segunda-feira, 29 de março de 2010

As pessoas acham que nunca vão morrer?

Talvez este meu texto soe um tanto esquisito. Talvez você que o lê possa interpretá-lo como algo louco de uma mente extremamente louca ou no mínimo "sem noção". Mas é algo que me toma de um modo tão forte que é quase impossível não comentar. É impressão minha ou as pessoas acham que nunca vão morrer um dia? 
É esta a ideia que pretendo comentar aqui ainda que brevemente. Peço que perdoe os possíveis e inevitáveis erros que porventura insistam em imiscuir-se nesse pequeno texto. Prenda-se tão somente à ideia que nele está presente.
Basta, então, que observemos na mídia a quantidade de informações a respeito de "como manter a saúde", "como prolongar a vida" ou ainda de "como manter-se sempre jovem". Vez por outra surge na grande mídia algum ícone com seu segredo para manter a boa forma e logo tal segredo deixa de sê-lo. A grande maioria das pessoas seguem tal "filosofia" de tal modo que parece estarem seguindo uma religião. Mas tal "filosofia" é rapidamente suplantada por uma outra que também é logo absorvida e futuramente será também suplantada. Se bem que ainda existe aquela camada da população que não segue tal "filosofia" mas ainda carrega dentro de si um peso na consciência por não fazê-lo. Parece uma cobra que tenta morder o próprio rabo - não tem fim nunca! Essas mesmas pessoas parecem acreditar que podem encontrar a fórmula para viver bem, viver "com saúde", sempre em busca de prolongar sua vida. Mas, e a morte? Ela não é algo tão natural quanto a vida? Ela não possui o mesmo esplendor que o nascimento? Ela não transforma - como nos dissera Machado de Assis - de um modo distinto a natureza, o universo ou a própria humanidade? Não quero mais me alongar nesse exercício filosofante, porém, quero deixar uma pergunta no ar: já imaginaram como seria o mundo se ninguém ou nada morresse?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

“Eu devia estar contente...”


O pai e a mãe brincam com sua filhinha na praia à tarde em uma terça-feira. Muitos os chamariam de privilegiados por poderem aproveitar algumas horas com sua filha na praia enquanto outros estão promovendo o "progresso" de suas vidas. Estes, trabalhando dia após dia, lutando para receberem seus salários e assim pagar suas contas "pedindo a Deus" que sobre um pouco mais no final do mês e que dê para pagar um divertimento qualquer que lhes retire daquele clima tenso e estressante do trabalho. Aqueles, o pai, a mãe e sua filhinha, provavelmente devem ter uma vida mais "digna"; o pai deve possuir um emprego "melhor" porque consegue aproveitar, mesmo em período de trabalho, seu tempo – algo tão valioso em tempos atuais – e, com isso, conseguindo também pagar suas contas ao receber o salário sendo que, sem dúvida, deve-lhe sobrar um "pouco mais" para divertir-se com a família. Meu questionamento é: por que, então, que em tempos atuais há aquele que trabalha consumindo todo o seu tempo, praticamente, e aquele que trabalha, mas consegue obter tempo o suficiente para divertir-se, para realizar aquilo que desejar, sem mais tarde sofrer alguma perda, pelo contrário, ganhando até mais? Por que tem que ser deste jeito e não de outro? Em suma: por que uns vivem melhor e outros não? Não falo isto me direcionando exclusivamente ao sistema do qual nos fora imposto, mas sim ao longo da própria história da humanidade. Sempre se soube da existência do explorado e do explorador, daquele entendido como "mais esperto" que domina o outro, daquele que viu na imposição da força o poder controlar os mais fracos, e assim nasceu a civilização. De novo pergunto: por que tem que ser, necessariamente, dessa maneira? Já não vivemos no "melhor dos mundos possíveis"? Já não gozamos do supra-sumo da tecnologia moderna? Por que, enfim, ainda continuamos a explorar o outro?... Admito e compreendo que, no decorrer da história humana, continuamente houve também aqueles que procuraram, sob um certo aspecto, justificar a existência dessas "duas categorias" de seres humanos. Platão, em sua inquestionável obra que trata sobre a república, alegava uma aristocracia, o governo dos mais capacitados, como melhor forma de governar uma cidade, no entanto não procurava desmerecer as demais classes subalternas ou "inferiores" mesmo que estas tivessem tal aparência; ou seja, Platão justificava, a seu modo, o explorador diante do explorado, mas, ao mesmo tempo, concordava que para a cidade alcançar uma harmonia era indubitavelmente forçoso que tal harmonia fosse respeitada por ambas as classes, embora uma fosse "melhor" que a outra, e que assim cada classe procurasse encontrar seu valor não desmerecendo nem uma nem outra. Hegel será outro pensador que também tratará desta relação entre o explorador e o explorado de uma forma mais abrangente ao mesmo tempo que precisa – na relação entre senhor e escravo – na qual legitima, de certa forma, a existência tanto de um quanto do outro, ofertando ainda a compreensão de que um jamais conseguiria viver sem o outro; o senhor necessita da existência do escravo assim como o escravo necessita da existência do senhor; o patrão necessita do empregado assim como o empregado necessita do patrão. Nesse sentido, o escravo – ou o explorado – somente poderia encontrar sua "felicidade", digamos assim, se reconhecesse e identificasse seu desígnio de "escravo". Portanto seria pura perda de tempo alguém questionar: "como posso ser feliz sabendo que alguém está me explorando?" ou ainda "por que sou tão infeliz?". Tanto para Hegel como para Platão os seres humanos já nasceram, sob um certo aspecto, "predestinados" a exercer as categorias que lhes foram dadas pela constituição de suas classes na sociedade. A constatação de alguém ao saber que está sofrendo por causa da exploração do outro somente poderá ofertar-lhe o princípio do sofrimento que constitui a sua vida, cabendo a ele "acomodar-se" com tal desígnio "natural".
Aquele que sofre de uma maneira inconsciente acha-se satisfeito ou até mesmo feliz por gozar a vida, mas não consegue compreender que ele só está gozando a vida porque o explorador, o dono da empresa que ele trabalha de segunda até sábado ou até domingo, permite a ele tempo de folga – de diversão – a fim de que possa recompor suas energias, regressar no próximo dia de trabalho mais animado e assim esperar uma outra oportunidade de, novamente, poder gozar a vida e assim o ciclo continuar a repetir-se. Este, cuja inconsciência de seu sofrimento lhe é peculiar, ainda por cima não aceita – sequer pretende! – tentar conhecer o porquê de seu "natural" desígnio, sequer tenta compreender o porquê de sua realidade constituir-se daquela forma e encontrando em sua ignorância, às vezes muito bem-vinda, às vezes não, a satisfação maior.
Quiçá seja por isso que o número de suicídios é maior entre pessoas que possuem um pouco mais de cultura e, portanto, um poder aquisitivo também diferenciado; já nos casos inversos, o suicídio é praticamente inexistente. Um outro pensador, Shopenhauer, contemporâneo a Hegel, irá concordar que o ser humano sofre porque passa a conhecer a miséria, entenda-se, a realidade na qual está inserido, a saber, a realidade humana. Dor e sofrimento são, portanto, tudo aquilo que o homem pode conhecer. Em alguns casos, uns sofrem menos, em outros...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A verdade não existe!


Quantas são as histórias e lendas que ouvimos sobre a origem do mundo, das coisas e dos homens? Desde explicações folclóricas, mitológicas ou até científicas, o ser humano persegue essa resposta desde tempos imemoriáveis no intento de "simplesmente" descobrir, tal qual uma criança curiosa, de onde veio, qual a sua razão de existir, qual o sentido de se estar aqui. Tais questionamentos suscitam uma busca de si mesmo através de uma inquietude interior e pujante que a todo instante atormenta o ser humano, como já nos dissera o pai da Filosofia ocidental, o senhor Sócrates. Parece-nos um tipo de fantasma que a todo instante nos ronda para lembrar que, por mais poderosos que pareçamos ser, ainda não sabemos algo deveras "simples": de onde viemos? Uma lancinante pergunta que a Filosofia tenta nos relembrar a todo momento muito embora nossa sociedade tecnocrática intente em colocá-la na marginalidade. Talvez o mais conveniente a fazer é entender cada explicação como mais uma explicação respeitando cada especificidade e esfera à qual ela esteja sujeita, todavia, temos que criar um esforço para não nos tornarmos arrogantes detentores da verdade última crente de que aquela explicação que defendemos é a única. Muitas vezes nos deparamos com certos indivíduos que incorrem nesse erro lamentável de se acharem os "donos da verdade" quando nos falam e nos contradizem a respeito, por exemplo, da origem humana sobre a terra. Algumas vezes encontramo-nos com alguma pessoa que possa agredir-nos verbalmente porque não concordamos com ela sobre, por exemplo, o criacionismo, que Deus criara o homem e a mulher a semelhança de si mesmo. Compartilho de uma idéia completamente contrária à dela, no entanto não destrataria alguém pelo simples fato de este alguém discordar de minha opinião. Em resposta poderia, no máximo, indicá-la leituras de outros povos, de outras culturas que também explicam sobre a origem do mundo e dos seres humanos ao seu modo. Poderia explicá-la das semelhanças existentes na criação do mundo dos gregos em relação à judaico-cristã, por exemplo, na qual os gregos dão um sentido ao cosmo de ordenação, uma função que se compromete em estabelecer a ordem, já nas Sagradas Escrituras falam de Deus (talvez o cosmo grego) organizando o mundo quando não havia nada, quando havia o caos, no qual os gregos criam como possibilidade de criação. E isso sem comentar escrituras sagradas de povos antigos que também são bastante semelhantes aos gregos, aos judeus e aos cristãos. Então, se cada povo possui sua explicação específica sobre a criação do universo ou até de si mesmo, como podemos apontar algo ou alguma verdade como sendo absoluta, única e, perdoando a redundância, verdadeira. Tal constatação nos remete ao filósofo francês, Michel Foucault, quando este nos indica que, por mais que tentemos demonstrar a importância ou a veracidade de um determinado conhecimento a nós mesmos, sobretudo aos outros, somos nós mesmos os únicos responsáveis para tornar aquele conhecimento efetivamente válido, importante ou verdadeiro; que se nós não déssemos a esse conhecimento a "sua" importância ele não a possuiria – e isso também nos remete a um sentido que o sujeito do conhecimento é responsável sobre seu objeto de estudo. Tudo que observamos, criamos ou entendemos, ainda segundo o filósofo francês, depende única e exclusivamente de nossa afetação para com diante daquilo que estamos observando. É como o arrebatamento de uma paixão cujo objeto de desejo, a pessoa amada, somente é importante graças ao ser que está apaixonado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ser humano, ser buscante da felicidade

O ser humano é um ser que vive em constante conflito. É personagem de uma guerra que ele próprio sustenta e que, em alguns casos, ele mesmo sabe como pará-la – eis então a grande problemática proposta por Sócrates do "conhece-te a ti mesmo". O ser humano ocidental retém em seu cerne fortíssimas influências judaico-cristãs e por isso é recipiente de uma dualidade de mundos: a sua realidade que lhe impõe os percalços da vida, mas que o coloca na expectativa de outra vida. O ser humano vive na Terra, porém com a expectativa de encontrar o Paraíso (um lugar perfeito). Pelo fato de o ser humano não se identificar com este mundo, ele então põe todas as suas esperanças em outro mundo. Mas, por que então ele não se identifica ou não se vê realizado, satisfeito neste mundo do qual ele faz parte? Eis o princípio da insatisfação, do sentimento de infelicidade dado ao fato de que o homem jamais se pretende completamente satisfeito com qualquer coisa com a qual ele consiga realizar. É justamente graças a este conflito, este sentimento de nunca estar satisfeito, que se notam as principais atribulações na vida de qualquer pessoa transformando-a, com isso, em alguém infeliz não em relação ao mundo do qual faz parte, mas em relação a si mesmo. O ser humano, por ser infeliz consigo mesmo, passa a transformar as coisas que toca em coisas também infelizes, transforma o mundo a sua volta em algo infeliz – talvez por causa disso as muitas vicissitudes que estão aí pelo mundo, já que o ser humano não consegue satisfazer-se com o que tem em mãos. É claro que algum "otimista" irá bradar o oposto ao se deparar com alguém que lhe demonstre tais argumentações, entretanto, embora ele tente comprovar que exista felicidade, mesmo que ligeira, não pode deixar de concordar que essa "felicidade ligeira" não passa na realidade de pura ilusão, de uma desdenhosa miragem que o engana e, pior ainda, que o vicia a buscar desde sempre esse "tipo" de fortuna. Transforma-o em um ser perseguidor da "coisa alegre" que, ao ter provado uma vez e assim gostado, deseja mais e mais se viciando. Em sua perseguição desenfreada pela bendita felicidade, termina esquecendo ou finge esquecer-se das atrocidades que realiza nessa sua busca. Ele quer porque quer a qualquer custo possuí-la e está disposto a pagar qualquer preço – inclusive a sua própria felicidade... Mas, afinal de contas, o que é felicidade mesmo?

domingo, 20 de dezembro de 2009

É proibido ser infeliz!

Devo confessar que estou bastante apreensivo com o rumo das coisas do jeito que estão indo... Violência, aquecimento global, desrespeito ao ser humano, corrupção e agora, vejam vocês, estamos até proibidos de sermos infelizes. Pois é... Talvez esta última constatação seja a mais preocupante, porque me vejo numa sociedade que impede até de ficarmos tristes com esses fenômenos tão iminentes e corriqueiros em nosso cotidiano, pois deveríamos colocar tais coisas debaixo do tapete e agir como se nada estivesse acontecendo de ruim no nosso mundo. Essa parece ser a palavra de ordem do momento. Tal constatação me veio como um soco no estômago quando uma matéria de uma revista me mostrara que as empresas estão preocupadas atualmente em contratar "pessoas com grau de satisfação elevado" ou então aquelas pessoas que conseguem ser "felizes". Criaram até uma forma de medir o grau de felicidade desse possível candidato! Nesse sentido, noto que a tristeza transformou-se em doença, em patologia psíquica, em um mal que pode ser remediado e assim controlado. Razão disso? Ora, uma pessoa infeliz produz menos! De que adianta alguém preocupado com o aquecimento da terra, com a corrupção em nossa política ou com a violência urbana cada vez mais descontrolada se isso não lhe ajuda em nada, ou melhor, não contribui para o crescimento econômico do nosso país? Vamos acabar com esses infelizes!!! Fim àqueles que não conseguem ser felizes nesse mundo repleto de males e sofrimento!


O velho Marx já nos alertara... O capitalismo seduz, seduz e ainda por cima cria um véu de desumanização no próprio ser humano que ele se vê incapaz de fugir. Não que eu seja um marxista ferrenho – longe de mim tal responsabilidade – mas basta lermos A Ideologia Alemã, por exemplo, para percebermos certos elementos no mínimo alarmantes que o capitalismo exerce sobre nós e daí pudermos assim compreender por que não podemos sequer ser infelizes nos dias de hoje. Parece até um palavrão ou uma doença contagiosa alguém chegar até outro e assumir "companheiro, estou infeliz..." De imediato surgem os grandes entendedores com suas orientações de auto-ajuda acreditando piamente que para a felicidade existe uma fórmula universal, uma fórmula única a todos. Talvez seja muito mais fácil convivermos com a infelicidade do que o contrário, afinal é esta a condição do ser humano, faz parte de sua natureza. A infelicidade está cravada na alma de qualquer ser dotado de razão, que busque, ao menos, exercitá-la. Todavia, como vivemos numa sociedade que força justamente o oposto, percebemos o contrário... No dia em que um mendigo ler um livro de auto-ajuda e me convencer o quanto o livro mudou sua vida para melhor, talvez aí sim eu passe a dar um pouco mais de crédito aos autores dessa suposta corrente "filosófica", como muitos deles se arvoram a afirmar. Aliás, talvez seja por isso que os mendigos não conseguem empregos ou se dar bem na vida, porque são infelizes, e por isso a sociedade dá – mais uma vez – as costas para eles mostrando-lhes o quão eles estão errados ao negar esse mundo tão esplendoroso e fantástico do capitalismo tardio feito exclusivamente para os que são felizes.

sábado, 7 de novembro de 2009

Da difícil arte do pensar puro

Esse ímpeto cego é mais forte. Essa vontade cega, errante, caótica, contraditória, ergue-se constantemente das cinzas a fim de encontrar um nada que não sei para o quê serviria... Fico a espera de alguém, de alguma pessoa que me traga um alento, uma atenção, uma palavra inteligente, maliciosa, sarcástica. Não essa coisinha bonitinha, encaracolada que toma todos os cantos desse novo lugar onde insisto em querer ser feliz. Alguém que me traga saudade, que abra meus pensamentos para o novo, algo que me distraia de maneira contundente, aprazível, com conteúdo. Mas sei que sou um estúpido por esperar isso. Sei que esses momentos já passaram, não voltarão mais (a não ser em minha lembrança vicejante). Sei e reconheço que em verdade espero por mim mesmo. Espero que esse alguém que volte ou que venha do nada seja eu mesmo, travestido pela árdua viagem das aventuras que sempre quis ter e meu bom senso non sense transformou-o em algo incapaz, impotente diante dos músculos poderosos dessa coisa metida a racional que entrou em meu espírito à força pela educação, pela academia... São raros os momentos que me dispo (não por inteiro) para que uma asa há muito pronta para voar tome seu destino e siga por esse mundo afora, repleto de sonhos e imaginações e ideias perfeitas. O desejo insiste, inunda meus poros ávidos. Talvez por culpa da música alienígena que insiste em amolar o ouvido saltitante ou emocionante ao extremo dos meus vizinhos (se brincar, eles nem me ouvem!). Não ligo. Que ouçam! Tomara que ouçam! Que ouçam algo diferente, que sinta que possuem pensamentos que desejam também ser ouvidos, aliás, com a mesma importância que seus instintos mais pueris, mais baixos de fato. De vez em quando me passa pela cabeça a inocente ideia de tentar ser igual a eles: beberrões, crianças grandes com brinquedos caros, com seus instintos aflorando e tomando o controle dos seus, agora, mais fortes corpos; homens-crianças que acreditam piamente que tem razão em todos os seus menores desejos... Mas não consigo ser de tal forma. O mundo é testemunha que tento. O problema é que durante essa tentativa, aquela pela qual sou apaixonado, aquela maldita e bendita Ave de Minerva, não mais me permite o luxo de ser medíocre (talvez esteja sendo um tanto presunçoso), pois logo me vem o olhar criterioso, o distanciamento que qualquer ser pensante possui como fundamental característica, e sinto-me quase que como em um laboratório a examinar cuidadosamente aquele jovem garoto que se diz homem brincando ou tentando ainda ser gente grande; ou ainda aquela mulher que recai sobre suas mãos a grande missão de tomar conta de um templo quase sagrado, mas ao mesmo tempo quase sem crédito e ela desesperadamente tentando levar a sério... Pobres crianças... Será que não entendem que nunca irão crescer verdadeiramente? Preocupam-se em ser adultos com tanta veemência, em ser inteligentes, em ser pessoas experientes, brigam para serem ouvidas, e no fundo choram como qualquer criança mimada tentando chamar a atenção da mãe (que não está mais por perto). Seus desejos devem ser tratados como certos, como verdadeiros, devem ser respeitados, ouvidos, os outros que se virem para tentar falar alguma coisa, pois nessa grande brincadeira, o dono da bola é quem diz como são as regras do jogo. E todos, absolutamente todos, acham-se os donos da bola. Que sejam. Eu é que não tenho mais fôlego, nem capacidade instintiva para brincar de bola...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um breve comentário da condição do aposentado na contemporaneidade brasileira

Um indivíduo resolve se aposentar depois de um bom tempo trabalhando. Nos dias de hoje, tal situação é extremamente corriqueira, pois, graças aos avanços conseguidos para o progresso da humanidade trazidos com a industrialização e as reivindicações dos trabalhadores, um indivíduo agora pode descansar em sua velhice depois de um bom tempo vendendo sua força de trabalho para se sustentar. Chega a ser algo parecido como uma premiação poder descansar depois de quase uma vida inteira dedicada ao trabalho... Espere um momento? Eu disse "premiação"? Será que podemos chamar de fato "premiação" uma remuneração que um indivíduo recebe depois de se aposentar? Será que é a mesma coisa que ele recebeu durante o tempo em que trabalhou incluindo todas as vantagens de quando estava na ativa? Será que aquilo que ele recebe como aposentado condiz realmente com o que ele merece ganhar?

Ao observarmos um salário em qualquer função – salvo algumas raras situações tidas como especiais – nota-se uma "simbólica" perda de certos valores assim que o indivíduo dessa função resolve "sair da ativa", sobretudo aqui no Brasil. Dar-se a entender que esse indivíduo não é uma pessoa que deu duro em sua vida para sustentar seus patrões e a si mesmo merecendo uma recompensa pelos seus esforços, mas sim uma "peça", uma "coisa", que pelo motivo de ter-se afastado, finalmente para o merecido descanso, deve ser trocado por estar velho ou "desvalorizado"... Duas coisas que podemos interpretar nessa situação: 1) a condição do homem contemporâneo tratado como "coisa"; e 2) o preconceito a uma camada da população que perde seu "valor econômico" diante da nossa sociedade pós-industrializada, no caso, os mais velhos, os idosos.

Um filósofo alemão do século XIX, desconfiado com as promessas que a industrialização e o progresso trariam ao ser humano, resolve estudar sua época e descobre fatos no mínimo alarmantes. Ele percebe que o ser humano, criador dessa modernização industrial, estava perdendo sua liberdade, sua autonomia, sua capacidade de simplesmente "ser" humano. Karl Marx, o dito filósofo, irá então conceituar o nosso sistema econômico e social como baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção que visa o lucro empregando trabalho assalariado e, o que é pior, transformando o ser humano em "coisa". Eis nossa primeira problemática. Seria este, portanto, o único propósito do capitalismo? Por que sermos transformados em "coisas", ou melhor, em "peças" nessa grande sociedade agora pós-industrializada?

Voltemos ao caso do indivíduo que resolveu se aposentar. A própria palavra "aposentado" já denota o preconceito que se atribui aos idosos em nossa época na chamada sociedade do trabalho, pois seu sinônimo corresponde a "inativo", "reformado", "jubilado". Quer dizer, depois que damos um duro durante boa parte da nossa vida, trabalhando, "estando na ativa", ao ficarmos velhos não podemos mais ter "ação", estaríamos "inativos" já que não dispomos mais daquela atividade de quando trabalhávamos? Será que somente possuímos um valor quando trabalhamos, pois estaríamos na "ativa"? Segundo Marx, em seu conceito de "coisificação do ser humano", essa sociedade em que vivemos preocupa-se demasiadamente em atribuir valores a tudo, inclusive ao próprio ser humano... Como se atribui um valor a um ser humano? Dando-lhe uma profissão, uma atividade pela qual o indivíduo possa "vender" sua força de trabalho e receber algo para sobreviver nessa sociedade do trabalho. Se o indivíduo trabalha, possui um valor; se não trabalha, outro valor ou então nenhum valor. É como uma peça nova e uma velha. O indivíduo que trabalha, portanto a "peça nova", permite um funcionamento melhor da máquina; já o indivíduo que não trabalha, a "peça velha", emperra a máquina e por isso deve ser trocada...

Estar "aposentado" é uma condição, condição esta carregada de preconceito pela nossa sociedade que valoriza quem trabalha, quem tem uma profissão, numa palavra, quem está na "atividade". Tem-se, por exemplo, a ideia de que estar aposentado é o "começo do fim da vida", que este indivíduo não mais poderá demonstrar seu valor e que devemos agora simplesmente deixá-lo quieto com seus remédios e suas reclamações em algum canto sem lhe dar muita atenção. Estar aposentado "coincide" com o momento pelo qual o ser humano já não possui aquela força de outrora, justamente o momento em que ele não mais poderá vender suas energias ao capitalismo e assim demonstrar que possui ainda algum valor. São raros os mais velhos que conseguem ainda manter-se em sua função exercendo-a e ainda assim serem respeitados.

"[...] A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados e, de fato, reduziu a humanidade inteira, bem como cada um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva [...]" ("Dialética do Esclarecimento", Adorno/Horkheimer, p. 137)*.




*ADORNO, Theodor/ HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento - Fragmentos Filosóficos. Trad: Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. - 1985.


O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...