quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A Luta do Bem contra o Mal!?
A imgem do tanque é perfeita para representar o poder do nosso Estado diante dos traficantes. O que me pergunto é: será que somente agora os poderosos do nosso Estado se deram conta da sua capacidade, da sua força? Por que não o fizeram em tempos anteriores? Por que será que eles acreditaram que somente agora poderiam fazer alguma coisa em conjunto com os governos estadual e municipal?
Os traficantes fugiram. O morro foi tomado. A mídia, como de costume, realiza o seu show com chamadas e mais chamadas demonstrando sua incrível força de influenciar e convencer as pessoas de que ali aconteceu uma coisa "esplendorosa" ao mesmo tempo que "assustadora". Ouvimos ainda os responsáveis pela grandiosa e bem realizada missão bradarem que se tratava de uma "luta do bem contra o mal". Nesse ponto acredito que deveríamos, no mínimo, ter o máximo de cuidado...
Sabemos que a realidade social não é tão simples para ser compreendida. Não existe uma fórmula única e universal que nos faça entender por completo como funciona a estrutura social de qualquer sociedade. Aprendemos ainda que cada sociedade possui suas prerrogativas, suas formas, enfim, sua estrutura própria para se mostrar como tal - e isto sem falar nos contextos históricos que certamente, para não dizer fatalmente, possui uma influência olímpica sobre os cidadãos e consequentemente sobre sua sociedade.
Surge um discurso que resume, que sintetiza tudo como uma luta "simples" entre heróis e vilões. Os heróis, sabemos quem são através de suas fardas; os vilões, pela falta delas. Aliás, não só pela falta das fardas como também de outras coisas, tais como emprego, educação, qualidade de vida... Longe de mim proteger traficante ou bandido, mas uma pergunta me salta de uma forma tão evidente que é impossível não fazê-la: será que as pessoas pedem para se tornarem marginais, traficantes, ladrões e etc?
Sei que talvez possua uma compreensão romântica acerca do indivíduo, porém, prefiro entender através deste viés no qual a sociedade, o meio em que se vive, possui um papel extremamente poderoso na formação do indivíduo. Acredito que um indivíduo não se torna ladrão por uma escolha livre, individual, plenamente sua, mas sim pelas circunstâncias, pelo contexto em que aquele indivíduo está inserido. Mas isso também não quer dizer que todos os indivíduos já nasçam "bonzinhos". Cabe à sociedade moldá-los, enquadrá-los aos ditames e normas que ela prescreve. Para se formar um cidadão é necessário que haja uma interação entre a sociedade e os indivíduos que a compõem, entre aqueles que detêm o poder e os que não têm, podendo ser um poder legalmente legitimado ou não. Não pretendo aqui me esmiuçar tanto sobre esse assunto, pretendo apenas demonstrar a complexidade ao se resumir uma luta que não apresenta personagens tão bem definidos como num filme americano de bang-bang.
Sintetizar que um traficante é o mal e os policiais e soldados são o bem é no mínimo fruto de um pensamento rasteiro, sem muito aprofundamento ou ainda fruto de uma tentativa mal-fadada de relacionar essa luta a algo religioso, santo. Claro que a mídia em geral montou seus holofotes para os nossos "bravos heróis", mas se esqueceu de dar ênfase no tratamento dado aos moradores por parte de alguns oficiais ("bravos heróis") quando entravam nas pequenas casas construídas a muito suor como se entrasse nas "linhas inimigas" ou ainda "na casa do mal".
Claro que não estive lá para observar em loco, mas a própria mídia forneceu esses "pequenos momentos" que poderíamos chamar também de "saldo negativo permitido", já que esses pequenos detalhes não se comparam à grandiosa missão que os nossos "bravos heróis" realizaram na ocupação e consequente expulsão dos traficantes dos morros cariocas.
Definir uma luta desse porte como simplesmente um combate entre o bem e o mal é no mínimo complicado, como afirmei antes, demonstrando ainda uma certa incapacidade do nosso Estado em de fato compreender a realidade que o cerca tentando ainda limitar essa realidade a uma má compreensão carente de subtefúrgios e passível de preconceitos históricos ao povo que mora naquelas paragens.
É bom lembrar que, segundo a literatura antropológica brasileira, a formação das favelas se deu justamente pela ausência ou incapacidade do Estado brasileiro em dar as devidas atenções aos seus indivíduos, no caso, ex-soldados vindos da Guerra de Canudos - aliás, outra incapacidade do nosso Estado de compreender efetivamente a sua própria realidade.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Por que me tornei professor?
Óbvio que o professor, assim como a escola, dispõe de um papel extremamente fundamental na sociedade, todavia, essa relevância não desobriga os pais de também reconhecerem o seu. Talvez este meu discurso soe um tanto antiquado, voz de um professor que sempre ouve dos demais colegas que antigamente era muito melhor, que havia um respeito maior e que o professor poderia bater no peito e bradar sem medo que era um professor. Hoje em dia isso mudou bastante. Discursos e mais discursos demonstrando que aquele período era, digamos assim, “desvirtuado educativamente”, coexistem com as explosões de direitos e mais direitos individuais que em muitas vezes não vislumbram a simples ideia de que o indivíduo não vive sem o coletivo.
Óbvio também que exageros aconteceram e sempre acontecerão no mundo da escola, mas isso não quer dizer que podemos incorrer em "liberalidades conquistadas" pelo alunado ao longo de sua impúbere história, aliás, será que este aluno de hoje sabe realmente dar valor ou reconhecer o que é história, melhor ainda, a sua própria história?
Às vezes me questiono se isso é uma única obrigação do professor, o de transmitir conhecimento ao aluno, e não uma disposição dele, do aluno, de também demonstrar interesse, pesquisar, sobretudo nos dias de hoje no qual a internet, por exemplo, surge como um instrumento valiosíssimo na construção e no acesso ao conhecimento. Isso sem comentar os livros que as séries iniciais recebem do poder público – claro que com problemas estruturais aqui e acolá, mas nada comparado aos anos iniciais da nossa fragmentada educação na história brasileira – ou materiais e equipamentos mais modernos possíveis que a escola recebe ora através de programas do governo, ora através de aquisição própria.
Instrumentos, material escolar, livros, laboratórios de informática – claro que em alguns casos precariamente, mas reforço minha comparação ao momento histórico anterior – salas para acompanhamentos de alunos com necessidades diferenciadas, enfim, uma série de recursos e ações que tentam auxiliar essa árdua tarefa do professor de “simplesmente” transmitir conhecimento aos nossos alunos, mas, ainda assim, ele não demonstra o interesse devido.
Culpa do professor que não sabe utilizar os recursos para tornar suas aulas mais atraentes? Culpa do professor porque não sabe dominar uma sala com quarenta ou cinquenta alunos no início ou no auge da puberdade? Culpa da escola que não dá a devida atenção estrutural adequada ao professor e por isso ele se sentir isolado, acuado com seus alunos, sem um acompanhamento efetivo da equipe escolar? Culpa do sistema educacional que permite uma relação promíscua entre educação e política, pelo menos aqui no Estado de Sergipe? Ou culpa do governo federal que acha simplesmente que o problema da educação será resolvido com o envio de mais e mais parafernálias eletrônicas ao professor que em muitas vezes sente preguiça ou medo de encostar naquela “coisa que brilha e faz luz” (o datashow)?
Será que Platão não estaria certo ao pôr sobre a entrada de sua Academia “Entre aqui apenas aquele que souber geometria” selecionando e valorizando religiosamente aquilo que os alunos de hoje desprezam tanto? Certo dia, numa aula de história, comentava justamente sobre a quantidade de mortes que ocorreram ao longo da nossa história para que se chegasse à Educação Pública, a educação que os pobres e excluídos pudessem ter acesso e assim, através dela, emanciparem-se, tornarem-se cidadãos livres e capazes de serem os senhores de seus destinos, de seus pensamentos, mas eis que de repente ouço alguém próximo comentar: “o professor tá viajando de novo. Que chatice!” Travei meu pensamento na hora...
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Um professor pode usar um jaleco branco?
Essa semana fui acometido por uma imagem no mínimo intrigante: um professor vestido num jaleco branco. Devo admitir que há muito vira uma imagem desse tipo, mas a associava sempre a algo antigo, ultrapassado, que professor ou escola alguma jamais utilizasse mais tal indumentária.
Conversei com alguns colegas de trabalho sobre o acontecido e fui surpreendido por um comentário que me fez questionar meu "pré-conceito". O comentário versava sobre o fato de que, segundo esse colega, todo professor deveria usar essa roupa pois ela impõe respeito diante dos alunos. Achei esse comentário estranho, pois jamais passou pela minha cabeça que um professor dependesse de uma roupa para conseguir respeito entre seus alunos.
Ao refletir sobre o assunto em questão, recordei-me de minhas aulas de sociologia na universidade onde meu estimado professor falava sobre o papel que a indumentária pode exercer sobre as pessoas numa dada sociedade. Citou o exemplo do médico e em seguida do advogado em que ambos, se não usassem as roupas que usam, não iriam surtir o efeito de "diferenciados" dentro da nossa sociedade na nossa época atual e que não obteriam, consequentemente, o respeito almejado por ambas as profissões.
Claro que essa constatação sociológica - se é que podemos chamá-la assim - está carregada de certa razão, pois não apenas os médicos e advogados como também outras profissões atribuem à roupa um papel fundamental que ela deve exercer para se conseguir um reconhecimento do status social. Por isso o padre ou o pastor vestirem-se diferentes das demais pessoas; por isso os artistas famosos ou os juízes também se utilizarem deste mesmo artifício. No entanto me questiono se outras profissões deveriam seguir esse mesmo princípio como é o caso do professor.
Ao aceitarmos conviver em sociedade, pelo menos assim aprendi no meu breve curso de Introdução à Sociologia, somos também obrigados a aceitar determinadas atribuições que o nosso papel social nos coloca. Por isso sermos impelidos em determinadas circunstâncias a agirmos e vestirmo-nos de forma "adequada" para não sofrermos muito com aquilo que o velho Durkheim chama de coerção social. Se bem que, ainda de acordo com o sociólogo, ninguém em sociedade estaria livre de sofrer tal influência já que tal característica é inerente a toda sociedade humana.
Nesse sentido, parece que o uso de determinadas indumentárias ou apetrechos possuíriam lugares e tempos determinados para serem utilizados de forma adequada. Não me sentiria bem, por exemplo, trajando uma sunga de praia em um velório, embora eu pudesse fazê-lo desde que estivesse ciente - ou não! - das consequências que minha atitude causaria não só diretamente a mim como também, de forma indireta, aos meus amigos ou à minha família.
Sempre me questionei a respeito das roupas ditas determinadas para o convívio social em determinados momentos ou lugares. Nunca admiti a ideia de vivermos num país de clima tropical e sermos obrigados a usar calça jeans e uma camisa "fechada" para entrar num prédio público. Questiono-me ainda se tal comportamento não seria fruto de um resquício do nosso "deslumbramento" daquilo que vem de fora do nosso país.
Sem comentar que o uso desse jaleco, assim ouvi ou li em algum lugar, também teria sido um resquício da ditadura militar que infligiu o nosso país nos anos sessenta, numa tentativa, talvez válida, de aumentar a auto-estima do professor naquele período - assim como a utilização, por exemplo, do termo "disciplina" para atribuir às matérias que ensinamos na escola.
O colega que trajava o dito jaleco branco não era tão idoso assim, mas isso não quer dizer que ele seria uma pessoa de espírito envelhecido sobretudo enclausurado numa época que não mais voltará - um saudosista. Talvez queira apenas destacar-se, chamar a atenção para a necessidade de conseguir respeito já que a nossa "opção-condição" social - essa coisa ainda mal explicada que nos leva a sermos professores - infelizmente não nos dá de maneira satisfatória e ampla. Mas ainda insisto em querer acreditar que uma roupa não possui esse poder todo num mundo tão moderno...
sábado, 11 de setembro de 2010
A Palavra do Senhor
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Mais um comentário sobre a educação brasileira
Recentemente ouvi na tevê um comentário dentre outros no mínimo provocativo de uma filósofa brasileira, Viviane Mosé, num desses raros momentos de lucidez da nossa televisão, no qual coincidentemente só acontece mais vezes na tevê Aperipê, afiliada aqui em Sergipe da rede Brasil (o programa dominical dessa emissora chama-se "Conexão Roberto D'Ávila"), sobre a educação brasileira. Sua idéia, assim me recordo, girava em torno da afirmação de que o nosso modelo educacional estava há muito ultrapassado e que ainda por cima apresentava resquícios da ditadura outrora existente no nosso país. Só para se ter uma idéia, o simples termo "disciplina" quer nos dizer o quê? Pois é. Algo que vem dos quartéis generais daquele momento histórico e que hoje não se aplica, ou pelo menos não se aplicaria, aos saberes que encontramos na nossa escola. Como enquadrar filosofia, sociologia ou, pior ainda, arte num conceito de disciplina? Não ficaria algo no mínimo contraditório já que tais disciplinas tentam justamente criar certo caráter de liberdade completamente avesso a isso que se chama "disciplina"? Mas isso é apenas a ponta do iceberg de acordo com a provocação por ela desenvolvida além de não propor uma reforma, mas sim outra forma de se educar no nosso país! Óbvio que é uma tarefa hercúlea, mas, pelo menos, sou obrigado a concordar com ela diante do que vemos na nossa educação de hoje. Ainda não conseguimos identificar, por exemplo, se o nosso aluno tem que prestar um vestibular, se tem que arranjar um emprego ou "simplesmente" prepará-lo para "ser" humano. A nossa escola vivencia esse conflito de identidade e reflete tal comportamento numa formação incompleta do indivíduo que pretendemos incluir na sociedade. Em vez disso somos obrigados a seguir projetos e programas impostos por governos com problemas de afirmação que demonstram um peculiar despreparo ao lidar com isso que chamamos de educação. Basta que um novo governo assuma o poder executivo e assim percebermos o saco de boas intenções que eles possuem em relação à educação, mas que não querem mudar nada significativamente, talvez propositadamente por acreditarem achar a educação um saco de vespas. Isso sem comentar a realidade dos professores que de algum modo estão já acostumados com tal situação não conseguindo mais exercitar aquela capacidade de se adaptar ou até de criar de fato alguma coisa que porventura proponha mudar radicalmente nosso processo educativo. Na realidade o professor mais parece um cego em tiroteio quando um novo programa de governo é implantado, daí ele perceber que é "melhor" ficar com o que já tem que já é conhecido além de confiável. Lembro-me ainda que a filósofa comentava sobre a perda do encantamento que o nosso aluno encontra na sala de aula ilustrando que o aluno tem uma vida ativa fora da escola: ele brinca, se diverte, se movimenta, enfim, está ativo ampliando suas experiências em relação ao mundo que o rodeia, contudo, ao entrar na escola, mais precisamente na sala de aula, se depara com uma organização (disciplina) na qual é obrigado a seguir, a começar pela simples arrumação das cadeiras enfileiradas em que todos se vêem forçados a se sentarem um atrás do outro prestando atenção ao quadro negro ou a algo que o esforçado professor traga para conseguir prender a atenção do aluno por alguns momentos para que só assim ele possa desenvolver sua capacidade de "raciocínio abstrato" diria até metafísico, ou seja, ele pára de ser ativo para se tornar passivo só que nem todos possuem esse "dom" e daí são logo taxados de irrequietos, super-ativos ou simplesmente alunos que não têm a capacidade de estarem de forma "comportada" em sala de aula. Mas, finalmente, de quem é a culpa? Com certeza o processo cultural brasileiro está envolvido em nossa educação e vem se arrastando ao longo da nossa recente história criando raízes tão profundas na qual o indivíduo que ouse arrancá-las esteja também disposto a deflagrar uma guerra violenta contra esse status quo poderoso.
sábado, 17 de julho de 2010
Simples compreensão sobre gênero
sábado, 19 de junho de 2010
O Clima de Copa do Mundo está no ar!
Reconheço, mais uma vez, que essas minhas palavras são como uma gota, não mais no oceano, mas no universo ainda incomensurável. É uma luta inglória esse discordar daquilo que é comum à esmagadora maioria que se encontra influenciada por alguns e que, sobretudo, não consegue fugir dessa condição. E tal condição se torna mais evidente quando a televisão cobre algum grande evento. Aí é que se mostra o poder de influência que os poderosos grupos exercem sobre essa maioria cega. É o que vemos agora na tevê: "O clima de Copa está no ar"!
Sempre que se aproxima o período de um grande evento esportivo como o da Copa do Mundo de futebol as pessoas são impelidas, sentem-se eufóricas, ficam "vidradas" em frente a uma tela de tevê na expectativa de assistir aos jogos da seleção brasileira de futebol. Até aí diria que é aceitável já que o povo brasileiro possui quase que uma relação promíscua com a televisão quando assume que ela serve para o lazer. E sempre nesse período surgem alguns paladinos da sabedoria tentando mostrar o quanto fragilizados, induzidos ou manipulados se encontram os telespectadores aos caprichos desse grandioso evento esportivo ou, "pelo menos", dos organizadores do citado evento.
Como havia dito no início, minhas palavras são menores que uma brisa diante de um furacão chamado Copa do Mundo, no entanto, mais uma vez, essa coisa chamada consciência que insisto em alimentar, obriga meu espírito a expor-se, a aliviar-se tal qual uma válvula de escape de fato. Por isso estou aqui mais uma vez exercitando isso que, assim imagino, realizo com o devido prazer. Mas vamos lá. Vocês já ousaram - eu disse ousaram mesmo - sair às ruas durante os jogos da seleção brasileira? Deixar Galvão Bueno narrando suas emoções prontas e burocratizadas além de nada gratuitas em algum jogo da seleção brasileira? Eu consegui tal proeza – no começo foi difícil! Realizei tal façanha na Copa de 94 e fiquei mais do que surpreso... Foi uma experiência única! Foi quase que a mesma sensação de dar o primeiro beijo. Uma alegria, uma sensação de tranqüilidade, de contato imediato com algo divino - e olha que não havia ingerido nenhuma bebida alcoólica ou alguma coisa alucinógena. Senti-me o último ser humano da Terra! A cidade estava completamente parada. Nenhum pé de gente surgia. Pude caminhar tranquilamente por uma avenida que normalmente é bastante movimentada, mas como não estava no "normalmente", como estava no jogo da seleção brasileira, pude gozar desse privilégio. Lembro-me que foi durante esta caminhada que começaram a surgir as indagações, os questionamentos sobre o momento. Foi o despertar da consciência do mesmo modo que Neo ao acordar no casulo-bateria da Matrix. A partir daí me questionei se ficar vidrado na tevê assistindo aos jogos da tão vitoriosa seleção brasileira me faria melhor. Ora, pensei, é apenas um entretenimento como qualquer outro e, assim penso, todos tem o direito de se divertirem. Até aí tudo bem. O problema foi quando o Brasil fez um gol e aquele barulho ensurdecedor de pessoas gritando ao mesmo tempo causou em mim outro espanto. Claro que antes desse dia eu fazia a mesma coisa, só que não me dava conta de que era um barulho tão uníssono e tão integrado. Foi impressionante ouvir os gritos de gol em comunhão, parecia que a humanidade inteira estava falando - tive essa impressão, pois passava por um condomínio de apartamentos. Daí surge de uma janela um cidadão berrando que o "Brasil será campeão", que "vai ganhar tudo" e, agora vem o ponto que pretendo me aprofundar, que "sentia orgulho em ser um brasileiro" tremulando e beijando a bandeira dependurada em sua varanda... Aí sim comecei a sentir-me preocupado. Voltei à realidade. Quer dizer que ser brasileiro é sentir ou assistir a vitória de uma modalidade de esporte numa competição mundial? "Ser patriota é torcer pelo Brasil na Copa do Mundo", como já ouvi de uma campanha publicitária?
Jogo terminado e as coisas lentamente vão retornando ao seu funcionamento rotineiro. Rotineiro? Outro cidadão passa com seu veículo todo pintado nas cores da nossa bandeira; outro estende a bandeira no capô do seu carro e sai em velocidade buzinando e berrando que o "Brasil está na final e que será o campeão"; uma mulher sai com um bebê ainda de colo pulando na calçada e se esquecendo que aquela criança - talvez um sobrinho, um filho, sei lá - não entende nada daquilo e que pode até estar se assustando. Enfim, pessoas se aglomeram nas ruas com aquele zum-zum-zum típico de festa se vangloriando do acontecido "heróico"! Isso mesmo, "heróico"! Pois é, um grupo de jovens atletas, no auge da sua forma física, ganhando rios de dinheiro pra bater uma bola e ainda por cima serem reconhecidos como "heróis"! Falar que são heróis um Antônio Conselheiro ou até mesmo um Zumbi seria um crime hediondo perto desses que taxaram os jogadores de "heróis". Diriam eles: heróis são esses jogadores porque sofreram muito pra trazerem a taça; heróis são esses jogadores porque jogam não por paixão ou até mesmo por mera diversão, mas porque recebem um salário, uma compensaçãozinha financeira que lhe dá o direito de trocar de carro como se troca de humor - e carro importado, viu! A televisão, que não tem nada de besta, aproveita cada imagem, cada momento dessa Copa, tudo sempre voltado ao "patriotismo" ou um "apelo patriótico" do povo brasileiro. Alguma coisa na imagem sugere um verde e um amarelo. O telejornal vem com o apresentador direto do país-sede trazendo notícias diretas de lá. Todos querem saber o que acontece com os nossos jogadores e o nosso técnico - que ironia - deixa-os trancafiados quase incomunicáveis... Questão: será que não acontece mais nada no país para ser visto ou mostrado? Não tão importante quanto a Copa. Tem-se que dar privilégio aos assuntos ligados à Copa. Mais da metade da programação dos telejornais tem que estar voltado para ela. Para que se preocupar com um pai que violentou a filha por um bocado de tempo e ainda por cima teve filhos com ela? A Copa está aí! Para que se preocupar com a movimentação de alguns parlamentares - nossos maravilhosos representantes - que querem alterar "só um pouquinho" uma lei tão importante para a nossa simbólica democracia que é a lei do "Ficha Limpa"? A Copa do Mundo está aí! Nesse momento tão importante torna-se um tabu falar de política. Se bem que política não é só aquilo que os parlamentares, por exemplo, fazem.
As pessoas não conseguem diferenciar que a todo instante faz-se política. Basta que haja apenas duas pessoas conversando - aliás, já tratei sobre isso em um dos meus artigos aqui postados. Então, como não ser político mesmo vendo a seleção brasileira de futebol batendo sua bolinha? Acredito que nem nesse momento há escapatória. Ao torcer pelo Brasil, seja com fanatismos ou não, faz-se a demonstração de uma idéia de nacionalidade, de nação brasileira, no nosso caso e isso é um tema político – obviamente que carecendo de certo grau de aprofundamento. Só que a maioria não entende o quão complexo ser efetivamente patriota é, no sentido pleno do termo. Que ser brasileiro é tratar e se envolver com os assuntos políticos ligados ao interesse dessa nação chamada Brasil, e não apenas dos pouco mais de vinte jogadores que foram selecionados. Briga-se "tão bem" porque o técnico convocou fulano e deixou beltrano de fora, mas não se briga quando um político consegue safar de acusações que um homem público não deveria possuir. Entende-se tão bem as regras da Copa do Mundo, do jogo, mas não se dão ao trabalho de entender como são as regras efetivas que sucedem no nosso parlamento!? É isso que é ser brasileiro? Deixar uma minoria resolver esses problemas, aliás, nossos problemas que afetam mais diretamente as nossas vidas que um campeonato esportivo?
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Desabafo contra a pequenez humana
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Depois do eurocentrismo, o cariocentrismo...


sábado, 17 de abril de 2010
Pensar é um crime!?
sábado, 3 de abril de 2010
Um Pensamento Genuinamente "Americano"
Teria sido espoliação? Guarda-me, Tanatzin, de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação dos metais preciosos tirados das Américas.
Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "Marshall Montezuma", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.
Não. No aspecto estratégico, dilapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo.
No aspecto financeiro, foram incapazes - depois de uma moratória de 500 anos - tanto de amortizar capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.
segunda-feira, 29 de março de 2010
As pessoas acham que nunca vão morrer?
É esta a ideia que pretendo comentar aqui ainda que brevemente. Peço que perdoe os possíveis e inevitáveis erros que porventura insistam em imiscuir-se nesse pequeno texto. Prenda-se tão somente à ideia que nele está presente.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
“Eu devia estar contente...”
domingo, 7 de fevereiro de 2010
A verdade não existe!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Ser humano, ser buscante da felicidade
O ser humano é um ser que vive em constante conflito. É personagem de uma guerra que ele próprio sustenta e que, em alguns casos, ele mesmo sabe como pará-la – eis então a grande problemática proposta por Sócrates do "conhece-te a ti mesmo". O ser humano ocidental retém em seu cerne fortíssimas influências judaico-cristãs e por isso é recipiente de uma dualidade de mundos: a sua realidade que lhe impõe os percalços da vida, mas que o coloca na expectativa de outra vida. O ser humano vive na Terra, porém com a expectativa de encontrar o Paraíso (um lugar perfeito). Pelo fato de o ser humano não se identificar com este mundo, ele então põe todas as suas esperanças em outro mundo. Mas, por que então ele não se identifica ou não se vê realizado, satisfeito neste mundo do qual ele faz parte? Eis o princípio da insatisfação, do sentimento de infelicidade dado ao fato de que o homem jamais se pretende completamente satisfeito com qualquer coisa com a qual ele consiga realizar. É justamente graças a este conflito, este sentimento de nunca estar satisfeito, que se notam as principais atribulações na vida de qualquer pessoa transformando-a, com isso, em alguém infeliz não em relação ao mundo do qual faz parte, mas em relação a si mesmo. O ser humano, por ser infeliz consigo mesmo, passa a transformar as coisas que toca em coisas também infelizes, transforma o mundo a sua volta em algo infeliz – talvez por causa disso as muitas vicissitudes que estão aí pelo mundo, já que o ser humano não consegue satisfazer-se com o que tem em mãos. É claro que algum "otimista" irá bradar o oposto ao se deparar com alguém que lhe demonstre tais argumentações, entretanto, embora ele tente comprovar que exista felicidade, mesmo que ligeira, não pode deixar de concordar que essa "felicidade ligeira" não passa na realidade de pura ilusão, de uma desdenhosa miragem que o engana e, pior ainda, que o vicia a buscar desde sempre esse "tipo" de fortuna. Transforma-o em um ser perseguidor da "coisa alegre" que, ao ter provado uma vez e assim gostado, deseja mais e mais se viciando. Em sua perseguição desenfreada pela bendita felicidade, termina esquecendo ou finge esquecer-se das atrocidades que realiza nessa sua busca. Ele quer porque quer a qualquer custo possuí-la e está disposto a pagar qualquer preço – inclusive a sua própria felicidade... Mas, afinal de contas, o que é felicidade mesmo?
O objetivo da vida é ser feliz?
Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...

-
Essa semana fui acometido por uma imagem no mínimo intrigante: um professor vestido num jaleco branco. Devo admitir que há muito vira uma i...
-
Falar da felicidade não é tão fácil. Sobretudo nos dias de hoje em que as pessoas acreditam estar mais perto dela. É fato que o ser humano ...
-
Dentre os muitos temas polêmicos tratados pela filosofia, existe um que me deixa bastante apreensivo quando vou tratá-lo em sala de aula. O ...