terça-feira, 15 de maio de 2012

A greve como artifício fundamental na sociedade de classes

Ao vivenciar uma greve dos professores da rede estadual pública daqui de Sergipe que está prestes a completar 30 dias, pude perceber através das conversas de alguns populares, em especial de pais que possuem filhos em escolas públicas, uma insatisfação significativa em relação aos professores grevistas. Os professores lutam por uma incorporação do piso nacional da categoria ao salário-base, o que, de acordo com o SINTESE (o sindicato dos professores do estado de Sergipe), seria de 22,22%; o governo atual, do governador Marcelo Déda, diz ser praticamente inviável tal porcentagem e cogita a possibilidade de até 6% de aumento, inclusive para as demais categorias de funcionários do estado. Talvez o mais agravante, na visão do governo e desses pais, seja de fato os quase 30 dias sem aula dos alunos, sobretudo os que pretendem realizar a prova do ENEM que acontece em meados de novembro. Mas na visão dos professores, é diferente.

Ao tomar ciência dessa distorção percentual em que a categoria de professores exige 22,22% e o estado com uma contrapartida bastante inferior de até 6%, os pais desses alunos, aqueles que acreditam que o professor é um dos funcionários mais bem pagos da sociedade porque "vai de carro dar aula", vêm nessa distorção uma greve que só tende a prejudicar os seus filhos.

Diante de um contexto social no qual a maioria das pessoas não dispõe de uma aptidão crítica convincente para reclamar e sobretudo tentar transformar as condições pelas quais se encontram - talvez pela influência da religião -, nada mais "natural" do que reclamar daqueles poucos que tentam realizar isso que elas não conseguem. A maioria dessas pessoas é simplesmente incapaz de compreender que vivemos sob o jugo de um Estado que visa as benesses de uma minoria que goza de privilégios e que possui um acesso mais profícuo aos recursos financeiros do nosso país. Em síntese, por mais que se conquistem direitos e mais direitos, existe sempre aquela classe de pessoas que consegue manter-se, consegue ter um padrão de vida bastante diferenciado da maioria da população, na literatura marxista são denominados de burgueses.

Essas pessoas não conseguem entender que o Estado é o catalisador dos conflitos naturais dentro de uma sociedade de classes; não entendem que toda greve dentro dessa sociedade de classes é algo extremamente necessária além, realizando ainda uma interpretação marxista, de natural. Toda sociedade democrática, onde existam classes distintas, o conflito entre essas classes tem que necessariamente existir. Por isso que as greves são essenciais dentro desse contexto . Elas simbolizam o clímax desses conflitos. Não importa se sejam 10, 20 ou 30% de aumento, a greve simboliza um momento em que a classe subalterna está exigindo mais daquilo que ela vem sendo expropriada para assim conseguir manter um padrão de vida menos sofrível.

O Estado na sociedade capitalista representa o interesse da classe que mantém o controle da produção, dos capitalistas, muito embora nas sociedades democráticas a sociedade consiga manter ou criar representantes dos demais segmentos sociais, sobretudo oriundos da classe subalterna, que de alguma maneira conseguem diminuir os impactos das desproporções sociais inerentes a toda sociedade capitalista dividida por classes.

O controle maior se dá efetivamente a partir daqueles que detêm os meios de produção enquanto que a outra parte da sociedade, os que não possuem os recursos financeiros para munir-se dos meios de produção, vendem apenas sua mão de obra, sua força para o trabalho, seu tempo de vida. O médico vende sua mão de obra; o empacotador de um supermercado vende sua força de trabalho; o advogado vende seu tempo de vida. Todos aqueles que possuem um emprego, que dependem de um salário, por isso assalariados, realizam tal permuta por dinheiro, e esse dinheiro alimenta o sistema capitalista e sustenta aqueles poucos privilegiados que não dependem de um salário para sobreviver.

E aí aparece um trabalhador, um vendendor do seu tempo de vida, e critica o seu colega também trabalhador chamando-o de "vagabundo" porque ele conseguiu unir e conscientizar a categoria para reinvindicar seus direitos a uma vida mais digna através de uma greve. Aparece um pai de um filho de uma escola pública causticante de problemas, que está sujeita às mazelas de um Estado desqualificado para lidar com educadores, que desvaloriza esses educadores, e diz que o professor "é um revoltado sem causa".

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