domingo, 20 de dezembro de 2009

É proibido ser infeliz!

Devo confessar que estou bastante apreensivo com o rumo das coisas do jeito que estão indo... Violência, aquecimento global, desrespeito ao ser humano, corrupção e agora, vejam vocês, estamos até proibidos de sermos infelizes. Pois é... Talvez esta última constatação seja a mais preocupante, porque me vejo numa sociedade que impede até de ficarmos tristes com esses fenômenos tão iminentes e corriqueiros em nosso cotidiano, pois deveríamos colocar tais coisas debaixo do tapete e agir como se nada estivesse acontecendo de ruim no nosso mundo. Essa parece ser a palavra de ordem do momento. Tal constatação me veio como um soco no estômago quando uma matéria de uma revista me mostrara que as empresas estão preocupadas atualmente em contratar "pessoas com grau de satisfação elevado" ou então aquelas pessoas que conseguem ser "felizes". Criaram até uma forma de medir o grau de felicidade desse possível candidato! Nesse sentido, noto que a tristeza transformou-se em doença, em patologia psíquica, em um mal que pode ser remediado e assim controlado. Razão disso? Ora, uma pessoa infeliz produz menos! De que adianta alguém preocupado com o aquecimento da terra, com a corrupção em nossa política ou com a violência urbana cada vez mais descontrolada se isso não lhe ajuda em nada, ou melhor, não contribui para o crescimento econômico do nosso país? Vamos acabar com esses infelizes!!! Fim àqueles que não conseguem ser felizes nesse mundo repleto de males e sofrimento!


O velho Marx já nos alertara... O capitalismo seduz, seduz e ainda por cima cria um véu de desumanização no próprio ser humano que ele se vê incapaz de fugir. Não que eu seja um marxista ferrenho – longe de mim tal responsabilidade – mas basta lermos A Ideologia Alemã, por exemplo, para percebermos certos elementos no mínimo alarmantes que o capitalismo exerce sobre nós e daí pudermos assim compreender por que não podemos sequer ser infelizes nos dias de hoje. Parece até um palavrão ou uma doença contagiosa alguém chegar até outro e assumir "companheiro, estou infeliz..." De imediato surgem os grandes entendedores com suas orientações de auto-ajuda acreditando piamente que para a felicidade existe uma fórmula universal, uma fórmula única a todos. Talvez seja muito mais fácil convivermos com a infelicidade do que o contrário, afinal é esta a condição do ser humano, faz parte de sua natureza. A infelicidade está cravada na alma de qualquer ser dotado de razão, que busque, ao menos, exercitá-la. Todavia, como vivemos numa sociedade que força justamente o oposto, percebemos o contrário... No dia em que um mendigo ler um livro de auto-ajuda e me convencer o quanto o livro mudou sua vida para melhor, talvez aí sim eu passe a dar um pouco mais de crédito aos autores dessa suposta corrente "filosófica", como muitos deles se arvoram a afirmar. Aliás, talvez seja por isso que os mendigos não conseguem empregos ou se dar bem na vida, porque são infelizes, e por isso a sociedade dá – mais uma vez – as costas para eles mostrando-lhes o quão eles estão errados ao negar esse mundo tão esplendoroso e fantástico do capitalismo tardio feito exclusivamente para os que são felizes.

sábado, 7 de novembro de 2009

Da difícil arte do pensar puro

Esse ímpeto cego é mais forte. Essa vontade cega, errante, caótica, contraditória, ergue-se constantemente das cinzas a fim de encontrar um nada que não sei para o quê serviria... Fico a espera de alguém, de alguma pessoa que me traga um alento, uma atenção, uma palavra inteligente, maliciosa, sarcástica. Não essa coisinha bonitinha, encaracolada que toma todos os cantos desse novo lugar onde insisto em querer ser feliz. Alguém que me traga saudade, que abra meus pensamentos para o novo, algo que me distraia de maneira contundente, aprazível, com conteúdo. Mas sei que sou um estúpido por esperar isso. Sei que esses momentos já passaram, não voltarão mais (a não ser em minha lembrança vicejante). Sei e reconheço que em verdade espero por mim mesmo. Espero que esse alguém que volte ou que venha do nada seja eu mesmo, travestido pela árdua viagem das aventuras que sempre quis ter e meu bom senso non sense transformou-o em algo incapaz, impotente diante dos músculos poderosos dessa coisa metida a racional que entrou em meu espírito à força pela educação, pela academia... São raros os momentos que me dispo (não por inteiro) para que uma asa há muito pronta para voar tome seu destino e siga por esse mundo afora, repleto de sonhos e imaginações e ideias perfeitas. O desejo insiste, inunda meus poros ávidos. Talvez por culpa da música alienígena que insiste em amolar o ouvido saltitante ou emocionante ao extremo dos meus vizinhos (se brincar, eles nem me ouvem!). Não ligo. Que ouçam! Tomara que ouçam! Que ouçam algo diferente, que sinta que possuem pensamentos que desejam também ser ouvidos, aliás, com a mesma importância que seus instintos mais pueris, mais baixos de fato. De vez em quando me passa pela cabeça a inocente ideia de tentar ser igual a eles: beberrões, crianças grandes com brinquedos caros, com seus instintos aflorando e tomando o controle dos seus, agora, mais fortes corpos; homens-crianças que acreditam piamente que tem razão em todos os seus menores desejos... Mas não consigo ser de tal forma. O mundo é testemunha que tento. O problema é que durante essa tentativa, aquela pela qual sou apaixonado, aquela maldita e bendita Ave de Minerva, não mais me permite o luxo de ser medíocre (talvez esteja sendo um tanto presunçoso), pois logo me vem o olhar criterioso, o distanciamento que qualquer ser pensante possui como fundamental característica, e sinto-me quase que como em um laboratório a examinar cuidadosamente aquele jovem garoto que se diz homem brincando ou tentando ainda ser gente grande; ou ainda aquela mulher que recai sobre suas mãos a grande missão de tomar conta de um templo quase sagrado, mas ao mesmo tempo quase sem crédito e ela desesperadamente tentando levar a sério... Pobres crianças... Será que não entendem que nunca irão crescer verdadeiramente? Preocupam-se em ser adultos com tanta veemência, em ser inteligentes, em ser pessoas experientes, brigam para serem ouvidas, e no fundo choram como qualquer criança mimada tentando chamar a atenção da mãe (que não está mais por perto). Seus desejos devem ser tratados como certos, como verdadeiros, devem ser respeitados, ouvidos, os outros que se virem para tentar falar alguma coisa, pois nessa grande brincadeira, o dono da bola é quem diz como são as regras do jogo. E todos, absolutamente todos, acham-se os donos da bola. Que sejam. Eu é que não tenho mais fôlego, nem capacidade instintiva para brincar de bola...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um breve comentário da condição do aposentado na contemporaneidade brasileira

Um indivíduo resolve se aposentar depois de um bom tempo trabalhando. Nos dias de hoje, tal situação é extremamente corriqueira, pois, graças aos avanços conseguidos para o progresso da humanidade trazidos com a industrialização e as reivindicações dos trabalhadores, um indivíduo agora pode descansar em sua velhice depois de um bom tempo vendendo sua força de trabalho para se sustentar. Chega a ser algo parecido como uma premiação poder descansar depois de quase uma vida inteira dedicada ao trabalho... Espere um momento? Eu disse "premiação"? Será que podemos chamar de fato "premiação" uma remuneração que um indivíduo recebe depois de se aposentar? Será que é a mesma coisa que ele recebeu durante o tempo em que trabalhou incluindo todas as vantagens de quando estava na ativa? Será que aquilo que ele recebe como aposentado condiz realmente com o que ele merece ganhar?

Ao observarmos um salário em qualquer função – salvo algumas raras situações tidas como especiais – nota-se uma "simbólica" perda de certos valores assim que o indivíduo dessa função resolve "sair da ativa", sobretudo aqui no Brasil. Dar-se a entender que esse indivíduo não é uma pessoa que deu duro em sua vida para sustentar seus patrões e a si mesmo merecendo uma recompensa pelos seus esforços, mas sim uma "peça", uma "coisa", que pelo motivo de ter-se afastado, finalmente para o merecido descanso, deve ser trocado por estar velho ou "desvalorizado"... Duas coisas que podemos interpretar nessa situação: 1) a condição do homem contemporâneo tratado como "coisa"; e 2) o preconceito a uma camada da população que perde seu "valor econômico" diante da nossa sociedade pós-industrializada, no caso, os mais velhos, os idosos.

Um filósofo alemão do século XIX, desconfiado com as promessas que a industrialização e o progresso trariam ao ser humano, resolve estudar sua época e descobre fatos no mínimo alarmantes. Ele percebe que o ser humano, criador dessa modernização industrial, estava perdendo sua liberdade, sua autonomia, sua capacidade de simplesmente "ser" humano. Karl Marx, o dito filósofo, irá então conceituar o nosso sistema econômico e social como baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção que visa o lucro empregando trabalho assalariado e, o que é pior, transformando o ser humano em "coisa". Eis nossa primeira problemática. Seria este, portanto, o único propósito do capitalismo? Por que sermos transformados em "coisas", ou melhor, em "peças" nessa grande sociedade agora pós-industrializada?

Voltemos ao caso do indivíduo que resolveu se aposentar. A própria palavra "aposentado" já denota o preconceito que se atribui aos idosos em nossa época na chamada sociedade do trabalho, pois seu sinônimo corresponde a "inativo", "reformado", "jubilado". Quer dizer, depois que damos um duro durante boa parte da nossa vida, trabalhando, "estando na ativa", ao ficarmos velhos não podemos mais ter "ação", estaríamos "inativos" já que não dispomos mais daquela atividade de quando trabalhávamos? Será que somente possuímos um valor quando trabalhamos, pois estaríamos na "ativa"? Segundo Marx, em seu conceito de "coisificação do ser humano", essa sociedade em que vivemos preocupa-se demasiadamente em atribuir valores a tudo, inclusive ao próprio ser humano... Como se atribui um valor a um ser humano? Dando-lhe uma profissão, uma atividade pela qual o indivíduo possa "vender" sua força de trabalho e receber algo para sobreviver nessa sociedade do trabalho. Se o indivíduo trabalha, possui um valor; se não trabalha, outro valor ou então nenhum valor. É como uma peça nova e uma velha. O indivíduo que trabalha, portanto a "peça nova", permite um funcionamento melhor da máquina; já o indivíduo que não trabalha, a "peça velha", emperra a máquina e por isso deve ser trocada...

Estar "aposentado" é uma condição, condição esta carregada de preconceito pela nossa sociedade que valoriza quem trabalha, quem tem uma profissão, numa palavra, quem está na "atividade". Tem-se, por exemplo, a ideia de que estar aposentado é o "começo do fim da vida", que este indivíduo não mais poderá demonstrar seu valor e que devemos agora simplesmente deixá-lo quieto com seus remédios e suas reclamações em algum canto sem lhe dar muita atenção. Estar aposentado "coincide" com o momento pelo qual o ser humano já não possui aquela força de outrora, justamente o momento em que ele não mais poderá vender suas energias ao capitalismo e assim demonstrar que possui ainda algum valor. São raros os mais velhos que conseguem ainda manter-se em sua função exercendo-a e ainda assim serem respeitados.

"[...] A indústria só se interessa pelos homens como clientes e empregados e, de fato, reduziu a humanidade inteira, bem como cada um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva [...]" ("Dialética do Esclarecimento", Adorno/Horkheimer, p. 137)*.




*ADORNO, Theodor/ HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento - Fragmentos Filosóficos. Trad: Guido A. de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. - 1985.


quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um entendimento sobre a corrupção

Corrupção, segundo o dicionário Larousse, "ato ou efeito de corromper, decomposição, depravação", ou ainda, "ação de seduzir ou seduzir-se por dinheiro, presentes, etc., levando alguém a afastar-se da retidão". À primeira vista, este conceito da palavra nos soa um tanto estranho tendo em vista que muitas vezes vemos o termo corrupção associado a políticos, a pessoas que foram eleitas para serem nossas representantes no nosso tipo de governo. Todavia, o que muitos não sabem é que esse termo, esse "desvio moral", está tão presente em nosso cotidiano, diria até em nossa própria história enquanto civilização, que não nos damos conta. A corrupção não está apenas no parlamentar que aceita algum agrado ("propina", na linguagem politiqueira) de alguém em troca de algum benefício, por exemplo; ela pode estar na nossa simples relação com alguém que nos poderia oferecer algum tipo de serviço ou "vantagem", como quando conhecemos algum caixa bancário que por amizade nos atende na frente de outras pessoas que estavam na fila antes de chegarmos. Óbvio que o "tamanho" da corrupção, se é que podemos chamar assim, em comparação com a do parlamentar é ínfima contudo não deixa de ser uma forma de afastar o funcionário bancário de sua retidão, de sua "ética no trabalho", que no caso seria atender as pessoas por ordem de chegada na fila, portanto, um pequeno ato corrupto que realizamos talvez inocentemente. Mas por que isso acontece? Por que o ser humano sempre permitiu que suas relações fossem maculadas por isso que é claramente um desrespeito à própria humanidade? Por que, em suma, existe a corrupção?

Muitos pensadores, teóricos ou filósofos tentam nos dar uma resposta. E isso não é de agora, pois, como havia dito anteriormente, a corrupção está em nosso meio desde que o ser humano sentiu a necessidade de se viver em grupo. Lembremo-nos da filosofia socrática que detinha como meta o entendimento da verdadeira virtude, da retidão de ações, não aquela virtude superficial ou de aparência pela qual os atenienses da época de Sócrates propagavam e que por sinal o levaria à morte, mas aquela que é tão evidente como a luz do Sol presente na Alegoria da Caverna em Platão, seu discípulo. Essa virtude que nos serve como norteadora e que traga, não para poucos, mas para todos, o real sentimento de humanidade, algo que seja uma ligação com toda a espécie e em benefício dela. Era isto a proposta da democracia grega, afinal, o próprio termo democracia já denota isso: "governo de todos". E o que Sócrates percebeu já em sua época naquele século V a.C.? Que esse governo de todos não passaria de mais uma ilusão criada pelos poderosos para se deliciarem com o controle público expropriando justamente aqueles que o viam como detentores de uma suposta virtude política. Sócrates morreu por desmascarar essa falsa virtude e conceituar o que vem a ser ética. Como conseqüência, criou algo que hoje nos serve como princípio de compreensão para nossas ações morais, sejam elas em qualquer âmbito das relações humanas.

Mas o que Sócrates, além da Ética, nos legou? A idéia de que eu, você, nós, eles, a humanidade, todos necessitamos de um princípio que norteie nossas ações em função de um caminho reto para o benefício geral: configura-se assim a tão procurada felicidade. Quando alguém tenta burlar esse caminho, tem-se um ato corrupto. Quando se suborna um guarda de trânsito em privilégio próprio, por exemplo, desrespeita-se não somente as leis, mas o seu semelhante, a humanidade, visto que as leis foram criadas para serem aplicadas a todos – salvo, obviamente, os governos que não aceitam os princípios democráticos. Por isso existem as religiões, os partidos políticos, enfim, as instituições que privilegiam ou tentam privilegiar o ser humano enquanto humanidade e não grupos seletos de interesses egoístas, mesquinhos ou escusos. Todavia, por mais que as religiões ou partidos políticos possuam em seu interior essa idéia de ligação com o todo em função de um caminho único que nos possa levar ao bem maior, existem seres humanos dotados de uma falsa virtude que, historicamente, desde a era dos gregos, por exemplo, não conseguem enxergar o ideal socrático da verdadeira virtude, do caminho que nos leve à verdadeira felicidade, enfim, o caminho que nos leve ao bem maior.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O problema da Educação em Sergipe - alguns comentários

A vida acadêmica é recheada de qualidades que muitos as julgam como fulcrais para o exercício da profissão escolhida ou até mesmo para o bem conduzir da vida enquanto um "cidadão consciente". O estudante de Direito, por exemplo, é tomado pelos conhecimentos teóricos concernentes à sua área; o de Filosofia é invadido pelos também conhecimentos teóricos pertinentes à sua área; o de História passa a conhecer os conteúdos que deverá tratar e assim por diante. Nesse período de aquisição ou de preparação, qualquer um desses estudantes se vê acometido por inúmeras teorias muito bem elaboradas, muito bem desenvolvidas e que, a priori, permitem certa aproximação de "uma" realidade, ou seja, conhecem-se os conceitos, os fundamentos e, mais tarde, ao concluir seu respectivo curso, ele é tido como preparado e conhecedor desta realidade ensinada. Mas aí, enfim, ele cai na realidade "real", perdoando a redundância. Qualquer um desses estudantes regressa ou ingressa no quotidiano tentando de maneira desesperada aplicar ou adequar o escopo adquirido anteriormente a esta "nova" realidade. Talvez com os cursos cuja finalidade sejam tão somente transmitir um conteúdo técnico não aconteça desta forma, porém, em cursos da área de humanas, principalmente, nota-se um abismo entre essas duas realidades. No curso de Filosofia, por exemplo, o acadêmico atravessa um determinado período de tempo somente adquirindo as incontáveis teorias filosóficas a fim de, ao menos, tentar interpretá-las e pô-las em conformidade com a realidade à qual este estudante está inserido. Ele pode conseguir ou não, vai depender da capacidade que ele manifesta diante da aplicabilidade das tais teorias e de seu poder intelectual ou interpretativo em desenvolvê-las. Mas como ele pode aplicar o que aprendera à sua realidade? Procurando "desesperadamente" uma interpretação pífia sequer de alguma grandiosa obra ou de um bem trabalhado sistema filosófico trazido à luz por um teórico de um lugar muito distante e, na maioria das vezes, de outro período histórico? Como tentar interpretar e trazer à nossa realidade pensadores como Marx se ainda vivenciamos uma Idade Média, se ainda encontramos nos grandes escalões da sociedade indivíduos preocupados em manter uma ordem pautada em uma religiosidade formal e absurdamente pretensiosa? Como podemos nos adaptar ao pensamento de um Nietzsche se ainda encontramos indivíduos que expurgam ou condenam um único corajoso "rebelde" que tenta mostrar que a religião judaico-cristã não passa de mais uma empresa financeira como qualquer outra cujo único produto a ser vendido é a fé? Eis, então, o cerne dos conflitos que podem vir a surgir na mente deste estudante de Filosofia, a depender de sua capacidade interpretativa ou até mesmo de sua personalidade, da sua propensão àquilo que de certa forma violenta seu espírito. Tudo aquilo que ele procurou adquirir ou que lhe disseram para adquirir aparentar-lhe-á, à primeira vista, incompatível e inexeqüível. Como este pobre estudante de Filosofia, no curso de licenciatura, por exemplo, pode chegar a uma sala de aula do ensino médio e falar que "a religião trata as pessoas como se fossem cordeiros para o abate bem como a própria sociedade" se todos seus alunos já foram desde pequenos catequizados e jamais poderiam, segundo seus educadores, lidar com tal opinião? Caberão ao estudante-professor duas saídas: esquecer tudo que aprendera em relação à crítica ou ao menos ao desenvolvimento dela em seus alunos diante da realidade em que compartilham; ou ser de fato um crítico, um provocador ferrenho de tudo e de todos e arcar com as conseqüências de sua bravura podendo ser condenado, no mínimo, como um pária, um marginal ou até mesmo um louco. Entretanto, as disciplinas que não necessitam de certa visão crítica, os cursos meramente técnicos, não sofrem este tipo de problema, pelo contrário, são até muito bem aceitos e difundidos até como mais valiosos que os outros, em especial o de humanas – vale ressaltar que não estou tentando criar uma validade ou uma importância maior a uma determinada área do conhecimento, como a de humanas, estou sim tentando mostrar uma suposta supremacia que a sociedade administrada pós-moderna em Sergipe vem dando aos conhecimentos puramente técnicos, se isto não se aplicar em todo país.


A pretensão de se pôr em prática tudo que aprendera cai por terra e o desesperado estudante vê-se acuado tentando criar adequações estranhas que consigam, ao menos, permitir algumas relações com o conhecimento adquirido em sua vida acadêmica. Isto sem comentar os casos em que muitos destes estudantes das sofridas Humanidades não conseguem sequer perceber essa desconexão porque não tiveram a oportunidade – ou talvez a coragem – de ter acesso a ela. Os Estados, principalmente nas regiões do Norte do Brasil, são guiados por grupos políticos e financeiros, por interesses meramente corporativistas – senão "coronelistas" de fato –, por grupos da aristocracia, da High Society rural que conseguem alternar-se no poder do Estado de acordo com as circunstâncias e necessidades particulares do momento.


Aparenta-nos que qualquer estudante da área de humanas ou não, enquanto cursa, é bombardeado de mais e mais informações passando assim a criar uma espécie de obrigação em reter, em armazenar, em transformar qualquer conteúdo em dado técnico. O estudante-professor se vê praticamente forçado a retransmitir mimeticamente e de uma forma mais sucinta possível o que fora adquirido. Agora ele fará parte, bem como seu aluno, de outro círculo vicioso também pautado em pura aprendizagem mimética.


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A felicidade existe e está na sua sala


Enquanto uns poucos se vangloriam em seus lares com suas bugigangas eletrônicas, seja no deleite de ouvir alguma música em algum aparelho altamente sofisticado ou no simples ato de redigir alguma coisa em um computador de última geração, com a impressão de que vive em um momento muito mais "feliz" que o seu antepassado que não gozava de tais "felicidades", outros, todavia, não tem sequer conhecimento dessas coisas e estão com a impressão de que a felicidade reside em satisfazer-se com as mínimas necessidades básicas, cito, por exemplo, água e comida. Mais ainda, existem até aqueles que creem que a felicidade está nesses fabulosos e engenhosos objetos transparecendo até que eles são "entidades vivas", "seres superiores" ao próprio homem no sentido de que eles, os ditos objetos, têm mais valor que a própria pessoa. É esta, então, a essencial característica desses tempos pós-modernos: a super valorização das coisas. O ser humano agora passou a ser tratado como mais um mero objeto, alguma coisa sem alma e que só é realmente gente quando possui coisas – de preferência muitas para ser tratado como tal. Talvez isso possa parecer algo um tanto melodramático, piegas, mas não é à-toa quando Marx, lá pelos idos do século XIX, já afirmava que esse dito progresso tecnológico ou até industrial, em verdade não passava de mais uma nova forma de escravizar o ser humano iludindo-o com mais uma promessa de falsa felicidade. Se realmente essas coisas maravilhosas realizassem aquilo que o ser humano tanto espera delas, acredito que inevitavelmente o mundo estaria outro deveras diferente. Claro que na qualidade de filosofante que sou, não posso afirmar com plena certeza que a felicidade pode ou deva ser isto ou aquilo, não obstante, fazendo uma breve alusão a Dionísio, o aeropagita, posso afirmá-la negando-a. Talvez esse imenso desfiladeiro que existe entre o reconhecer o que realmente é a felicidade seja uma marca indelével do caráter, melhor, do espírito humano no qual lhe é inerente. Talvez até a insatisfação de fato esteja amalgamada a nossa condição e nós, insatisfeitos por natureza, não a aceitamos e por isso bradamos em busca daquilo que supostamente nos falta. Seria até, assim penso, mais cômodo para nós crermos que a felicidade não existe, mas sim uma insatisfação e uma busca constante, inerente, daquilo que nos falta. Talvez.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um desabafo contra a religiosidade farisaica


Padres, padres e mais padres tomam a cidade outrora pacata. A todo instante algum sabedor de religião diz ser dono da palavra verdadeira, da última palavra em religião, da encarnação da palavra, e por aí vai. São eles todos doutores! Nefastos e idiotas doutores com toda sua pompa, sua audácia malfazeja, seu caráter mesquinho, pequeno burguês, hediondo contra um raro espírito livre nesse mesmo lugar outrora pacato. Esses pulhas invadem até o silêncio da madrugada arvorando-se donos de algo que jamais podem ou poderão controlar, apenas habitar, invadir, tal qual os portugueses realizaram aos humanos que aqui já habitavam e foram todos violentados em todos os aspectos. Vestem-se com toda a pompa, com toda a soberba, com todo o invólucro de falsidade, de enganação, e o que é pior, ludibriam e expropriam as pobres almas que fazem questão de serem pobres almas, de estarem ali, reclusos e apequenados em suas desumanidades corriqueiras, cotidianas, acreditando que Deus acredita neles, "porque o padre assim o disse..." Estúpidos todos! Que morram nisso que chamam de vida provida de algo distorcido que eles insistem em chamar de liberdade! Ligo a mínima! Estou cansado dessa briga de ninguém, dessa ideologia imunda e ao mesmo tempo emancipadora que não ajuda a ninguém que não a queira. Por que tem que ser dessa forma? Por que os estúpidos sentem-se atraídos pelos estúpidos? Por que obrigar, de modo sucinto, mas fatal, aqueles ditos jovens, habituados ao único momento efetivamente livre de suas vidas predestinadas ao fracasso, à burocracia, às estatísticas, enfim, ao nada, a fazerem algo que lhes doem a alma. "Gostem de Deus que Ele gostará de vocês!" É mentira! Tudo não passa de mais um engodo! Deus não ama ninguém a não ser a si mesmo! Por isso idolatra-se e pede idolatria; por isso deseja que todos façam algo por Ele, em nome dEle, seja para o mal ou para bem, não importa! Apenas usem o nome dEle e lembrem-se sempre que Ele é o superior e que eles, vocês, nós, não passamos de uma cópia mal sucedida, mal acabada de uma tentativa de sermos deuses. Mas eles, vocês, nós somos todos deuses!

E o maldito burguês de preto com seu "chapeuzinho de cuia" chega em seu automóvel estupidamente limpo por alguém que achou estar fazendo uma boa ação ao santo homem quando lhe permitiu que lavasse seu automóvel. Ele é um bispo, alguém tido como especial porque é um dos emissários diretos de Deus aos "homens de bom coração". E os coitados, esfomeados, retirantes espirituais, crêem nisso tal qual o dia nasça amanhã. Chegam a dar seu findo dinheiro em nome de uma festa também estúpida, já que é organizado por homens de almas estúpidas, na busca de estarem praticando uma boa ação. Isso não é uma boa ação! Não passa de um atestado de mediocridade, de aceitação de inferioridade que eles querem que todos a tenham que nem a porra de um câncer espalhado pelo corpo todo há muito tempo. Aquele odor que é exalado de suas vestes pretas, que simbolizam a pureza, o respeito para com aquele ser dito maior, não passa de um casulo, de uma crisálida, de um recipiente em que se guarda tudo que é de podre daquilo que chamamos "humano". Aposto que se Deus existisse ele reprovaria tal comportamento soberbo, luxurioso, de desfilar sob roupas pomposas para chamar a atenção do coitado, em todos os sentidos, para que ele lhe diga: "Olha, ali vai um enviado divino!". Divino do inferno, só se for. Não passa de um demoniozinho de quinta categoria tentando equiparar-se ao próprio Lúcifer em maldades que ele teima que sejam bondades. O diabo não acha que pratica maldade alguma, pelo contrário, é só observar porque ele ri. E o pobre Deus o faz assim? Aprendemos que não. Deus jamais ri de nada, se o fizer será um louco, todos devemos então seguir mais esse mandamento subentendido nas entrelinhas de sua doutrina desumana e exercitar todos os domingos nossa tristeza imposta – a verdadeira "essência do cristianismo". Se bem que nos será permitido estarmos alegres somente em casos de pura estupidez, já que se está no meio de estúpidos, então poderemos saltitar, dançar, proferir músicas (se é que o são) de letras medíocres e rezar também mediocremente, pois um campeonato de rezas de vez em quando ajuda a nos levar à redenção, a estar mais próximos de Deus, de preferência na igreja, ao lado daquele que se diz o oficial imediato do grande nada que insistem em chamar de DEUS! Esse deus que eles tanto falam não existe! Um produto, aliás, um produto muito bem elaborado ao longo de centenas de anos; uma marca muito bem desenvolvida que lhes permite lucros exorbitantes durante eras incontáveis em lugares inimagináveis! A maior empresa do mundo: a igreja católica apostólica romana! Produto principal: Deus. Segmentos desse produto: Jesus, o que dizem Cristo, e seus asseclas, santos, santas e beatos, afora os que o povo adora como tais mesmo sem a aprovação estúpida dos homens estúpidos daquele antro chamado Vaticano, lugar onde estão escondidos e muito bem guardados os espólios de incontáveis épocas sobre os mais diversos povos nas mais diversas regiões do planeta. Sim, eles podem tudo, eles são tudo, diria até o mais estúpido de todos os fiéis.


O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...