quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pré-Caju: festa sergipana?

Recentemente aqui no meu estado, mais precisamente na capital Aracaju, aconteceu uma festa que os organizadores intitulam como "a maior prévia carnavalesca do Brasil", o Pré-Caju. Devo admitir que essa festa traz ao nosso diminuto estado uma projeção nacional - ou internacional - e que por sua vez ajuda a propagar nossas belezas, nosso encanto, nossa identidade, nossa sergipanidade ao turista... Espere?! Eu disse "nossa sergipanidade"? Bom, acho que o que de fato tem de sergipano nessa festa é só o nome, "Pré-Caju", porque o resto é de outro estado, de outra cultura. Isto mesmo, a maioria absoluta dos artistas que cantam e tocam seus intrumentos em cima de caminhões de ensurdecimento massivo são baianos! As músicas aqui cantadas são de autoria dos baianos! O sotaque da festa é baiana! E boa parte dos turistas que veem prestigiar esta "grande prévia carnavalesca" também vem da Bahia!

É bom que fique bem claro: não tenho nada contra a Bahia, pelo contrário, até os admiro pela beleza de sua cultura, de sua arte, de sua história, de seu lugar e, sobretudo, pela sua identidade inquestionável e marcante. O que estou criticando são esses mesmos organizadores que creem veementemente que estão divulgando o nosso estado, o estado de Sergipe, com os artistas da Bahia. Ora, imaginem um turista que diz: "fui a Aracaju e vi Ivete Sangalo, vi Chiclete com Banana e etc." "Mas, e de Sergipe? O que você viu nesse Pré-Caju?", perguntaria alguém ao nosso desavisado turista, " O shopping Riomar!?" responderia ele.

Não pretendo aqui levantar uma bandeira em defesa de uma festa do Pré-Caju toda feita por "artistas da terra". Reconheço que não daria o mesmo ibope que as outras atrações, até porque também o ritmo ou o estilo musical, penso, não seria adequado aos nossos artistas que tanto lutam para realmente ter uma autonomia ou uma identidade enquanto artistas sergipanos, mas que isso também não deixaria de ser um desafio para eles. O que questiono é que: como uma festa meramente comercial pode se arvorar a afirmar que faz parte da cultura sergipana?! Difusora da nossa cultura sergipana se ela acontece com a maioria absoluta com artistas de outros estados? Sobretudo da Bahia?

Durante esse período da prévia, artistas baianos dão entrevistas, fazem aparições na mídia o tempo todo e convidam o aracajuano, o sergipano e os demais turistas das demais regiões do país para prestigiarem a festa. E, quando perguntados como se sentem fazendo essa festa aqui em Sergipe, eles respondem sem medo: "estamos em casa! Sergipe é o quintal da Bahia"! Os sergipanos cegos de paixão pelo seu estado esperneiam quando ouvem isso. Acham uma afronta aos nossos costumes, à nossa história, enfim, à nossa cultura. Mas eu pergunto: e esses artistas que afirmam isto estão errados? Ao meu ver, absolutamente que não, pois aqui eles treinam, ensaiam e realmente se sentem em casa, pois sempre são os principais convidados dessa "grande prévia carnavalesca sergipana" que nada tem de Sergipe! É uma festa meramente comercial, de interesses comerciais que não possui nenhuma pretensão de refletir nossa cultura!

Nos dias que antecederam essa "grande prévia carnavalesca" foi notícia aqui no nosso estado um blogueiro que reacendeu uma velha questão que sempre, de algum modo, passa por todo sergipano consciente: é muito dinheiro literalmente despejado nessa festa que enriquece poucos, principalmente os organizadores, que vem do nosso bolso. Pois é. Essa tal "grande prévia carnavalesca", assim correu na mídia, recebe ainda patrocínio e apoio dos governos federal, municipal e estadual, fora as empresas privadas; os organizadores ainda cobram os famosos abadás e seus respectivos blocos destinados para uma parte especial de foliões de boa origem gozando inclusive de segurança particular com os resistentes homens que seguram a corda chamados carinhosamente de "cordeiros"; e, obviamente, os camarotes vips destinados aos foliões que podem gastar pesadas quantias em um espaço restrito cheio de guloseimas e bebidas para simplesmente observar um caminhão de ensurdecimento massivo sendo seguido por uma multidão que acredita piamente que aquela música que está ouvindo é a melhor coisa que um ser humano poderia produzir em termos de canção, mas não pretendo me aprofundar mais nesses assuntos.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O pensamento semi-analfabeto

O ser humano, sem dúvida, é um dos bichos mais interessantes que existe na face da Terra. É o mais complexo bem como o mais convencido de suas capacidades extraordinárias diante do restante dos animais. Contudo, pelo mesmo fato de ele, o ser humano, ser o mais interessante, jamais afirme que conhece uma pessoa por completo, porque a gente pode se decepcionar facilmente embora isto não seja regra geral, mas que serve como alerta. Talvez culpa dessa coisa chamada razão que é inerente a todos nós e que justamente nos torna os menos confiáveis e os mais interessantes de todos os animais.

Pude constatar tal afirmação ao ouvir sem querer uma conversa entre dois indivíduos sobre trabalho. Os dois indivíduos nunca passaram por um curso de nível superior, mal concluíram o ensino médio e se viram obrigados a ingressar na vida em busca de trabalho, "bicos" na realidade, para complementar suas rendas parcas e tentar sustentar a família. Numa outra ocasião pude, inclusive, perceber até da dificuldade de ambos em redigir um simples texto contendo umas cinco ou seis linhas. Em suma: eram o que hoje denominam de analfabetos informais. Mas o teor da conversa que tiveram vai contradizer todos os preconceitos que muitas vezes observamos em indivíduos dessa espécie. Vou tentar transcrever o teor da conversa deles:

(...)
- Você deveria ter pedido mais!
- Tás doido! Aí é que ele não ía pagar mesmo!
- Negoção... Trabalhei a mesma coisa que você e só ganhei 20 reais...
- E eu 80... Num tá certo não?!
- Sim, mas eu trabalhei a mesma coisa que você. Entrei e saí no mesmo horário que você, pintei a mesma coisa que você e só ganhei isso? Você devia, pelo menos, ter pedido uns 150 e a gente rachava no meio...
- Mas o material é meu! O pincel, o balde, a brocha, a escada, a espátula... Todo o material é meu. É por isso que eu ganho mais que você. A tinta foi dele, aí ele me pediu o desconto, que era 120, e eu baixei pra 100 reais...
- Sim, meu amigo, mas eu trabalhei a mesma coisa que você... Fiquei  embaixo de sol do mesmo jeito que você, suei a mesma coisa que você e você ganha mais só porque tem o material? Se for assim eu também compro meu material...
- Mas sou eu quem arranja os negócios... Você fica em casa de beleza... Eu é que vou em sua casa te chamar pra me ajudar a pintar...
- Sim, mas não mude de assunto não porque você tá errado mesmo.
(...)

Como pudemos notar, parece que aqui existe um prenúncio de consciência em uma mente supostamente pronta para ser lapidada pelos discursos da razão. Ao ouvir essa conversa, fiquei sem acreditar e comecei a me lembrar das aulas de filosofia da faculdade. "Como esses caras conseguiram ter essa noção de exploração sem ter sequer ouvido falar em Marx e sua filosofia?". Parece uma vingança da Ave de Minerva àqueles que tentaram aprisioná-la nos umbrais de alguma universidade renomada. Agora descobri que ela saltita de mente em mente dos seres carentes pelo seu toque, pela sua luz, fossem eles incautos ou não. Talvez ela esteja atrelada àquilo que o brasileiro sabe de cor: a capacidade de sobrevivência.

Na universidade a todo instante somos alimentados com preconceitos sutis de que "quem está aqui é o melhor" ou "vocês foram os escolhidos", de que quem está fora precisa de ajuda, da nossa ajuda, mas muitas vezes saímos de lá tão embebidos por esse tipo de preconceito que sequer notamos que qualquer pessoa pode desenvolver um pensamento racional sem ter que necessariamente passar por uma universidade.

Os cursos de medicina e de direito, pelo menos aqui no meu estado, são os mais famosos por manifestarem essa incrível capacidade preconceituosa em relação não só às pessoas que não fizeram nenhuma faculdade como também aos próprios colegas que possuem cursos distintos. Mas claro que esse preconceito não é uma exclusividade deles, pois, como falei, eles infelizmente é que carregaram esse estigma que parece perpetuar-se até hoje.

O fato é que esses dois ditos semi-analfabetos conseguiram sintetizar muito bem o que muito aluno de faculdade que é obrigado a ler Marx jamais conseguiria em três ou quatro anos de curso! Eles conseguiram realizar aquilo que o próprio Marx já sonhara, que é o de que os trabalhadores - os seres humanos - ganhassem consciência da sua condição nessa sociedade que adora legitimar a relação de explorador e explorado tentando transmitir a ideia de que tal relação é "natural", quando na realidade não passa de uma escabrosa convenção humana. Os cidadãos do exemplo mostraram que a consciência não vem acompanhada de anos a fio de estudos em faculdades ou universidades, mas sim pela própria experiência de vida da pessoa. Não foi preciso ler Marx para saber que alguém estava se travestindo de explorador e o outro de explorado. Bastou apenas sua percepção, sua consciência, para identificar aquilo que somente o ser humano é capaz de possuir e assim identificá-lo como tal. O ser humano, portanto, está intrinsecamente envolvido com aquilo que ele tenta renegar: sua razão.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Religião: lugar de preconceito, de intolerância, de desrespeito...

Por mais que eu tente parece ser inevitável sentir-me indignado com as pequenas manifestações de estupidez, senão de arrogância de fato, diante de certas palavras e atitudes da gentinha de mente apequenada que adora estar por trás do "manto sagrado da religião". Pessoinhas que se julgam mais sábias que os outros, que se julgam superioras, melhores, providas de um senso crítico elevado e de um poder de observação pleno, correto e que não se misturam à água por acreditarem ser o vinho. Enfim, aquelas pessoinhas que se dizem donas da verdade última mas que, no entanto, são extremamente incapazes de descer desse pedestal para assumir um simples errinho de relacionamento com o outro. Acho no mínimo irônico um padre ou um pastor se arvorarem o máximo da alma humana e se julgarem tão superiores ao ponto de sequer dar o ar da graça em eventos "profanos", em eventos que não estejam ligados diretamente às suas respectivas igrejas, e, ainda por cima, acharem-se no direito de caçoar ou de desfazer dos eventos que não fazem parte do calendário de suas igrejas. Eles não precisam disso! Já estão plenos! Cheios de si!

Pois bem, vamos ao episódio que me inspirou: evento sobre problemas ligados às famílias nos dias de hoje e uma árdua labuta de uma companheira preocupada em divulgar ao máximo de pessoas possíveis, principalmente as pessoas que possuem certo destaque na sociedade, entre elas, um renomado e problemático padre bem como um pastor dessas igrejinhas de subúrbio ávido por congregar mais fiéis às suas fileiras (pelo menos antes do fato ocorrido).

Convites distribuídos e finalmente chega o dia do evento. Como de costume em qualquer evento desse porte, por mais que se encaminhe centenas de convites, nem todo mundo pode comparecer. Minha nobre colega de faina, então, ao se encontrar com aqueles aos quais lhes foram entregues os convites pessoalmente, na mais inocente intensão, acha de perguntar aos respectivos convidados o porquê de não terem comparecido, e, também como de costume, a maioria justifica sua ausência e se desculpa demonstrando assim uma preocupação em manter o relacionamento e o respeito para com o outro. Entretanto, não foi o que aconteceu aos grandes representantes religiosos.

Eis que os senhores da verdade, plenos de si, além de não terem comparecido, ainda por cima demonstram um enorme desdém e tentam até desprestigiar o referido evento por não se tratar - imagino - de temas ligados à religião... Espere... E desde quando a religião não envolve seus tentáculos em temas tão comuns do nosso cotidiano, importantes à nossa sociedade, como o tema da família? Principalmente hoje em dia que existem padres que até comentam sobre o uso de preservativo?! Como assim o tema não estar relacionado com religião? Confesso que, diante da minha pequenez intelectual, seria extremamente infrutífera minha tentativa de compreender...

O pastor ainda conseguiu proferir palavras sinalizando sua enorme sapiência no assunto: "já viu vinho misturar-se à água?", alegando, este senhor da verdade, que os temas seriam tão díspares quanto. E o grande padre de sapiência tamanha comparada apenas ao infinito? "Desses assuntos já estou calejado de ouvir e sei que não se resolve nada, pois não passa de blá-blá-blá!", de certa forma, não seria o que realmente acontece dentro das igrejas também já que não vemos nada efetivamente prático ou eficaz realizado pelos sermões muitas vezes eivados de politicagem deste também senhor da sapiência? Pior de tudo é imaginar que esses indivíduos se autoproclamam "religiosos"... Estou com medo.

Meu medo surge a partir do momento que percebo nestes senhores que eles não reconhecem ou não admitem que deveriam dar o exemplo já que, infelizmente, tratam-se de pessoas de destaque na comunidade. Se ouvisse de um político profissional talvez não me assustasse tanto, mas de um padre ou de um pastor, representantes de Deus aqui na Terra?! Se no dia-a-dia esses senhores possuem essa postura para com os pequenos, para com os eventos mundanos, profanos, que será que eles andam dizendo em suas igrejas? Pior que, também infelizmente, tem gente que leva isso a sério e passa a propagar esse tipo de comportamento soberbo que logo-logo descamba para intolerância, para o desrespeito ou para o preconceito porque coisa ruim se espalha fácil, já coisa boa...

Pois é, meus amigos e amigas deste blog-desabafo, convivendo neste mundinho, pareço nunca me acostumar aos comentários infelizes dessas mentes brilhantes que povoam esta cidadela. Quanto mais convivo, mais percebo que sou diferente, estranho, apequenado, sobretudo por assumir publicamente que não pertenço e muito menos frequento as muitas religiões que por aqui se espalham que nem uma praga. Minha afirmação para encerrar este monólogo é esta: se religião fosse realmente o lugar da verdade última, não existiriam tantas pelo mundo afora. Vamos em paz e que o senhor nos acompanhe...

sábado, 12 de novembro de 2011

Um desabafo contra a pequenez humana

Excepcionalmente re-publicarei um post de um companheiro blogueiro indignado com o comportamento daqueles que não reconhecem o valor de um árduo trabalho de engrandecimento espiritual e cultural realizado aqui nas paragens dorenses, daqueles que acreditam que os dorenses não possuem talento e que, portanto, não poderiam se destacar em nenhuma manifestação cultural, enfim, daqueles de mente reduzida! Caro companheiro Manoel, eis minha pequena contribuição e solidariedade à sua causa nobre. Concluo minha apresentação citando Nietzche e espero que as palavras dele nos sirvam de conforto ou provocação àqueles de mente apequenada: "(...) A maioria dos homens são fatigados, comuns e acomodados - a grande massa, os ordinários, os supérfluos e os que estão demais. Todos esses são covardes (...)".

DESABAFO

Estou muito triste, sim, muito triste mesmo! Pois nessa Sexta-feira, dia 4 de novembro de 2011 a viatura da Polícia Militar de Nossa Sra. das Dores parou defronte a sede do Projeto Memórias que fica situada nas dependências do Bazar da Arte. O fato é que os membros do referido Projeto tem nos últimos anos trabalhado voluntariamente em prol do desenvolvimento intelectual da nossa população, e em especial dos nossos jovens, o que por sua vez os protegem de situações de risco, pois bem, acontece que um grupo de adolescentes que são atendidos de forma gratuita por essa instituição foram impedidos de ensaiar algumas músicas que seriam apresentadas no dia seguinte em um dos colégios da nossa cidade.

Sem saírem da viatura, os policiais chamaram os meninos e disseram que eles tinham que parar o barulho ou do contrário iam levar os instrumentos para a delegacia, o que eles alegaram: “os vizinhos” ligaram reclamando, detalhe, os policiais não revelaram quem fez a reclamação, foi o que me contaram os jovens, pois eu estava no momento da abordagem em uma sala editando um vídeo e não vi o ocorrido. Daí pergunto, o mais adequado não seria os, ou “o vizinho”, entrar em contato com os representantes da Instituição e quem sabe estabelecer um acordo de convivência antes de ameaça-los enviando a polícia? Será que esses vizinhos, ou o vizinho que reclamou não é um daqueles cujas ações refletem a personalidade de um individuo prepotente, orgulhoso e sem maiores preocupações com o próximo e ao meio ambiente?

O que efetivamente encontraram os policiais ao chegarem no local? Um grupo de jovens usando drogas, bebidas alcoólicas, fazendo sexo ilícito e planejando assaltar as casas dos vizinhos e as suas também? Encontraram esses policias, armas ou instrumentos musicais nas mãos desses adolescentes? Daí eu pergunto a vocês policiais e amigos protetores da nossa sociedade, e pergunto também aos, ou porque não dizer, ao meu caro vizinho reclamante, qual é o barulho que perturba mais, as baquetas feita de uma nobre madeira tocando a pele de uma bateria ou o som de um tiro de fuzil adentrando numa janela e atingindo um inocente? Tiro esse que pode muito bem ser acionado por um jovem cujas oportunidades e habilidades tenham sido castradas por atitudes irrefletidas, por um posicionamento meramente egoísta e insano.

Será que os vizinhos, ou o vizinho, é daqueles que já se acostumou com o barulho irritante das sirenes das ambulâncias levando para os hospitais vítimas de atos violentos praticados por certos jovens? Será que não são “esses” uma construção nossa? O que grita mais alto, um acorde de uma guitarra bem tocada ou o soar desafinado da sirene de uma viatura policial perseguindo jovens bandidos e perigosos? Diante do que o mundo apresenta aos nossos jovens, é ou não é relevante o apoio a iniciativas como essa, apresentando possíveis soluções para os eventuais problemas que nos acomete? Poderiam os policiais ter ido embora sem procurar no ato da abordagem os responsáveis pelo estabelecimento e pela referida instituição a fim de expor a situação dialogando com a outra parte envolvida?

Bem, o fato é que estamos “errados mesmo”, somos efetivamente culpados por não termos dinheiro para construir uma sala acústica para os nossos alunos, e nem mesmo sede própria, somos culpados por eles saírem tristes com os seus instrumentos nas mãos lamentando o ocorrido, somos culpados por nossa cidade não ter um local adequado para os nossos jovens exprimir os seus talentos artísticos, sim, talvez sejamos culpados por muitos deles se tornarem bandidos perigosos, daqueles que matam pais de famílias inocentes para roubar, daqueles que matam sem piedade aqueles que são pagos para nos proteger, vocês policiais.

Sim, talvez mereçamos mesmo ir presos por “perturbarmos” a ordem pública, e de lá da delegacia sermos encaminhados aos magistrados, processados, e condenados pelo crime de formação de bons cidadãos.
Bem, são exatamente três horas da manhã, estou com a cabeça doendo muito, a gastrite a mil, o estômago dói demais, e do meu olho está descendo uma água ardida que alguns chamam de lágrima, e essas caem nos mais variados formatos, lamento, revolta, tristeza, angustia, muito pesar...

Manoel M. Moura (http://blogdoprojetomemorias.blogspot.com/)

domingo, 23 de outubro de 2011

O que é ser dorense?

Mercado municipal de Nossa Senhora das Dores em 2007. Foto: acervo pessoal

Perguntado recentemente a respeito de um trabalho colegial por alunos que realizavam uma pesquisa sobre os "artistas" dorenses em função das comemorações alusivas à emancipação política de Nossa Senhora das Dores, fui tomado por uma reflexão sobre o que é ser dorense. A jovem aluna perguntara-me se eu sabia o que era ser dorense e, de bate-pronto, responde-lhe que ser dorense era ser um cidadão consciente das coisas, dos assuntos, enfim , um cidadão consciente e conhecedor dos acontecimentos que ocorrem nesta cidade além de ser participante deles.

Logo em seguida à minha breve resposta continuei refletindo sobre o que havia falado acreditando que minha resposta estaria incompleta ou ainda muito vaga. Imaginei que, no caso dorense, o aspecto mais relevante além de marcante facilmente visível na história e cultura daqui é notadamente o de influência católica, sobretudo nas duas principais festas do ano - a da padroeira, que ocorre no mês de setembro, e o da semana santa, no mês de abril -, mas ainda existem as outras festas, as chamadas "profanas", como a festa do boi e a micarense - a primeira que acontece em novembro e a segunda no mês de abril ou maio. Mesmo identificando essas festividades ainda assim não me contentei em afirmar que isso nos serve como possível "identidade cultural", ou ainda como um ethos dorense.

Igreja matriz de Nossa Senhora das Dores em 2007. Foto: Acervo pessoal.

Acredito que essa identidade não estaria apenas ligada ao aspecto religioso já que ele inclui apenas a religião católica e segrega as demais manifestações religiosas - como as igrejas protestantes e algumas pequenas manifestações de religiões afrodescendentes localizadas e marginalizadas bem como alguns grupos espíritas - e não-religiosas organizadas pelo poder público ou privado como as "festas profanas" já que estas dependem muitas vezes de algum investimento financeiro por parte de alguém ou de algum grupo financeiro. Óbvio que as manifestações religiosas de influência católica exercem um grande poder cultural na cidade - como o próprio nome da cidade já denota -, mas acredito que tais manifestações não poderiam ser únicas ou exclusivamente responsáveis por criar essa complexa identidade dorense.

Não pretendo aqui me estender a uma discussão profunda e absoluta sobre essa suposta "identidade dorense", ao contrário, pretendo sim encontrar uma resposta que, pelo menos, satisfaça essa ideia inquietante de que exista essa "identidade dorense". Uma ideia que sirva, por exemplo, como aos baianos de que, quando falo em acarajé, em abará, em axé e outros correlatos culturais, remeta-me imediatamente ao estado da Bahia ou a Salvador.

Claro que tal esforço incorre no possível equívoco de acreditar e reduzir que em toda Bahia apenas existam tais coisas sem levar em consideração as cidades do interior ou mesmo os bairros periféricos da capital onde o foco cultural é muito mais forte e evidente senão peculiar. Contudo, acredito que criar ou identificar uma ideia que possa reduzir - e isso é uma tarefa hercúlea ou até mesmo perigosa - a identidade de um povo ou de um lugar é um trabalho necessário para que seu prórprio povo também se identifique e assuma estar envolvido ou ligado umbilicalmente com a história da comunidade e, consequentemente, consigo mesmo.

Procissão da festa católica da padroeira de Nossa Senhora das Dores, setembro de 2010. Foto: acervo pessoal.


Falar em identidade de um lugar pressupõe também uma identidade do indivíduo, um conhecimento produtivo ou positivo do próprio indivíduo em relação a si mesmo e com o local onde ele está inserido. Por isso a necessidade de eventos tradicionais nas cidades para assim confirmar a marca da comunidade na história, e aqui concordo que as festas de cunho religioso que acontecem aqui em Dores, como os penitentes no período da semana santa, serve-nos para construir nossa identidade - ressaltando que essa manifestação religiosa dos penitentes não fora originada pela igreja católica aqui presente, mas sim por uma espontânea manifestação popular, segundo comentários de colegas professores, e que, em alguns momentos, alguns padres até foram contrários.

Imagino que as muitas histórias bem como os muitos personagens notórios e marcantes de um lugar também servem como identidade de um lugar. Personagens como "Zé das Cobras", ex-delegado da cidade e já falecido, que, dizem, andava com uma cobra sobre o pescoço talvez com o intuito de assustar os marginais; ou ainda histórias como a de um notório cidadão dessas paragens que diz ter colocado um urubu cozido para os amigos comerem alegando ser uma galinha; ou comidas peculiares de sabores únicos como a Traíra preparada por "Jarinho" e seus familiares...Todas essas "coisas" constituíriam nossa identidade, nosso modo de ser, nosso ethos, e elas são únicas, somente acontecem aqui fazendo parte da nossa memória coletiva.

Não sou um antropólogo, um sociólogo ou um especialista qualquer para afirmar cientificamente que o ethos dorense é exatamente isso, não obstante, para mim, essas "pequenas" histórias e seus "pequenos" personagens conseguem constituir o que poderíamos denominar de uma identidade. E não poderia deixar de comentar também das comidas, dos trejeitos das pessoas, do sotaque ou até do jeito de pensar típicos daqui. Aquele que é conhecedor dessas coisas, que as guarda com carinho, que as registra, é também um historiador e sobretudo um cidadão consciente do papel de sua identidade para com o seu lugar visto que as histórias de um lugar e as demais "coisas" características servem como memória, seja ela individual ou coletiva. E em cada lugar essas histórias nunca são ou serão as mesmas, muito pelo contrário. Por isso afirmei que ser um cidadão dorense é ser conhecedor dessas histórias e desses personagens, é ser mantenedor e difundidor delas, porque só quem é dorense de coração é quem as conhece.

sábado, 24 de setembro de 2011

E o tempo passou

Tenho que admitir algumas verdades que são tão evidentes quanto a morte que nos aguarda. Verdades estas que nos levam a concluir de forma tão peremptória algo que achávamos já superado: sou um indivíduo solitário. Sobretudo depois que acreditei ser melhor morar em outra cidade que, embora pequena e limitada se comparada à capital sergipense, é aconchegante. Claro que sempre suspeitei de minha tendência para a solidão, no entanto, a existência de pessoas que compartilhavam desse meu ponto de vista a respeito da solidão - meus amigos - ajudavam-me a compreender e a lidar com ela de um modo frutífero.

Sou forçado a admitir, por exemplo, que não sou mais aquele cara de vinte e poucos anos preocupado em ter um emprego “decente”, como dizia constantemente, ao lado de pessoas que sentia prazer ao estarem próximos de mim e compartilharem dos mesmos problemas. Tenho que admitir que os amigos de outrora não mais gozam dos mesmos desejos, dos mesmos sonhos, dos mesmos problemas...

Talvez a beleza da vida esteja nesse reconhecimento muitas vezes tardio de que a vida é esse eterno movimento, essa mudança constante. É essa a condição do ser humano na história. Ontem me via um jovem cheio de expectativas vendendo insegurança, hoje me sinto vazio de expectativas e possuo uma segurança que desconfio se ela me satisfaz de fato. Lembro-me que até os amores eram diferentes, puros, cegos... Hoje até me questiono se o amor existe mesmo ou se é um artifício da natureza para unir esse ser - o humano - que se acha superior aos animais no intuito de manter a espécie.

Estou apenas comparando os momentos com certo ar de amadurecimento ou distanciamento para enxergar melhor o que foi ou o que eles representaram na minha vida. Claro que cada momento possui sua especificidade, sua maneira única de ser, de mostrar-se... Mas que dá uma certa saudade isso sim eu não posso me dar ao luxo de negar.

Também me questiono se tal percepção é um mero reflexo de minha cultura ocidental que tendencia meus pensamentos, meus sentimentos, meu jeito de ser, minha personalidade, enfim, minha vida. Dizer que sou livre dessas interferências talvez seja uma pretensão vã, ilusória. Até que ponto poderia realmente afirmar com todas as letras que sou incólume às influências de uma moda, de uma tendência, de uma ideologia ou ainda de uma saudade?

Hoje meus companheiros são outros sim - se é que posso chamá-los de companheiros de verdade como os de outrora não possuo essa certeza -, mas algo reconheço e admito: esses ditos companheiros de hoje não são mais aqueles de toda hora, de todo momento, dos mesmos desejos, quereres e sonhos. Sentar à frente da casa de minha mãe e definir o que iríamos fazer era uma praxe sagrada. Às vezes faltava um ou outro, mas aí tratávamos de buscá-lo onde quer que estivesse para completar os aventureiros da noite ou a denominação que a gente achava até então adequada, “Os Kerouac’s”, numa óbvia alusão ao On The Road desse autor conhecido dos anos setenta. Detalhe: apenas um de nós de fato lera o tal romance e nos contara os momentos que achávamos ter tudo a ver com nossos espíritos, com nossos "princípios". Nosso objetivo era claro: diversão para o espírito. Conhecer nossa cidade através de duas rodas (bicicletas, não motos) era uma consequência dessa busca; conversar sobre tudo e todos também; viver era a regra geral.

Hoje nosso nome de grupo não soa com tanta força como antigamente, e chega a ser até meio engraçado tentar resgatar aqueles momentos que jamais se repetirão. Pergunto-me até se seria desespero de nossa parte ousar tal façanha, ou melhor, se teríamos realmente esse direito de fazê-lo.

Agora, queridos companheiros, é tentar enxergar à nossa frente – como fazíamos naquela época – e buscar novas “aventuras”, novos desejos, reconhecendo que nosso passado foi algo maravilhoso além de proveitoso e que nos serve como alicerce para aquilo que nos tornamos hoje..


Meu irmão Mário (cod-nome Pi, "membro honorário"), Jhonny (irmão de Tony e mascote) e eu, nos idos anos 90.
Tony, eu, Marcos Aurélio (popular Wacko) e Sidney (popular Magal), a formação original dos Kerouac's.
Tony, Marcos e André, outro "membro honorário".

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Por que adquirir um produto "pirata"?

Embora alguns intelectuais e teóricos de hoje negarem ou até condenarem as críticas ao capitalismo inauguradas principalmente pelo velho Marx quando da sua obra máxima O Capital, alegando uma defasagem no mínimo suspeita, acredito que existam certos aspectos que seriam praticamente inevitáveis não relacioná-los à filosofia marxista, sobretudo sua crítica, ao que, no dizer atualizado dos frankfurtianos, podemos denominar de um “capitalismo tardio”.

Não posso deixar de assumir que os ideais de comunismo proposto por Marx de fato não conseguiram germinar de uma forma tão plena ou então saudável nos moldes do seu pensamento, aliás, como muitos teóricos até concordariam, no entanto, reconhecendo essa “derrota prática” do comunismo marxista, ao menos sua crítica parece de fato ter bastante fundamento e ainda hoje nos servir como alicerce para identificarmos e originarmos uma compreensão mais coerente acerca do problema em questão.

É certo que, para Marx, numa interpretação completamente despretensiosa, na qualidade de filosofante, o próprio capitalismo traria dentro de si elementos que posteriormente o derrocaria. É o princípio dialético inaugurado pelo mestre de Marx, o filósofo também alemão, Hegel, segundo o qual a contradição seria a mola mestra, a engrenagem maior e responsável por mover toda a máquina chamada “modo de produção capitalista”.

Essa contradição estaria, por exemplo, sendo retratada nas relações de trabalho em que o patrão depende do empregado, o explorador do explorado e vice-versa, criando uma relação fundamental entre os opostos, oposição esta típica do capitalismo.

Numa visão mais ampla, ainda seguindo o viés marxista, o próprio capitalismo, à medida que dá sinais de avanço, de progresso, no bojo desse mesmo movimento estaria seu inverso, o atraso, o retrocesso. No capitalismo, existe essa ilusão de que o progresso é necessário, que é importante, ficando subjacente os elementos que irão consumir esse mesmo progresso, esse mesmo avanço. É como se dentro do próprio capitalismo já germinasse um novo modo de produção que o suprimiria. É o que percebemos hoje, por exemplo, no conflito existente entre os grandes donos de empresas contra o comércio dito “pirata”, principalmente nos produtos que estão relacionados à área de informática e que dependem, portanto, da utilização de algum computador.

Acredito que as facilidades ocasionadas pelo advento do computador foram até certo momento esperadas pelos grandes fabricantes desse instrumento com bastante entusiasmo, não obstante, talvez eles não tenham previsto aquilo que o velho Marx já nos mostrara que é justamente essa forma dialética de funcionamento que o capitalismo traz consigo. Do mesmo jeito que ele, o capitalismo, oferece as mil e uma facilidades para sua manutenção, simultaneamente também traz consigo os elementos que poderão enfraquecê-lo e assim suprimi-lo (no sentido da aufheben hegeliana).

Enquanto ouvimos campanhas e mais campanhas para não adquirirmos produtos piratas, produtos esses que seriam frutos do “crime organizado”, de acordo com a descrição dada pelas grandes empresas que estariam inseridas no mercado denominado por eles de “legalizado”, mesmo assim, são eles, os ditos ilegais, que vendem de maneira significativa além de possuírem uma acessibilidade imensa para uma boa parte população e em qualquer lugar do país!

Imaginem que em uma feira municipal, que acontece semanalmente em qualquer cidadezinha do interior de Sergipe, existem bancas que comercializam desde CD’s de músicas, de jogos para vídeo-game, DVD’s de filmes, arquivos em MP3, JPEG, AVI e até, pasmem, programas para computador “hackeados” ou “copiados ilegalmente”. Isto sem comentar na variedade que é imensa e bem maior que as lojas ditas especializadas e que vendem esses produtos em alguns lugares da capital.

Agora pergunto: será que alguém que more no interior de Sergipe iria ser levado a adquirir um “produto original” viajando para a capital, trocando sua própria cidade, sua feira e perder a comodidade de comprá-lo ao lado de sua casa? Acho meio improvável senão impossível. Não possuo a certeza no assunto, mas da mesma forma que uma fábrica que diz empregar dezenas ou centenas de trabalhadores “legalizados”, as fábricas “ilegais” de produtos “piratas” deve contratar do mesmo jeito, óbvio que na clandestinidade e com menos privilégios trabalhistas, mas, ainda assim, estaria empregando do mesmo jeito que as outras fábricas.

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...