Um entendimento sobre a corrupção

Corrupção, segundo o dicionário Larousse, "ato ou efeito de corromper, decomposição, depravação", ou ainda, "ação de seduzir ou seduzir-se por dinheiro, presentes, etc., levando alguém a afastar-se da retidão". À primeira vista, este conceito da palavra nos soa um tanto estranho tendo em vista que muitas vezes vemos o termo corrupção associado a políticos, a pessoas que foram eleitas para serem nossas representantes no nosso tipo de governo. Todavia, o que muitos não sabem é que esse termo, esse "desvio moral", está tão presente em nosso cotidiano, diria até em nossa própria história enquanto civilização, que não nos damos conta. A corrupção não está apenas no parlamentar que aceita algum agrado ("propina", na linguagem politiqueira) de alguém em troca de algum benefício, por exemplo; ela pode estar na nossa simples relação com alguém que nos poderia oferecer algum tipo de serviço ou "vantagem", como quando conhecemos algum caixa bancário que por amizade nos atende na frente de outras pessoas que estavam na fila antes de chegarmos. Óbvio que o "tamanho" da corrupção, se é que podemos chamar assim, em comparação com a do parlamentar é ínfima contudo não deixa de ser uma forma de afastar o funcionário bancário de sua retidão, de sua "ética no trabalho", que no caso seria atender as pessoas por ordem de chegada na fila, portanto, um pequeno ato corrupto que realizamos talvez inocentemente. Mas por que isso acontece? Por que o ser humano sempre permitiu que suas relações fossem maculadas por isso que é claramente um desrespeito à própria humanidade? Por que, em suma, existe a corrupção?

Muitos pensadores, teóricos ou filósofos tentam nos dar uma resposta. E isso não é de agora, pois, como havia dito anteriormente, a corrupção está em nosso meio desde que o ser humano sentiu a necessidade de se viver em grupo. Lembremo-nos da filosofia socrática que detinha como meta o entendimento da verdadeira virtude, da retidão de ações, não aquela virtude superficial ou de aparência pela qual os atenienses da época de Sócrates propagavam e que por sinal o levaria à morte, mas aquela que é tão evidente como a luz do Sol presente na Alegoria da Caverna em Platão, seu discípulo. Essa virtude que nos serve como norteadora e que traga, não para poucos, mas para todos, o real sentimento de humanidade, algo que seja uma ligação com toda a espécie e em benefício dela. Era isto a proposta da democracia grega, afinal, o próprio termo democracia já denota isso: "governo de todos". E o que Sócrates percebeu já em sua época naquele século V a.C.? Que esse governo de todos não passaria de mais uma ilusão criada pelos poderosos para se deliciarem com o controle público expropriando justamente aqueles que o viam como detentores de uma suposta virtude política. Sócrates morreu por desmascarar essa falsa virtude e conceituar o que vem a ser ética. Como conseqüência, criou algo que hoje nos serve como princípio de compreensão para nossas ações morais, sejam elas em qualquer âmbito das relações humanas.

Mas o que Sócrates, além da Ética, nos legou? A idéia de que eu, você, nós, eles, a humanidade, todos necessitamos de um princípio que norteie nossas ações em função de um caminho reto para o benefício geral: configura-se assim a tão procurada felicidade. Quando alguém tenta burlar esse caminho, tem-se um ato corrupto. Quando se suborna um guarda de trânsito em privilégio próprio, por exemplo, desrespeita-se não somente as leis, mas o seu semelhante, a humanidade, visto que as leis foram criadas para serem aplicadas a todos – salvo, obviamente, os governos que não aceitam os princípios democráticos. Por isso existem as religiões, os partidos políticos, enfim, as instituições que privilegiam ou tentam privilegiar o ser humano enquanto humanidade e não grupos seletos de interesses egoístas, mesquinhos ou escusos. Todavia, por mais que as religiões ou partidos políticos possuam em seu interior essa idéia de ligação com o todo em função de um caminho único que nos possa levar ao bem maior, existem seres humanos dotados de uma falsa virtude que, historicamente, desde a era dos gregos, por exemplo, não conseguem enxergar o ideal socrático da verdadeira virtude, do caminho que nos leve à verdadeira felicidade, enfim, o caminho que nos leve ao bem maior.

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