta do bem contra o mal". Nesse ponto acredito que deveríamos, no mínimo, ter o máximo de cuidado...

Sabemos que a realidade social não é tão simples para ser compreendida. Não existe uma fórmula única e universal que nos faça entender por completo como funciona a estrutura social de qualquer sociedade. Aprendemos ainda que cada sociedade possui suas prerrogativas, suas formas, enfim, sua estrutura própria para se mostrar como tal - e isto sem falar nos contextos históricos que certamente, para não dizer fatalmente, possui uma influência olímpica sobre os cidadãos e consequentemente sobre sua sociedade.

Surge um discurso que resume, que sintetiza tudo como uma luta "simples" entre heróis e vilões. Os heróis, sabemos quem são através de suas fardas; os vilões, pela falta delas. Aliás, não só pela falta das fardas como também de outras coisas, tais como emprego, educação, qualidade de vida... Longe de mim proteger traficante ou bandido, mas uma pergunta me salta de uma forma tão evidente que é impossível não fazê-la: será que as pessoas pedem para se tornarem marginais, traficantes, ladrões e etc?

Sei que talvez possua uma compreensão romântica acerca do indivíduo, porém, prefiro entender através deste viés no qual a sociedade, o meio em que se vive, possui um papel extremamente poderoso na formação do indivíduo. Acredito que um indivíduo não se torna ladrão por uma escolha livre, individual, plenamente sua, mas sim pelas circunstâncias, pelo contexto em que aquele indivíduo está inserido. Mas isso também não quer dizer que todos os indivíduos já nasçam "bonzinhos". Cabe à sociedade moldá-los, enquadrá-los aos ditames e normas que ela prescreve. Para se formar um cidadão é necessário que haja uma interação entre a sociedade e os indivíduos que a compõem, entre aqueles que detêm o poder e os que não têm, podendo ser um poder legalmente legitimado ou não. Não pretendo aqui me esmiuçar tanto sobre esse assunto, pretendo apenas demonstrar a complexidade ao se resumir uma luta que não apresenta personagens tão bem definidos como num filme americano de bang-bang.

Sintetizar que um traficante é o mal e os policiais e soldados são o bem é no mínimo fruto de um pensamento rasteiro, sem muito aprofundamento ou ainda fruto de uma tentativa mal-fadada de relacionar essa luta a algo religioso, santo. Claro que a mídia em geral montou seus holofotes para os nossos "bravos heróis", mas se esqueceu de dar ênfase no tratamento dado aos moradores por parte de alguns oficiais ("bravos heróis") quando entravam nas pequenas casas construídas a muito suor como se entrasse nas "linhas inimigas" ou ainda "na casa do mal".

Claro que não estive lá para observar em loco, mas a própria mídia forneceu esses "pequenos momentos" que poderíamos chamar também de "saldo negativo permitido", já que esses pequenos detalhes não se comparam à grandiosa missão que os nossos "bravos heróis" realizaram na ocupação e consequente expulsão dos traficantes dos morros cariocas.

Definir uma luta desse porte como simplesmente um combate entre o bem e o mal é no mínimo complicado, como afirmei antes, demonstrando ainda uma certa incapacidade do nosso Estado em de fato compreender a realidade que o cerca tentando ainda limitar essa realidade a uma má compreensão carente de subtefúrgios e passível de preconceitos históricos ao povo que mora naquelas paragens.

É bom lembrar que, segundo a literatura antropológica brasileira, a formação das favelas se deu justamente pela ausência ou incapacidade do Estado brasileiro em dar as devidas atenções aos seus indivíduos, no caso, ex-soldados vindos da Guerra de Canudos - aliás, outra incapacidade do nosso Estado de compreender efetivamente a sua própria realidade.

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