domingo, 3 de fevereiro de 2013

É o carnaval uma festa popular?


É fato que no Brasil impera o que se chama de pluralidade cultural. Desde a origem do nosso país, segundo grandes teóricos da área, como Gilberto Freire em Casa Grande & Senzala, nota-se a pluralidade cultural originada de uma miscigenação entre brancos, negros e índios. Isso sem comentar a miscigenação entre nações estrangeiras e a nossa que durante a contemporaneidade formam o nosso ethos, a nossa essência cultural, a nossa identidade, como foi o caso de japoneses, italianos, alemães, portugueses que migraram para o nosso país e deram sua parcela de contribuição à formação da nossa cultura. O Brasil, de dimensões continentais, possui uma pluralidade, uma variação de cultura tão rica, mas tão rica, que algum desavisado pode confundir-se ao viajar do norte ao sul do país acreditando estar em outro país.

Muitos desses povos trazidos ou vindos para cá lutaram – e ainda lutam – para ter sua parcela de reconhecimento na construção cultural do nosso país. Os negros africanos que o digam, talvez os mais prejudicados por essa empreitada de trazer e difundir sua cultura entre nós brasileiros e ainda assim sofrerem uma perseguição desumana senão estúpida.

No período que se inicia religiosamente no mês de fevereiro, o carnaval, nota-se a influência marcante da contribuição negra para a formação da nossa identidade cultural talvez mais evidente – embora eu prefira acreditar que os festejos juninos sejam mais nutridos de influência brasileira que o carnaval, ambos vindos da Europa e adaptados à nossa realidade, mas isso é assunto para outro post.

É no carnaval que vemos, mais uma vez, dentro da nossa cultura, a presença dos caracteres da cultura negra como o samba, o ritmo e a dança, o vigor com que se dedicam, numa palavra, a alegria de fato espontânea com que festejam o que não existia muito evidente na festa trazida originalmente para as terras tupiniquins.

Talvez em lugar algum no resto do mundo se encontre uma festa tão esperada e tão bem identificada com o povo brasileiro quanto esta, o carnaval. Mas, diante das grandes transformações e interferências inculcadas pelo capitalismo tardio, essa festa tão marcante da nossa cultura não pôde fugir de seus tentáculos poderosos e sedutores. Foi-se o tempo em que o carnaval era de fato uma festa mera e exclusivamente inventada pelo e para o povo. Admito que meu discurso possa até parecer meio saudosista, mas é inegável o poder que o dinheiro exerce sobre essa festa. 

Grandes corporações se apossam de seu controle, instituem regras, campeonatos, modismos, economia, tudo a fim de tirar o brilho intenso dessa festa tão marcante para o brasileiro que é o carnaval. Muitos até imaginam que o carnaval é apenas aquele transmitido pela Globo no Rio de Janeiro! Esquecem, essas pessoas, que o carnaval possui inúmeras facetas, inúmeras formas de se apresentar a depender da região onde ele seja manifestado. Em cada região do país o carnaval possui uma característica própria. O problema é que uma emissora sediada em um estado transmite o carnaval de seu estado fazendo com que as pessoas acreditem que aquele carnaval é o melhor, o mais bonito ou o mais organizado, quando na realidade carnaval não tem nada a ver com isso! Não existe um carnaval melhor do que o outro! É tudo manifestação cultural, quer dizer, até certo ponto...

Criou-se a moda de comprar um “abadá” se quiser sair no bloco, de comprar uma fantasia se quiser sair na escola de samba, de comprar um camarote, uma arquibancada... E dizem que a festa é do povo! “Ah!”, bradarão alguns, “mas quem não tem dinheiro pode se divertir na pipoca!”, por exemplo, se for o carnaval na Bahia. “Pipoca”, nesse sentido, é um lugar onde não se paga e que fica fora dos cordões de isolamento que protegem os foliões que pagaram pelo “abadá” e que, sabe-se bem, não existe o mesmo tratamento dado aos foliões não-pagantes. Cito outro exemplo, o Pré-caju, que acontece também religiosamente aqui no meu estado durante o período das férias escolares, no qual existe um acordo entre os donos dos blocos – os organizadores da festa – em que a polícia não pode entrar no bloco dos “abadás” comprados, salvo em casos muito específicos. 

Isso acontece em todas as festas carnavalescas do país: uma diferenciação entre ricos e pobres, entre os mais favorecidos e os menos favorecidos. Lugares onde os ricos podem frequentar e os pobres não; comidas e festas exclusivas onde os ricos podem usufruir e os pobres, os que adaptaram o carnaval ao nosso país, têm que ficar de fora. Salvo, contudo, em alguns casos onde o carnaval de rua, aberto ao público, é mantido milagrosamente pelo povo e resiste à empresa capitalista, como em Olinda, Pernambuco, onde realmente, a festa é para todos e não se dividem ricos e pobres, todos  fantasiados ou não saem à rua com a roupa e o dinheiro que tiverem numa clara alusão ao princípio do carnaval quando a festa estava voltada apenas para extravasar as frustrações, as tristezas e as pressões daqueles que trabalhavam durante todo ano numa alegria só.

Hoje os nossos momentos de alegria estão visados e influenciados fortemente pela regra capitalista. Tudo que deve ser considerado bom tem que necessariamente passar pela regra do mercado, da economia e obviamente ser mais caro, exigir um preço. Se você quiser ser feliz, basta que pague, e bem, para adquirir os melhores lugares e gozar sua festa com tranqüilidade e segurança – os “camarotes”, o inverso da “pipoca”. Aos pobres, cabe a resignação de poder assistir em sua casa, na tevê, ou participar de uma “pipoca” no qual o policial, muito bem orientado pelos seus superiores, sejam da corporação ou não, aproxime-se para separar uma briga simplesmente batendo primeiro e perguntando depois. 

O carnaval já foi uma festa do povo, agora não passa de uma festa daqueles que organizam e que ficam assistindo de longe, de preferência em seus camarotes com convidados especiais, assistindo apenas o bloco passar e engordando suas contas com aquilo que é também caro ao ser humano: a diversão.

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